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Tapeçarias de Pastrana

A propaganda do poder

É uma obra cheia de mistérios. Não se sabe exatamente quando foi feita (último quartel do séc. XV), não se sabe quem é o seu autor, embora se julgue conhecer quem fez esta «encomenda quase sem precedentes» (o rei D. Afonso V) e quem a fabricou (as oficinas de Passchier Grenier, em Tournai, na Flandres).

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Atribuído à oficina de Passchier Grenier, A Tomada de Tânger; c. 1471-1475; tapeçaria de lã e seda; dimensões: 400 x 1082 cm; Colegiada da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Pastrana (Guadalajara). ©Fundação Carlos de Amberes. Fotografias de Paul M.R. Maeyaert

Attributed to the workshop of Pasquier Grenier, The Conquest of Tangier, c. 1471-1475, wool and silk tapestry, overall: 400 x 1082 cm (157 1/2 x 426 in.), Collegiate Church of Our Lady of the Assumption, Pastrana (Guadalajara). ©Fundación Carlos de Amberes. Photographs by Paul M.R. Maeyaert 

Também não se conhecem as circunstâncias em que entrou em Portugal, como desapareceu em seguida, para reaparecer em Espanha, logo em 1532. Em contrapartida, existem algumas ideias razoavelmente claras sobre as motivações que terão estado na sua origem e o seu significado. E uma certeza: as quatro tapeçarias de Pastrana, que retratam a conquista de Arzila e a ocupação de Tânger pelos portugueses, em 1471, no reinado de Afonso V, são de uma enorme beleza nas suas dimensões monumentais (10 m de largura por 4 m de altura).
Estão desde esta semana a ser mostradas nos Estados Unidos, na National Gallery of Art de Washington, até 8 de janeiro, numa exposição coorganizada por esta entidade e pela Fundação Carlos de Amberes (Espanha), que tomou a iniciativa, em 2008, do restauro das tapeçarias, propriedade desde o séc. XVII da Colegiada da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Pastrana, por doação do duque de Pastrana, localidade espanhola a cerca de 50 km a sudeste de Guadalajara. O conjunto designado pelas tapeçarias de Pastrana, em lã e seda, compreende duas outras, ainda não restauradas e não mostradas nesta exposição, sobre outra conquista africana de D. Afonso V, Alcácer Ceguer (1458), ao que se julga encomendadas posteriormente, eventualmente pelo seu filho, o rei D. João II, «visando completar a evocação da gesta marroquina do soberano», segundo António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
A exposição em Washington - possível, como diz a National Gallery, com o «generoso apoio» dos governos de Espanha, de Portugal, através do Instituto Camões, e da Bélgica - intitula-se A Invenção da Glória: Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana. Embora com o mesmo nome da que esteve patente em Portugal, em 2010, no MNAA, em Lisboa, no âmbito das comemorações dos 25 anos da adesão de Portugal e Espanha à Comunidade Económica Europeia, a exposição de Washington, que depois deverá ser vista de 5 de fevereiro e 13 de maio no Meadows Museum, de Dallas, no Texas, e mais tarde noutras cidades norte-americanas ainda não anunciadas, não é exatamente a mesma que foi vista em Lisboa. Faltam-lhe os painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, que fazem parte do acervo do MNAA, de onde não podem sair.

Semelhanças…

A junção dos painéis mais famosos da arte antiga portuguesa à exibição das tapeçarias em Portugal reeditou uma associação estabelecida entre as duas obras, desde que a existência das tapeçarias em Pastrana foi dada a conhecer em Portugal, em 1915, por José de Figueiredo e Reynaldo dos Santos. Este último, médico, pedagogo e crítico de arte, defende em 1925 que a autoria dos cartões das tapeçarias pertence a Nuno Gonçalves, nomeado pintor régio por Afonso V em 1450, uma atribuição hoje rejeitada.
 

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Atribuído à oficina de Passchier Grenier, O Desembarque em Arzila; c. 1475-1500; lã e seda; 368 x 1108 cm; Colegiada da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Pastrana (Guadalajara). ©Fundação Carlos de Amberes. Fotografias de Paul M.R. Maeyaert

Attributed to the workshop of Pasquier Grenier, Landing at Asilah, 1475-1500, wool and silk, 368 x 1108 cm (144 7/8 x 436 1/4 in.), Collegiate Church of Our Lady of the Assumption, Pastrana (Guadalajara). ©Fundación Carlos de Amberes. Photographs by Paul M.R. Maeyaert 

Refere Dalila Rodrigues no catálogo da exposição em Portugal que àquela associação não foi alheia um «discurso museológico» de «exaltação nacionalista» que caracterizou a I República e o Estado Novo, centrado na «Epopeia dos Descobrimentos» e «no propósito de legitimar a tese da existência da ‘Escola Portuguesa de Pintura’». Não conseguindo recuperar as tapeçarias para Portugal, o Estado Novo acabaria aliás por adquirir em 1957 cópias feitas em Espanha, entre 1943 e 1949, que estão hoje expostas no Paço Ducal de Guimarães, num «claro testemunho do reconhecimento da sua importância histórica e artística, assim como do seu valor simbólico», no dizer de Dalila Rodrigues.
Mas se Nuno Gonçalves não é o autor, e verdadeiramente não se saiba quem ele terá sido, painéis e tapeçaria, encomendados aparentemente ambos pelo mesmo rei, comungam no dizer da especialista do mesmo «essencial desejo de celebração» e apresentam similitudes que geraram em parte essa primeira atribuição dos cartões das tapeçarias ao pintor quinhentista português. Tal como os painéis, as tapeçarias, feitas com grande pormenor e que de alguma forma se «leem» como uma banda desenhada, no dizer de Miguel Angel Aguilar, presidente da Fundação Carlos de Amberes, apresentam – enuncia Dalila Rodrigues – o mesmo «suposto ‘carácter português’ das cabeças das personagens», o seu elevado número, escalonamento de baixo para cima e aglomeração nos planos de fundo, a «importância do retrato», «pormenores de heráldica e o realismo de elementos figurativos», patente na precisão da iconografia militar e náutica – armas, armaduras e máquinas de guerra –, a ponto de o catálogo da exposição nos Estados Unidos incluir um novo texto, da autoria de Donald J. La Rocca, do departamento de armas e armaduras do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, em que as tapeçarias são apresentadas como uma autêntica «enciclopédia visual» para o estudo do material bélico do séc. XV.

…E diferenças

No entender dos especialistas, estas especificidades não chegam para definir um autor para as tapeçarias, sendo mais aparentes do que reais. E mesmo a abundância de pormenores nas tapeçarias não permite sequer dizer, como alguns defenderam, que o seu autor teria estado presente nos eventos que retratam. Alguns aspetos das tapeçarias mostram a sua filiação na tradição têxtil europeia da época. Reportando-se a Maria José Mendonça, Dalila Rodrigues evoca «o tratamento convencional das arquitecturas, da vegetação, dos tipos fisionómicos e dos supostos elementos exóticos representados nas tapeçarias». Mesmo os detalhes náuticos e militares existirão noutras tapeçarias de tema militar do século XV.
A National Gallery, na apresentação da exposição, diz que os panos, que classifica como «góticos», estão entre «os exemplos mais precoces e raros de tapeçarias criadas para celebrar o que eram então eventos contemporâneos». As tapeçarias apresentam ainda uma peculiaridade, que as torna diferentes daquelas que lhe são coevas na Europa. É verdade que, sendo de temática militar, diferem dos «episódios de teor bíblico ou mitológico ou, quando menos, de História Antiga», que eram, segundo António Filipe Pimentel num texto incluído no catálogo da exposição em Portugal, mais comuns neste tipo de panos, destinados frequentemente a forrarem as paredes despidas das enormes salas de palácios e moradas reais, dando-lhes conforto. Mas o que as distingue, refere o diretor do MNAA, é o facto de serem «panos para a História», que estabelecem uma «relação operativa» deliberada com a «contemporaneidade», mas não no sentido de uma ilustração jornalística, como alguns são tentados a pensar.
 

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Atribuído à oficina de Passchier Grenier, O Cerco de Arzila; 1475-1500; lã e seda; 428 x 1078 cm; Colegiada da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Pastrana (Guadalajara). ©Fundação Carlos de Amberes. Fotografias de Paul M.R. Maeyaert

Attributed to the workshop of Pasquier Grenier, Siege of Asilah, 1475-1500, wool and silk, 428 x 1078 cm (168 1/2 x 424 7/16 in.), Collegiate Church of Our Lady of the Assumption, Pastrana (Guadalajara). ©Fundación Carlos de Amberes. Photographs by Paul M.R. Maeyaert

Nas tapeçarias, considera António Filipe Pimentel, professor universitário e antigo diretor do Museu Grão Vasco, projeta-se «a imagem recriada (e por isso inventada, mental) de um monarca que nelas faria prova de uma aguda consciência da bondade retórica do monumento e da sua relevância na construção póstuma de uma visão perspectivada da sua acção como Rei e Chefe». Tanto mais que a encomenda parece coincidir com o envolvimento mal sucedido de Afonso V nas disputas pela coroa de Espanha (1474-1479), que alguma forma marcam o termo do seu reinado e o levam a retirar-se deprimido e a morrer em 1481
Com este «anseio de criar uma imagem para a História» de «inventar-se um registo de glória», Afonso V, o rei ‘medieval’, imbuído de ideais cavaleirescos e fé cruzadística, «faz prova (…) de uma aguda e moderna ciência da importância operativa dos meios cénicos e visuais», em antecipação ao que fará no século XVI, por exemplo, Carlos V de Espanha, que celebra a sua conquista de Tunes com tapeçaria semelhante, considera o diretor do MNAA.
No entanto, na «tapeçaria da História», como refere António Filipe Pimentel, este «príncipe culturalmente humanizado» ficou como um «príncipe imperfeito», entalado entre as figuras que o antecederam (o tio-regente D. Pedro, que morre em Alfarrobeira) e lhe sucederam (D. João II) pela pena de cronistas e historiadores, mas para que terá também contribuído o «próprio precoce desaparecimento, de território português, do prodigioso ciclo evocativo da sua glória militar [as tapeçarias], complementado com o longo olvido dos hoje célebres painéis [de São Vicente]».


 

O que contam os quatro panos

As 4 tapeçarias de Pastrana expostas na National Gallery, em Washington –  três sobre a conquista de Arzila e uma sobre a ocupação de Tânger em Agosto de 1471 –  não são um «instantâneo» daqueles eventos, mas uma recriação em que se parecem misturar pormenores reais, ‘liberdades artísticas’ e preocupações narrativas.
A série de Arzila está dividida em O Desembarque, O Cerco e O Assalto àquela cidade do «Algarve de Além-Mar em África», território que Afonso V passa, a partir da conquista, a acrescentar à sua longa lista de títulos. Nas tapeçarias, existem legendas  explicativas, embora as de O Cerco tenham sido cortadas.
 

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Atribuído à oficina de Passchier Grenier, O Assalto a Arzila; 1475-1500; lã e seda; 369 x 1099 cm; Colegiada da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Pastrana (Guadalajara). ©Fundação Carlos de Amberes. Fotografias de Paul M.R. Maeyaert

Attributed to the workshop of Pasquier Grenier, Assault on Asilah, 1475-1500, wool and silk, 369 x 1099 cm (145 1/4 x 432 11/16 in.), Collegiate Church of Our Lady of the Assumption, Pastrana (Guadalajara). ©Fundación Carlos de Amberes. Photographs by Paul M.R. Maeyaert.

Impressiona nas tapeçarias o elevado número de personagens retratados com enorme pormenor e a ‘arte’ de concentrar, numa composição, um conjunto de acontecimentos situados numa linha temporal. Isso é patente, talvez melhor do que em qualquer outra, na tapeçaria de O Desembarque, em que o rei português, rutilante na sua armadura forrada a brocados, acompanhado pelo infante D. João, e sempre assinalado pela presença do estandarte de Portugal e pelo pendão real (um rodízio aspergindo gotas), aparece por duas vezes, a marcar dois momentos: após o desembarque e já em marcha para a cidade.
Este desejado efeito de realismo mistura-se com fantasia. Algumas das flâmulas que ondeiam por sobre as tropas não podem ser atribuídas a qualquer linhagem nobre, segundo nota Miguel Ángel de Bunes Ibarra. Também a figuração de Arzila e dos seus defensores muçulmanos é puramente convencional, acompanhando os padrões vigentes na Europa para ambientes ‘exóticos’. E os telhados muito inclinados e as numerosas torres da cidade correspondem de facto a uma urbe do norte da Europa.
A tapeçaria de O Cerco dá conta de um aspeto histórico, ao mostrar a paliçada defensiva erguida em volta do arraial português, onde estão presentes as bombardas protegidas por mantas de madeira, mas não a brecha que os sitiantes abriram. Já divisão do campo português, mostrada neste pano, em dois setores – comandados pelo rei e pelo infante, que aparecem a cavalo e envergando belas armaduras ––  não pode ser confirmada por ausência de fontes.
Esta divisão está depois repetida na tapeçaria de O Assalto., onde não figuram , as numerosas peripécias do ataque final relatadas por fontes históricas. Estão, no entanto, segundo Miguel Ángel de Bunes Ibarra, «na concepção cavaleiresca e nobiliária com que é descrito o assalto a Arzila e na importância dada ao rei e ao infante em ambas as tapeçarias».
Mais graficamente informativa é a tapeçaria de A Tomada de Tânger, que evoca a ocupação da cidade, devido ao abandono da sua população, dias depois da conquista de Arzila, visível na linha do ‘horizonte’. Vê-se a progressão da coluna de cavalaria e infantaria portuguesa, vinda do lado esquerdo. No centro do pano está a cidade, vazia, onde apenas um soldado ergue o estandarte português no topo de um torreão. Do lado direito, observa-se a fuga da população muçulmana. O rei e o infante estão ausentes. «Com esta simples sucessão de acontecimentos, o pano consegue resumir os factos ocorridos a 28 de Agosto de 1471 – Rui de Pina fala-nos do dia 29 –, data da ocupação de Tânger pelo exército português», escreve o especialista espanhol.



Esclarecer o enigma

A Fundação espanhola Carlos de Amberes (FCA) quer investigar «alguns dos enigmas que se colocam sobre as origens e as andanças» das tapeçarias de Pastrana, que relatam pela imagem as conquistas portuguesas no norte de África feitas pelo rei Afonso V, agora mostradas na National Gallery of Art, em Washington.
A instituição espanhola, que se dedica às relações entre a Espanha e os antigos países baixos espanhóis e que tomou a iniciativa em 2008 de restaurar quatro das seis tapeçarias de Pastrana, fabricadas no último quartel do séc. XV na Flandres e descritas como «obras excecionais», cujo custo na época equivaleria a três caravelas.
A precoce saída de Portugal das valiosas tapeçarias, com uma importância simbólica manifesta, constitui um mistério, como admitiu ao Público, em Junho de 2010, António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), quando da apresentação das obras restauradas, pela primeira vez, em Portugal. «É muito misterioso», declarou. Depois de produzidas em Tournai, terão entrado em Portugal «provavelmente já no reinado de D. João II, e em 1532, poucas décadas depois de terem sido feitas, aparecem em Espanha, no inventário dos bens dos duques do Infantado», que as cedem à Colegiada de Pastrana, sem que se saiba como foram parar ao país vizinho.
A FCA apresenta uma cronologia diferente: os panos «poderão ter sido tomadas como despojos de guerra depois da derrota de Afonso V na batalha de Toro [1476] ou oferecidos pessoalmente pelo monarca luso ao Cardeal [Pedro González de] Mendoza, protetor de Joana a Beltraneja, mulher de Afonso V», em nome da qual o rei português disputou a coroa espanhola.
 

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Atribuído à oficina de Passchier Grenier, O Desembarque em Arzila (pormenor); c. 1475-1500; lã e seda; 368 x 1108 cm; Colegiada da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Pastrana (Guadalajara). ©Fundação Carlos de Amberes. Fotografias de Paul M.R. Maeyaert

Attributed to the workshop of Pasquier Grenier, Landing at Asilah (detail), 1475-1500, wool and silk, 368 x 1108 cm (144 7/8 x 436 1/4 in.), Collegiate Church of Our Lady of the Assumption, Pastrana (Guadalajara). ©Fundación Carlos de Amberes. Photographs by Paul M.R. Maeyaert

No séc. XVII, quando do casamento da herdeira do título do ducado do Infantado (da família Mendoza) com o 4º duque de Pastrana, e na impossibilidade de estarem armadas por falta de espaço, as tapeçarias são legadas à Colegiada de Pastrana, na condição de serem mostradas nas ruas durante a procissão do Corpus Christi, tradição que é mantida até aos anos 30 do séc. XX, quando, estando em restauro em Madrid, são selecionadas pelo governo republicano para serem transferidas juntamente com outras obras do património espanhol para a Suíça, como medida de salvaguarda durante a guerra civil.
Regressam a Pastrana em 1950, onde se mantêm até à sua redescoberta, restauração na manufatura De Wit (Malines, Bélgica) e exibição nos Museus Reais de Arte e História de Bruxelas, no Palácio do Infantado de Guadalajara, no Museu de Santa Cruz de Toledo, no MNAA de Lisboa, na Fundação Carlos de Amberes, em Madrid, e agora nos Estados Unidos, de onde voltarão às instalações da Colegiada, já expurgadas das traças que as consumiam.

 

 

 

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