Número 34   ·    16 de Maio de 2001   ·     Suplemento do JL, Nº 799, Ano XXI

Canta Angola

Canta Angola, um CD e videodocumentário produzidos com apoio do Instituto Camões, reflecte a realidade musical angolana trazendo ao público em geral novos sons e temas de Angola.

CANTA ANGOLA reflecte a realidade actual da música popular angolana. Filmado e gravado em Luanda, em Janeiro de 2000, este projecto - videodocumentário e CD - exprime os sentimentos e as aspirações populares. Para a produtora, Ariel de Bigault, "os músicos expressam a energia de viver para além da sobrevivência".

As gravações das músicas e imagens do videodocumentário CANTA ANGOLA realizaram-se em Luanda, em Janeiro de 2000, em condições difíceis, originadas pela situação vivida pelo povo angolano. Para Ariel de Bigault "a criatividade afirma a resistência ao desespero. As letras dizem os sofrimentos. O compasso marcado suporta a esperança. Os ritmos, dolentes ou rápidos, levam à alegria da dança".

A capital congrega um terço da população de Angola, incluindo centenas de milhar de refugiados. "Cada um parte diariamente em busca da sobrevivência. Os espectáculos são raros, mas, dos bares finos do centro da cidade até aos bairros populares da periferia, ouvem-se músicas de todos os cantos do país" continua Ariel de Bigault. Inspirando-se nas tradições regionais, cada artista recria, com a sua personalidade e talento, uma faceta da pluralidade angolana.

Este trabalho conta com a participação de vários músicos angolanos, originários de diferentes regiões mas que, por várias razões, encontraram-se em Luanda.

Carlitos Vieira Dias foi impulsionador de numerosos grupos e criações marcantes dos últimos quarenta anos. O guitarrista prossegue a obra de seu pai, Liceu Vieira Dias, que, com o Ngola Ritmos, forjou novos sons de Angola a partir de cantos e danças quimbundo. Seguindo o exemplo paterno, Carlitos transpõe a célula rítmica para as violas, tocadas por ele e por Betinho Feijó.

Nas percussões estão Gaqliano Neto e o grupo de Kituxi: "A dikanza – reco-reco – é o pêndulo que dá a marcação, hoje é a bateria que faz este papel mas o esfregar do pau não se sente."

Carlitos transmite os segredos das violas angolanas, soltando melodias em tons menores. "Canto a Luanda", composto em 1977, expressa os sofrimentos da época subsequente à independência (11/XI/1975). Carlitos integra influências brasileiras – Baden Powell, Luís Bonfan, Ataulfo Alves – numa rítmica de semba. "A arte de Carlitos é imensa" diz Paulo Flores no filme Canta Angola.

Outro integrante deste projecto, o trio Akapana, é do Lubango, Sul de Angola, onde predominam as culturas nanheca umbi e umbundu, pouco divulgadas no país. Acácio, Paulino e Namanga viveram a iniciação aos rituais de caça, pesca, dança, casamentos e óbitos, recriam ritmos e cantos assim como danças e trajes. Como sempre em Angola, a viola é o instrumento de predilecção, no entanto os teclados vêm completar a interpretação. Carlos Burity, um cantor já conhecido em Portugal, é uma grande voz do semba e um artista muito popular em Angola. Cresceu no meio dos músicos que nos anos 60 criavam cantos e danças, baseando-se nas estruturas quimbundos e nas interpretações zairenses e sul-americanas (Brasil, Caribe). Burity continua explorando as múltiplas variantes de sembas e recriando os lamentos. As letras que canta são propositadamente em vários idiomas de Angola.

A interpretação moderna associa violas e percussões (nomeadamente o reco-reco de Zé Fininho), aos sopros (mais recentes na música angolana), apoiados pelos teclados e bateria.

O Duo Moisés e José Kafala inspiram-se nos exemplos do Ngola Ritmos, Duo Ouro Negro, Rui Mingas e também na trova portuguesa. Os dois irmãos foram evoluindo para um folk elaborado a partir de várias formas regionais. Transpondo para a viola o ritmo – tocado por três percussões – do nhatcho, dançado nas festas de óbito em Benguela (Sul), criaram um estilo próprio: o catito.

Integram ainda este projecto a dinâmica e o som da Banda Maravilha que confere um novo brilho às danças luandenses. O seu repertório de temas tradicionais e de grandes autores, opõe-se à "música de plástico" (de programação electrónica). Seguindo ilustres exemplos das décadas passadas, os músicos da banda enriquecem o património luandense com novas sínteses rítmicas e harmónicas.

Palame é um semba-kazukuta, oriundo do Carnaval. No semba-cadenciado - xicola -, característico da banda, o compasso é mais pausado. O grupo recria também outras danças luandenses como o semba-kabetula e a rebita, e inventou um semba-coladeira.

Paulo Flores goza em Angola de grande popularidade. Aos dezassete anos foi uma das estrelas da kizomba, afro-zouk angolano. Após muitos sucessos e dezenas de milhar de discos vendidos, regressou às suas raízes.

Para Canta Angola Paulo Flores, nome sobejamente conhecido em Portugal, reuniu três gerações de excelentes músicos. Nas violas, Carlitos Vieira Dias, com quem aprendeu alguns dos segredos das melodias angolanas, Betinho Feijó, sembista de toque vivo, e o virtuoso Simmons Massini. Galiano Neto formou-se nos princípios rítmicos dos anos 70, enquanto Chico Santos cresceu no ambiente musical pós-independência.

"Poema do Semba" e "Serenata a Angola", característicos da criação actual de Paulo, conjugam angolanidade e modernidade. Cantos e danças em tons menores e sonoridades acústicas situam-se nas confluências entre África e o Atlântico.