|
| Número 25
·
06 de Setembro de 2000 |
|
Eça de Queirós, sempre Edições
Eça de
Queirós é, com Luís de Camões e Fernando Pessoa, um dos escritores portugueses mais
conhecidos fora de Portugal. Ana Madureira realizou um catálogo intitulado Eça no
estrangeiro Os últimos 25 anos, particularmente útil na medida em que
cataloga as traduções de obras de Eça disponíveis em alemão, ingles, francês, basco,
búlgaro, catalão, checo, chinês, croata, eslovaco, húngaro, italiano, japonês,
neerlandês, polaco, romeno e sueco, complementando assim o trabalho exaustivo levado a
cabo por Ernesto Guerra da Cal. Ficamos, deste modo, a saber que os países que mais têm
traduzido Eça e que são, por esta ordem Espanha (27), França (23), Alemanha (19)
e Itália (14). No caso de Espanha, importa destacar que entre os tradutores avultam
grandes nomes da cultura do país vizinho como Valle-Inclán, Carmen Martin Gaite e Gomez
de la Serna.
Mas o trabalho de Ana Madureira faz mais: a esta importante listagem, acrescenta uma
outra igualmente preciosa para o investigador a da mais recente e significativa
bibliografia passiva sobre Eça publicada nestas línguas. Uma pequena curiosidade: entre
os autores referidos conta-se, por exemplo, Gonzalo Torrente Ballester. Em 1983, este
escritor, agraciado com o Nobel da Literatura, publicou o artigo «Partiendo de Fradique
Mendes» no jornal La Voz de Galicia.
Destaque ainda para o catálogo da exposição Eça de Queirós marcos
biográficos e literários, uma edição que é quase uma fotobiografia do escritor.
Com texto e selecção de imagens de A. de Campos Matos, tal como o vídeo, este catálogo
passa em revista, de uma forma sintética, mas nunca superficial, a vida de Eça, desde o
nascimento na Póvoa de Varzim até à morte em Paris, 55 anos mais tarde. Em breves 75
páginas encontramos tudo (as grandes referências como Proudhon, Renan, Taine, Victor
Hugo e Flaubert), as raízes familiares, as viagens, a carreira diplomática, as amizades
(com outros grandes vultos da literatura portuguesa da segunda metade de Oitocentos,
nomeadamente Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Luís de Magalhães, Eduardo Prado e
Jaime Batalha Reis), os amores e o casamento com Emília, filha dos Condes de Resende.
Para breve está também a edição do próximo número da revista Camões (correspondente
aos meses de Julho, Agosto e Setembro) também ela dedicada ao centenário de Eça de
Queirós.
Vídeo-Documentário: O homem que nunca
se maçava
Nas
palavras da filha, Dona Maria Eça de Queirós (falecida em 1970),
adivinha-se a personalidade do escritor subjacente à sua obra.
Mesmo na tarefa árdua de burilar a escrita, guardava um sorriso
para os seus quatro filhos, um ensinamento como esse de que a vida
é demasiado preciosa para que nos deixemos maçar. Recordações
como esta surgem no filme da SinalVídeo, produzido e financiado
pelo Instituto Camões, Eça, Realidade e Ficção. Com guião
e apresentação do reputado queirosiano A. Campos Matos (autor de várias
obras, entre as quais o Dicionário de Eça de Queirós),
este trabalho (que tem edições vídeo legendadas em inglês, francês
e castelhano) traça o perfil biográfico do autor de Os Maias.
A acção do filme começa na Póvoa
de Varzim. Filho dos amores de Carolina Pereira d’Eça e de José
Teixeira de Queirós, José Maria de Eça de Queirós, nascido
naquela cidade costeira a 25 de Novembro de 1845, teve uma infância
decerto confortável, mas desprovida do afecto dos pais. Dos
cuidados de uma ama, residente em Vila do Conde, passará para casa
dos avós paternos em Verdemilho (Aveiro) e, à morte destes quando
contava dez anos, para o colégio da Lapa no Porto, onde, sob grande
austeridade, viverá a adolescência. Em 1861, ruma a Coimbra, onde
cursará Direito e encontrará Antero de Quental, circunstância que
terá profundas consequências na evolução literária de ambos.
Fazendo juz ao seu título - Eça: Realidade e Ficção – o
filme cruzará a partir de então a vida e a obra do escritor, lendo
frequentemente passagens de livros, cartas e testemunhos. Sobre
esses anos vividos em Coimbra, recordará: «Também me sentei num
degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num
enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida».
Segue-se nova «viagem» para o
espectador. Aos 21 anos, Eça terá uma experiência inédita: ruma
a Lisboa para, finalmente, viver com os pais e com os irmãos. Com
morada na Praça do Rossio, nº26, torna-se um janota, (como recorda
a filha), frequentando os lugares da boémia chique da capital – o
Grémio Literário, a Casa Havaneza, o Passeio Público, o Aterro, o
Café Martinho (supremamente elogiado no romance A Capital),
lugares que depois se tornarão o palco de personagens inesquecíveis
como João da Ega, Carlos da Maia, Maria Eduarda, Dâmaso Salcede,
Palma Cavalão, Artur Corvelo, Luísa e o seu primo Basílio. O
essencial da formação do escritor estava assegurado. Ao longo dos
anos acumulará funções oficiais com a escrita. Em 1872, torna-se
diplomata, assumindo o cargo de cônsul em Havana. Seguir-se-ão os
postos de Newcastle, Bristol e Paris, onde falecerá em 1900. As funções
diplomáticas nunca se mostraram incompatíveis com a escrita e a
publicação – a sua bibliografia é publicada por esta ordem: O
Crime do Padre Amaro (1876); O Primo Basílio (1878); A
Relíquia (1887) e Os Maias (1888).
Embora nunca deixe de assinalar a
importância literária destas obras e do seu autor, Eça de
Queirós: Realidade e Ficção nunca perde de vista o homem.
Aborda a sua profunda e longuíssima amizade por Ramalho Ortigão,
com quem escreveu As Farpas e O Crime da Estrada de
Sintra, o modo como se indignou contra as condições de
trabalho dos trabalhadores macaenses em Havana e o profundo amor e
respeito que devotou à esposa, Emília, e aos quatro filhos do
casal.
Ao contrário de muitos outros
artistas do século XIX, os seus contemporâneos não tardaram a
reconhecer-lhe o talento. Cem anos depois, a homenagem é completa.
A sua obra continua perfeitamente actual.
Eça de Queirós, cidadão do mundo
Eça
nunca esteve em terras brasileiras, mas nem por isso o Brasil deixou
de devotar uma autêntica paixão aos seus livros. Como tal, o
projecto «Eça de Queirós entre milénios: os pontos do olhar»,
que o Instituto Camões tem vindo a desenvolver ao longo do ano
queirosiano, irá voltar ao Brasil nos próximos dias 18 a 26 de
Setembro, para uma série de encontros em torno da vida e obra deste
grande escritor português. Depois dos painéis que tiveram lugar no
Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre no passado mês de Junho,
será agora a vez das cidades de Brasília, Recife e Belo Horizonte
receberem conferencistas de vários países, nomeadamente
portugueses e brasileiros.
Em Pernambuco (18 e 19 de Setembro)
intervirão Beatriz Berrini («Vida efémera/arte perene»), Sânzio
de Azevedo («Eça de Queirós e o Ceará»), Dagoberto Carvalho Jr
(«Penambuco e sua paixão queiroziana»), César Sales Giusti («Presença
estílistica de Eça em Graciliano Ramos»), Anco Márcio Tenório
Veiga («Eça de Queirós, da literatura ao cinema: Alves &
Cia e Amor &Cia »), Sebastião Vila Nova («Eça de
Queirós, sociológo»), Nelson Saldanha («Panorama das ideias no
Recife ao tempo de Eça de Queirós»), Isabel Margarida Duarte («O
discurso das personagens em Os Maias: polifonia, modernidade»),
Annabela Rita («Discurso, discursos n’O Primo Basílio»),
Carlos Reis («Eça de Queirós e a Estética do Fim»), Maria do
Rosário Cunha («Leitores na ficção queirosiana: entre o prazer e
o dever»), Luís Adriano Carlos («Ficção do Número e a Estética
Digital em A Cidade e as Serras»), Marie Hélène
Piwnick («O Último Eça») e Maria Manuel Lisboa («Casos há para
que a lei não dá: Singularidades do Amor Queirosiano»).
Em
Belo Horizonte (21 e 22 de Setembro), os conferencistas serão Lélia
Parreira Duarte («A ironia de Eça em O Conde de Abranhos,
ou bom mestre, melhor secretário...»), Ângela Vaz Leão («A
prosa poética d’As Cidades e as Serras»), Maria Manuel
Lisboa («Entre Mulher e Mulher, Não se Meta a Colher:
Singularidades do Amor Queirosiano»), Silvana de Oliveira («O Tédio
de Ulisses»), Paulo Motta Oliveira («Um país traduzido do francês
em calão») e ainda Maria Nazareth Soares Fonseca («Fradique
Mendes nas rotas do Black Atlantic»). Carlos Reis, Dagoberto
Carvalho Jr, Isabel Margarida Duarte, Annabela Rita, Maria do Rosário
Cunha, Luís Adriano Carlos e Maria Manuel Lisboa apresentarão a
mesma conferência já efectuada em Pernambuco, tal como acontecerá
em Brasília, cujo encontro se realizará nos dias 25 e 26 de
Agosto. No auditório da Reitora da Universidade da capital
brasileira, usarão ainda da palavra Almir Campos Bruneti («Eça e
Machado: antecipações, complementaridades, encontrões»), Elza
Miné («Fradiquices brasileiras»), Laura Padilha («Uma lança
metida em África: uma leitura de A Ilustre Casa de Ramires),
Maria Aparecida Santilli («Eça e o genótipo dos homens: o conto Adão
e Eva no paraíso»), Fátima Freitas Morna («Notas Românticas
na Obra de Eça») e Isabel Pires de Lima («Eça hoje: Diálogos
Ficcionais»).
O programa tem levado o debate em
torno da vida e obra de Eça a vários dos locais que ele visitou,
quer como escritor, quer como diplomata. Depois de Havana (1 e 2 de
Fevereiro) e de Paris (17 a 19 de Maio) seguir-se-ão Bristol (16 e
17 de Novembro), Santiago do Chile, Buenos Aires e Montevideu, já
no próximo ano. Um longo périplo inteiramente justo, na medida em
que Eça foi um cidadão do mundo.
Paralelamente a estes colóquios, a
operação «Eça de Queirós entre dois milénios», comissariada
por Isabel Pires de Lima, professora da Universidade do Porto,
especialista também ela na obra de Eça, inclui ainda um vídeo-documentário,
várias edições (ver página 2) e a exposição biográfica Eça
de Queirós - marcos biográficos e literários. Composta por 23
painéis que enquadram o escritor na época em que viveu, a exposição
tem circulado pelos Centros Culturais, Centros de Língua Portuguesa
e leitorados do I.C e ainda em várias instituições estrangeiras
(nomeadamente bibliotecas) onde também é apresentado o vídeo Eça
de Queirós: Realidade e Ficção (já exibido por várias
televisões estrangeiras). Ao todo, estão abrangidos por este
programa meia centena de países. Em Cuba (onde Eça exerceu as funções
de cônsul de Portugal entre 1872 e 1874), esta exposição ficou
mesmo a fazer parte do Café Columnata Egipciana, assinalando assim
a memória dos tempos em que o escritor ali se detinha, com o bloco
de notas e um charuto.
No âmbito destas comemorações, o
Instituto Camões incluiu ainda uma secção na sua página na
Internet que contempla a apresentação geral do escritor e da sua
iconografia, bibliografia, estudos mais representativos, traduções
e noticiário das comemorações em português, inglês, espanhol e
francês (www.instituto-camoes.pt).
O I.C celebrou ainda um protocolo
com a Fundação Eça de Queirós, através do qual serão
concedidas anualmente dez bolsas a professores e estudantes
estrangeiros, no âmbitos dos cursos de Verão. De salientar,
finalmente, que será editado um álbum com obras de artistas plásticos
que se inspiraram na obra de Eça de Queirós.
Comemorações em Portugal
O
programa de comemorações do centenário de Eça de Queirós levado
a cabo pelo Instituto Camões, apesar de vocacionado para o
estrangeiro, tem encontrado muita receptividade em Portugal.
Nas livrarias Bertrand e Bulhosa,
em Lisboa, estão já à venda as obras Marcos biográficos e
literários, a obra Eça no estrangeiro - os últimos 25 anos
- Tradução e crítica e o vídeo Eça de Queirós -
Realidade e Ficção. Estes produtos serão, aliás, lançados
publicamente, nos próximos dias 12 (NorteShopping, Matosinhos) e 13
de Setembro (FNAC do Chiado, em Lisboa) com conferências introdutórias
de A. Campos Matos e Isabel Pires de Lima.
A exposição "Marcos biográficos
e literários" poderá igualmente ser apreciada pelo público
português. Depois do Amoreiras Shopping, em Lisboa (onde esteve de
16 a 28 de Agosto), estará no NorteShopping (a partir de 12 de
Setembro) e em cinco estações do Metropolitano de Lisboa (Chiado,
Marquês de Pombal, Campo Grande, Entrecampos e Colégio Militar).
|