Jacinto Prado Coelho

Por Maria de Lourdes A. Ferraz

Jacinto Almeida do Prado Coelho nasceu (1-9-1920) e morreu (19-5-1984) em Lisboa onde sempre viveu. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e aí exerceu, durante quarenta anos, a sua principal tarefa de Professor.

Filho de um Professor de Liceu, António do Prado Coelho, que publicou ensaios de crítica literária, pode bem dizer-se que a literatura foi a casa (e a Causa) vital de J.P.C. Com efeito, entre os 15 e os 16 anos tinha já uma produção poética, narrativa e até ensaística muito ativa, como Luís Amaro refere na Bibliografia detalhada que preparou para o volume de Homenagem a J.P.C., Afecto às Letras.

Mas é o seu intenso percurso universitário que revela desde cedo uma plena maturidade difícil de atingir no campo das humanidades. O seu doutoramento antes dos 27 anos mostra-o já muito seguro do caminho a percorrer quando, ao propor-se estudar a obra de Camilo Castelo Branco, no que designa apenas uma Introdução, desenvolve um amplo conhecimento de “como nasce e cresce e se transforma a novela camiliana” nas suas “vicissitudes biográficas”, “ambiente cultural”, considerando, também, a história do “género novelístico antes de Camilo e as possíveis influências directas de autores estrangeiros e nacionais”. Tendo em conta, quanto mais não seja, a quantiosa produção especificamente camiliana e não só, pode avaliar-se as capacidades que este trabalho exigiu. Poucos anos depois (1951), no concurso para Professor Extraordinário, apresentou, pela primeira vez na Universidade, um estudo sobre Fernando Pessoa, onde, mais uma vez, para além da obra de Pessoa (inédita então em grande parte), se percebe, apesar da contenção que o poder de síntese requeria, o seu amplo domínio da literatura em sentido lato, sem em nada perder a clareza da exposição. Com pouco mais de 30 anos (1953) ascende a Professor Catedrático e já nessa altura a sua bibliografia se apresenta muito promissora no que à Literatura Portuguesa diz respeito, com estudos e antologias de autores do Romantismo, de Fialho de Almeida e de Pascoaes, por exemplo.

Até 1984 não deixou nunca de se dedicar a tarefas que demonstraram sempre a sua placidez e tolerância aliadas a uma exigência de trabalho aturado e rigoroso, um lúcido e visível escrúpulo no dar a conhecer uma investigação variada que tanto privilegiava autores maiores (Camões, Garrett, Cesário, por exemplo) como autores ditos menores (João Xavier de Matos em particular e o sec. XVIII português em geral), tanto quanto autores quase desconhecidos (Matias Aires, Francisco Dias Gomes). Não há, pode dizer-se, autor ou época da Literatura Portuguesa que desconhecesse. Por isso ninguém mais capaz de harmoniosamente aliar o ensino na Universidade com atividades congéneres. Publicou textos, pouco acessíveis ao grande público, de autores do sec. XVIII, XIX e XX (cf. Bibliografia) que antecedia de cuidadosa apresentação e estudo.

Pertenceu à Sociedade Portuguesa de Escritores, de que foi Presidente até ao seu encerramento em 1965; foi codirector, primeiro, e diretor, depois, da Revista Colóquio/ Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, membro de várias Academias como a Academia das Ciências de que foi presidente e vice-presidente, Academia Brasileira de Letras, a Real Academia Galega, e Sociedades como a Hispanic Society, a Associação Internacional de Críticos Literários de que foi vice-presidente (e presidente do Centro Português da mesma Associação). Estas atividades não foram incompatíveis com o ingente trabalho de execução (encarregou-se de inúmeras e múltiplas entradas), coordenação e publicação do Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, com reedições várias entre 1960 e 83, trabalho sempre em aberto, pois título e número de volumes foram, o primeiro, ligeiramente alterado e os segundos substancialmente aumentados.

Não admira que, com tão intenso e constante labor, tivesse assumido desde muito cedo a existência e necessidade da literatura como uma realidade imperiosa na sua evidência estética, ainda que multímoda e complexa. Se começou com um trabalho intitulado A Educação do Sentimento Poético (1944), o ensino da literatura não deu explicitamente azo a muitos trabalhos, mas condicionou, como pressuposto, todos os seus estudos. Privilegiou uma escrita que demonstrava, pela sua clareza, uma preocupação didática e mostrou assim que a pertinente atenção ao valor da literatura, era não só um serviço de justiça à arte a que se dedicava, mas uma função pedagógica em vista ao equilíbrio que lhe competia desenvolver. Com efeito, no capítulo de Ao Contrário de Penélope, intitulado “Como Ensinar Literatura”, desenvolve um pensamento que não deixa lugar a dúvidas quanto à sua conceção de literatura e ao modo como sempre encarou a sua responsabilidade docente: “Ler colectivamente (em diálogo com a obra literária, em diálogo de leitor com outros leitores) é, com efeito, além de prazer estético, um modo apaixonante de conhecimento [...] Não há, suponho, disciplina mais formativa que a do ensino da literatura [...] Saber idiomático, experiência prática e vital, sensibilidade, gosto, capacidade de ver, fantasia, espírito crítico – a tudo isto faz apelo a obra literária, tudo isto o seu estudo mobiliza. [...] A literatura não se faz para ensinar: é a reflexão sobre a literatura que nos ensina”. Elucidativos excertos que vêm coroar conceitos e práticas desenvolvidas durante toda uma vida.

Apesar de o sec. XX ter sido atravessado por inúmeras controvérsias acerca da literatura e das metodologias mais convenientes ao seu estudo, de posse desse conhecimento, J.P.C. manteve princípos e conceitos que orientaram o seu trabalho: a literatura como produção estética em forma de linguagem (sem que isso implicasse aderir a meros formalismos); a literatura como organismo desenvolvido em sistemas - os géneros, por exemplo - sem que isso implicasse a redução da leitura a esquemas sistemáticos; a possibilidade de múltiplas aproximações à literatura e portanto a aceitação de metodologias diversas não exclusivas.

Classificava a sua leitura crítica do texto literário como “leitura imanente” (termo comum no sec. XX em teorias advogadas quer pela Estilística, quer pelo, assim designado, New Criticism, quer pelo Formalismo Russo) o que correspondia a uma consideração da obra literária enquanto tal, e não enquanto documento social ou biográfico, embora considerasse que o conhecimento do autor, da sua biografia, do seu enquadramento cultural, ajudava a essa leitura. Na apreciação e análise dos textos literários reconhecia (como quase inevitável) a qualidade de constituirem um todo coerente e uno. A propósito de Fernando Pessoa, por exemplo, afirmava no prefácio que antecede o estudo que lhe dedicou: “a própria diversidade [...] vale como expressão dramática de identidade”.[...] “expressão dramática” é já em si uma forma de expressão, implica uma representação cénica, a certeza de que a expressão literária (ou poesia) não existe senão em forma de”. Por outras palavras, a coerência e unidade da obra com valor estético não se opõe a uma ambiguidade e fluidez significativa. Ou ainda, a complexidade da literatura é inerente à sua própria condição estética de ser linguagem; sem que, no entanto, essa condição obrigue a um absoluto caráter intransitivo da literatura – o seu ensimesmamento – ou se torne o caminho para uma leitura desconstrutiva que o seu tempo não chegou a conhecer como prática metodológica.

Situado metodologicamente entre a História Literária, tal como o Romantismo e sucedâneos do fim do sec. XIX e primeira metade do sec. XX a foram entendendo, e a reação a essa metodologia, corporizada em todas as teorias do sec. XX que enfatizavam o estudo da literatura em si, J.P.C. esclareceu, mais do que uma vez, mas claramente em ensaio sobremaneira dedicado ao assunto, a importância que dava à questão e o modo como a entendia. Corrigiu qualquer apreço por um biografismo feito de petits faits, bem assim como a utilização pura e simples da literatura como documento de época ou autor. No entanto nunca desligou o conhecimento da literatura do conhecimento da história que a enquadrava.

Interrogando-se sobre a “actualidade” de um poeta do passado – no caso exemplar Camões – admite que a sua qualidade estética lhe permite ascender ao estatuto de ser temporal e intemporal. Digamos que a questão envolve dois atores principais: o autor- texto na sua qualidade estética e o leitor como recetor atual que recria o que recebe. Esta consideração dialogal (no ser bifronte que é a literatura, segundo o seu ponto de vista) levou-o a enquadrar progressivamente a atividade da leitura na perspetiva de uma estética da receção, o que metodologicamente foi colher aos estudos de receção da Escola alemã de Constança, nomeadamente aos trabalhos de Hans Robert Jauss. Esta conceção metodológica levou-o a sublinhar progressivamente a questão do leitor e da leitura ao ponto de ter organizado durante alguns anos um projeto sob o signo da sociologia da literatura (cf. Problemática da Leitura – aspetos sociológicos e pedagógicos).

A última recolha de ensaios, publicada sob o título Camões e Pessoa, Poetas da Utopia, é bem reveladora da atenção que deu aos trabalhos de Jauss, sem contudo aplicar ipsis verbis a sua metodologia. Neste livro, recolha de ensaios vários sob o signo de dois poetas maiores da Literatura Portuguesa, J.P.C. assume a utopia como “categoria mental” e aposta no futuro da literatura tanto quanto nos valores do seu passado. “A literatura é o espaço da utopia” diz, e continua, “Com efeito tal como a utopia, o lugar da poesia ou da ficção é o lugar inexistente em que, de modo implícito ou direto, o lugar-aqui se projeta”.

Quanto à sua Causa, sempre inacabada e também ela utópica, declara nesse mesmo último livro de uma forma quase inédita no seu percurso de recatado estudioso: “Escrevo por necessidade de evasão, para ver mais claro, para prolongar o exercício da leitura, para me aproximar dos outros, para os influenciar, para substituir a vida, para me sentir vivo. [...] Se alguma coisa aprendi (julguei aprender) ao longo dos anos foi a importância do irracional em mim e nos outros, quanto há de imprevisível nos comportamentos, como é problemática toda a possível verdade – e recordei que em mim a tolerância se antecipou a esse aprendizado, em vez de logicamente ir resultando dele. O perspectivismo, o jogo de espelhos ganharam a minha simpatia”.

Morreu muito cedo J.P.Coelho, ele que sentia não ter passado “dos vinte”. Numa interrogação retórica, deixa como herança de juventude uma inextinguível paixão pela literatura e pela vida: “Como é que por fora me podem ver diferente da minha verdade inalterável, tecido que sou de incompletude e esperança, de inquietude e ânsia de mais? Terei construído no subconsciente, para meu próprio uso, uma intemporal imagem utópica? Ou será na chamada utopia que a minha verdade mais autêntica se afirma, contra as ilusórias evidências em que os outros se fundamentam?”a.

Bibliografia das obras principais, por ordem cronológica:

  • A Educação do Sentimento Poético, Coimbra: Coimbra Editora, 1944.
  • A Poesia de Teixeira de Pascoaes, Ensaio e Antologia, Coimbra: Atlântida, 1945
  • Introdução ao Estudo da Novela Camiliana, Coimbra:Col.Atlântida,1946; 2ªed., 2vols., Lisboa: INCM, 1982 e 1983.
  • Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Lisboa: Revista Ocidente, 1951; 2ªed., Lisboa: Editorial Verbo, 1963; ... 7ª edição, 1982.
  • Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, (Direção J.P.C.), Porto: Liv. Figueirinhas, 1960; 2ªed., Dicionário de Literatura. Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira e Literatura Galega, Estilística Literária, 2vols, 1971; 5vols, 1973; 7ª reimp., 1983.
  • Camilo Castelo Branco, Obra Seleta, 2 vols., Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1960.
  • Poetas Pré-Românticos, Coimbra: Atlântida, 1961.
  • Problemática da História Literária, Lisboa: Edições Ática, 1961; 2ª ed., s.d.[1972].
  • Contos de Camilo Castelo Branco, Seleção, prefácio e notas, Lisboa: Editorial Verbo, 1961.
  • Poetas do Romantismo, Seleção, introdução e notas, 2vols., Lisboa: Liv. Clássica Editora, 1965.
  • Teixeira de Pascoaes, Obras Completas, Lisboa: Liv. Bertrand, 7 vols – [1965-1975]
  • Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, (com Georg Rudolf Lind), Lisboa: Ed. Ática, s.d. [1967]
  • A Letra e o Leitor, Lisboa: Portugália Editora, 1969; 2ªed., Lisboa: Moraes Editores, 1977.
  • Ao Contrário de Penélope, Lisboa: Livraria Bertrand, 1976.
  • Matias Aires, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, (com Violeta Crespo Figueiredo), Lisboa: INCM, 1980.
  • Problemática da Leitura – aspetos sociológicos e pedagógicos, [com AAVV], Lisboa:INIC [InstitutoNacional de Investigação Científica], 1980.
  • Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Recolha e transcrição dos textos: Maria Aliete Galhoz, Teresa Sobral Cunha, 2vols., Lisboa: Ática, 1982.
  • Originalidade da Literatura Portuguesa, Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1977; 2ª ed., 1983.
  • Camões e Pessoa, Poetas da Utopia, Lisboa: Publicações Europa-América, 1984.

Nota: Para uma consulta exaustiva, ver Afeto às Letras. Homenagem da Literatura Portuguesa Contemporânea a Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, INCM, 1984.

Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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