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Polónia, República Checa e Roménia são os três países em que o Português é uma disciplina opcional ou curricular nos programas oficiais do ensino não universitário, seja ele básico, secundário ou médio.

Cracóvia
Cracóvia

Segundo José Carlos Dias, leitor do IC na Universidade de Varsóvia, no Liceu Ruy Barbosa, da capital polaca, «o português é umas das línguas estrangeiras do leque de opções curriculares, ao lado do inglês, alemão e russo». E numa escola secundária de Lublin e em duas de Cracóvia é uma opção livre.

Ao todo são 188 alunos, cabendo a fatia principal aos 122 inscritos em seis turmas – duas por cada nível (inicial, elementar e intermédio) – do Liceu Ruy Barbosa, segundo os dados avançados pelo leitor do IC. Na escola secundária de Lublin, há 30 alunos de português divididos numa turma de nível inicial e outra de nível elementar. Já em Cracóvia, o Liceu nº V e o Liceu nº XVII têm cada um uma turma de nível inicial, com 12 e 17 alunos, respectivamente. O Liceu nº XVII passará a ter duas turmas este mês com carácter obrigatório, revela José Carlos Dias.

Na Polónia, a integração de uma língua estrangeira nos currículos escolares depende da vontade da escola, afirma José Carlos Dias. Foi o que aconteceu com o Liceu Ruy Barbosa. «A integração do Português como língua curricular em escolas do ensino inicial é um trabalho por fazer na Polónia», considera o leitor que lamenta o facto de em 2006/2007 o Estado polaco ter retirado o Português do leque de exames de língua estrangeira que se fazem no 12º ano.

Na Roménia, é possível estudar Português em três liceus – Eugen Lovinescu, de Bucareste, George Galinescu, de Constança, e Mihai-Eminescu, da cidade de Cluj Napoca. Em 2008/2009, mais de 260 alunos frequentavam aulas de Português nestes três estabelecimentos. Entre o 5º e o 12º anos, em Bucareste, e entre o 9º e 12º anos nos liceus das duas outras cidades.

Já na República Checa, o Português é disciplina opcional da Escola de Hotelaria de Praga, um estabelecimento de ensino técnico, e na Escola Média/Superior de Praga 7, especializada em línguas, que corresponde, grosso modo, ao que hoje é em Portugal o ensino secundário (10º ano em diante) e um bacharelato, que na realidade se assemelha mais ao que se poderia descrever como ensino pré-universitário, um pouco à maneira americana – na explicação de Joaquim Coelho Ramos –, mas que permite, como já aconteceu no ano passado com três alunos, o acesso ao mestrado universitário, segundo o modelo de Bolonha. Aqueles alunos escolheram o Português para matéria do seu exame de Estado de acesso aos mestrados de Língua Portuguesa e Pedagogia.

Na Escola de Praga 7, os exames de acesso, em Junho, trouxeram mesmo uma surpresa: «o Português foi a língua mais procurada». De 52 candidatos para várias línguas, 22 foram para Português.

Na escola de Hotelaria os alunos têm de escolher línguas e entre estas está o Português, uma disciplina anual. No ano lectivo de 2008/2009 12 alunos fizeram essa opção e o seu número este ano será da mesma ordem.

Praga
Festa da Europa na Escola PrimáriaRoztoky u Prahy, Praga

No norte da República Checa, o Gymnázium de Lovosice, na localidade do mesmo nome, estabeleceu um projecto no âmbito da União Europeia com a Escola E B 2,3 de Paranhos, Porto, em que um dos principais efeitos é o ensino do Português na faixa etária dos 14-17 anos, revela ainda Joaquim Ramos. Dois professores dessa escola checa estão a frequentar este ano um curso intensivo de Português, apoiado pelo IC, no CLP de Praga, para depois ministrarem o Português de nível básico aos seus alunos.

No passado, houve também o ensino de Português numa escola da Morávia, na cidade de Šumperk, mas neste momento não há professor. «Vamos tentar pôr lá alguém», promete Joaquim Ramos, que explica a dificuldade pelos «muitos pedidos a nível do superior para o ensino do Português». «Não temos capacidade de resposta», admite o responsável do CLP de Praga, onde mais 25 checos aprendem Português nos vários níveis dos cursos livres. É essa a razão por que não tem sido possível satisfazer o pedido da Universidade Técnica de Liberec de abertura de um curso de Português não conducente a grau académico.

O ensino de Português nestas escolas do leste europeu é assegurado maioritariamente por professores dos respectivos países. Em Varsóvia, segundo indica José Carlos Dias, são professoras polacas licenciadas em Estudos Portugueses pela Universidade de Varsóvia. Em Lublin, o Português é assegurado por seis professores da secção de Estudos Portugueses da Universidade de Marie-Curie Sklodowska, entre os quais há um de nacionalidade portuguesa. Em Cracóvia, o professor é um cidadão português a viver na cidade, com formação em ensino de Português. Na Roménia, o panorama não é muito diferente, assim como na República Checa.

Para facilitar a preparação de professores, em Outubro passado foi assinado um protocolo entre IC e o município de Cracóvia, que tutela os dois liceus da cidade em que se ensina Português – o V Liceum Ogólnoksztalcace im Augusta Witkowskiego e o XVII Liceum Ogólnoksztalcace im. Mlodej Polski. –, o qual permite aos estudantes do 2º ciclo de Filologia Portuguesa da Universidade Jagellónica, de Cracóvia, efectuar os estágios pedagógicos necessários à obtenção do diploma de «magister» (professor) no ensino da Língua Portuguesa.

A intervenção dos leitorados e dos centros de língua portuguesa do IC no apoio pedagógico a estes professores é diversa. Enquanto na Roménia o apoio científico-didáctico está nas atribuições dos leitores portugueses, na Polónia essa ligação é mais fluida. «Como a professora de Varsóvia é jovem e não tem muita experiência de ensino, eu apoio-a na planificação e preparação das aulas. Mas esta situação é nova e excepcional», declara José Carlos Dias. «Normalmente a planificação lectiva é da responsabilidade dos professores», sublinha, acrescentando que «a relação das escolas com o IC vê-se nas actividades culturais do leitorado».

Já na República Checa, a intervenção científico-didáctica do CLP/IC de Praga nas escolas secundárias é pontual. O responsável do centro está sobretudo preocupado em responder à procura de professores de Português, como acontece com a formação em curso de dois professores para o o Gymnázium de Lovosice, a cargo do próprio leitor português e de um bolseiro checo, filólogo de português.

Motivações

«Há imensas razões» para haver um grupo de gente relativamente significativo a querer estudar Português. Vão «desde as mais comezinhas» às mais «académicas», refere Joaquim Coelho Ramos, que não distingue entre as motivações dos estudantes do secundário e da universidade. Dá como exemplo das primeiras motivações o caso de checos que «vêm fazer o Erasmus [o programa europeu de intercâmbio de estudantes entre universidades] a Portugal, arranjam um namorado e querem fazer Português», ou o de dois alunos que ouviram Mariza e quiseram aprender Português. Mas também existem estudantes que querem pura e simplesmente trabalhar ao nível da investigação em literatura portuguesa sobre Miguel Torga e Raul Brandão (dois casos concretos) ou que «têm de aprender uma 2ª língua românica por razões de currículo e escolhem o Português».

Há ainda, segundo diz Joaquim Coelho Ramos, uma segunda «fornada» de gente de estabelecimentos como a Universidade de Agronomia de Praga, da Faculdade Pedagógica da Universidade de Brno ou da Universidade de Hradec Kralove, no centro da República Checa, entre a Boémia e a Morávia, que está envolvida em programas de cooperação com países africanos de língua oficial portuguesa. Razão também pela qual «muita gente do corpo diplomático da República Checa está a aprender Português, ou já aprendeu Português», refere.

No entanto, no interesse dos checos pelas línguas e pelo Português, está toda uma outra atitude. E Joaquim Coelho Ramos, docente desde 2005 na Universidade Carolina de Praga, explica: «as pessoas pensam que estudar línguas é uma coisa gira… Na República Checa quando têm empresários a investir na Indonésia, têm um checo que fala qualquer língua da Indonésia para acompanhar os empresários. Isto é uma vantagem económica extraordinária». Não admira assim que na Universidade de Economia de Praga (VSE), que tem cerca de 14 alunos em Português, todas as faculdades tenham um departamento de línguas e os alunos tenham que aprender «uma, duas ou três línguas». «É uma visão completamente diferente das coisas. Entendem que, para fazer uma expansão económica, de influências, saber línguas é fundamental».

No limite dessa diferente atitude das pessoas em relação às línguas está o caso, por exemplo, de quem esteja «a reflectir se vai estudar Medicina ou Latim». «A questão põe-se», garante o responsável do CLP/IC de Praga. «A visão do ensino superior na República Checa não é tirar Português para ser professor de Português. É estudar para saber mais e depois logo se vê».

Na Polónia, José Carlos Dias regista motivações menos diversificadas. Os alunos do liceu de Varsóvia cedo contactam com a língua portuguesa porque o patrono da escola é o político e literato brasileiro Ruy Barbosa. «Portanto, a maior parte escolhe Português porque fica curioso e quer saber mais sobre Portugal e sobre o Brasil: música e futebol, principalmente». «Normalmente são estas também as razões que ouço noutras escolas», acrescenta. Mas há também razões menos ‘exaltantes’. Um punhado de alunos escolhe o Português como segunda língua estrangeira «para fugir do alemão e do russo, línguas nem sempre populares entre os polacos devido às relações entre a Polónia e estes países».

Oportunidades

Mas que repercussões tem afinal esta aprendizagem de Português na vida dos seus estudantes?

Na República Checa há imenso emprego para quem sabe Português, afirma Joaquim Coelho Ramos. Numerosos estudantes são depois tradutores ou guias turísticos. A língua portuguesa é uma das mais bem pagas entre os guias turísticos de Praga. E muitos outros trabalham em multinacionais, com interesses em África ou no Brasil, que têm escritórios na República Checa, porque aí «é mais barato ter mão-de-obra altamente especializada», ou em empresas checas que trabalham para essas multinacionais. E todas elas precisam de pessoas que falem português.

O quadro para a língua portuguesa é na República Checa o oposto da crise. O Brasil é sem dúvida uma das explicações e a África também. Mas «o que é facto é que há muita gente a procurar a literatura portuguesa para trabalhar. Neste momento temos carência de tradutores literários, porque as pessoas têm procurado mais teses de doutoramento na área da linguística», razão que levou a Universidade Carolina a lançar com o apoio do IC um concurso de tradução literária aberto a todos os lusitanistas da República Checa.

As cerca de 90 empresas com capital português existentes na Polónia criam saídas profissionais para quem aprende a língua portuguesa. «Várias destas empresas, principalmente as mais pequenas, precisam de pessoas que falam português para funções de secretaria, assistência de direcção, tradução, contacto com clientes, ou seja, funções de mediação entre as chefias portuguesas e os funcionários polacos. A Cifial, por exemplo, acabou a semana passada de contratar um aluno meu de Varsóvia para assistente de direcção», relata José Carlos Dias.

Depois, tal como em Praga, há as possibilidades abertas pelo turismo – guias, hotéis, agências de viagem. «Duas ex-estudantes minhas abriram uma empresa de guias turísticas para portugueses e brasileiros e desde a Páscoa até Outubro não têm descanso de tantas visitas guiadas que fazem», conta ainda o leitor de Varsóvia.

Menos significativas, no entender de José Carlos Dias, são as saídas profissionais no campo da interpretação, da tradução técnica e da tradução literária. «Este tipo de trabalhos têm uma natureza mais ocasional. Mas quando há eventos como conferências, provas de vinho, visitas oficiais, muitos estudantes e recém-licenciados são recrutados».

Por último, «mas não menos importante», aparece na Polónia o ensino do Português como saída profissional, seja em escolas privadas de línguas, seja na vida académica de uma das universidades com cursos de Português, que «nos últimos anos têm ganhado muita popularidade e recebem cada vez mais alunos». Razões para acreditar que o potencial de desenvolvimento do Português ainda não está esgotado.


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