Número 106 ·   22 de Novembro de 2006 ·   Suplemento do JL n.º 943, ano XXVI


Instituto Camões acolhe a exposição «Joan Brossa, de Barcelona ao Novo Mundo»


Sergio Valenzuela e Glòria Bordons

A exposição «Joan Brossa, de Barcelona ao Novo Mundo» foi inaugurada, na sede do Instituto Camões, em Lisboa, no dia 3 de Novembro, pelo Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Europeus, Manuel Lobo Antunes, ficando aberta ao público até 5 de Janeiro de 2007.

Falámos com os seus comissários científicos, Glòria Bordons, especialista na obra de Joan Brossa e representante máximo do patronato da Fundació Joan Brossa, e Sergio Gonzàlez Valenzuela, historiador de arte e professor da Universidade Finis Terrae de Santiago do Chile, numa visita guiada pelo interior da exposição.

Com base no vosso conhecimento acerca da obra de Joan Brossa, quais os aspectos e características essenciais que tornam pertinente a realização da exposição?

Glòria Bordons (G.B.) - Joan Brossa é um poeta. É basicamente poeta. Um poeta que trabalhou muitos registos distintos, começando por escrever poesia. Enveredou, desde logo, pelos poemas experimentais. Esta exposição pretende dar uma visão bastante ampla do trabalho de Joan Brossa, desde os primeiros trabalhos, os poemas experimentais a partir do ano de 1947, os primeiros livros, cadernos, a participação na Revista Dau al Set, que foi muito importante na Espanha dos anos 50 (entre os anos de 1947 e 1955), a relação com outros pintores. Ao longo da exposição verificamos igualmente a sua faceta mais visual, mais plástica, através de poemas visuais, cartões, poemas-objecto, que o artista começa a fazer no ano de 1951. No entanto, a sua produção é mais intensa nos anos 70 e 80. Há também instalações, livros de artista, as colaborações de Joan Brossa com outros artistas, como é o caso de Tàpies e Miró. Nos próximos dias, ainda durante a exposição, vamos poder assistir a um pequeno filme de Joan Brossa, porque ele também escrevia roteiros de cinema. «Joan Brossa, de Barcelona ao Novo Mundo» é uma visão de todas as fases e de quase todas as facetas. Além disso, o público ficará a conhecer melhor as suas opiniões sobre a poesia.

Sergio Valenzuela (S.V.) - A partir do que disse a Glòria, um aspecto muito importante para esta exposição é o facto de podermos contrastar e relacionar a obra de Brossa com aspectos relativos aos locais de passagem da exposição - o Chile, o Brasil, a Argentina e agora Portugal.

O Sergio, enquanto historiador de arte, interessa-se particularmente pela obra de Joan Brossa?

S.V. - Sim. É uma obra que me fascina. Uma das coisas mais importantes em Brossa é precisamente essa variedade de produção, ou seja, uma personagem que é poeta, que é escritor, e que consegue abarcar o espectro tão amplo de todas as coisas que se passam à nossa volta: produções visuais, obras de cinema, obras de teatro. Isso é algo que normalmente não se vê. Normalmente, quando um poeta faz incursões noutros campos que não sejam propriamente literários, abarca um ou dois registos. Joan Brossa abarca oito registos. Isto é fundamental.

Quando é que começou a interessar-se pela obra de Brossa?

S.V. - Descobri primeiro Brossa poeta. Li-o primeiro enquanto poeta, o que me agradou imenso. Em Espanha, em 2000, tive a oportunidade de ver um catálogo de obras suas e depois, em 2001, vi uma exposição muito importante, na Fundação Miró, em Barcelona, da qual gostei muito e comprei os catálogos. Daí, digamos, surgiu um pouco isto de começar a investigar a obra de Brossa, e a partir do momento em que conheço a Glória, proponho esta ideia, que no momento pareceu meio louca, mas que, graças a ela e a todo o esforço dela, se levou a cabo. De facto, estamos aqui, completando um longo itinerário que começou na América do Sul e que termina aqui na Europa, pela primeira vez em Portugal.

Que alcance poderá ter esta exposição, em termos culturais, neste caso, para Portugal e para Espanha?

G.B. - Vai ter com certeza um alcance muito importante, como disse o Sergio. São importantes os diálogos que pretendemos fazer com esta exposição. É por esta razão que a mostra se faz acompanhar de actividades paralelas. Nestas actividades paralelas, neste caso, aqui em Lisboa, no dia 6, na Universidade Nova de Lisboa, decorreu um colóquio entre professores que se dedicam à poesia experimental portuguesa, com um trabalho de investigação muito importante sobre poesia experimental portuguesa dos anos 60. Participei enquanto oradora e falei de poesia visual experimental catalã, em Brossa, e o Sergio conversou também sobre o que aconteceu no Chile, mais propriamente no Continente Sul-Americano. Isso vai servir para fazer umas ligações, ligações que depois também vimos num recital entre poetas experimentais portugueses e catalães. Outra das actividades é a representação de uma obra teatral de Brossa. No dia 22, no Instituto Cervantes, o Grupo Mandrágora de Cascais fez uma leitura dramatizada de uma obra, com a presença do Director que representou a obra na Catalunha, e também Carlos Pimenta, um conhecido encenador português. Estes são tipos de iniciativas que creio que permanecem e que poderão reforçar os laços e a relação entre a cultura catalã e a cultura portuguesa.

Como é que encaram esta cooperação institucional e a acção das várias entidades envolvidas no projecto?

G.B. - São muitas as entidades envolvidas no projecto. Mas o que aconteceu aqui em Portugal foi algo muito interessante, porque nos outros lugares a ideia surgiu, como explicou o Sergio, quando nos conhecemos, e encontrámos patrocínios por parte das instituições catalãs e espanholas, mas essencialmente nas instituições catalãs. Nos outros lugares fomos nós próprios, os comissários, que procurámos um espaço para a exposição e para a realização de seminários, com a ajuda das embaixadas ou do Instituto Cervantes. Mas aqui em Portugal, desde logo, foi importante a colaboração do Instituto Camões com o Institut Llull da Catalunha, com a Fundação Joan Brossa, para organizar uma iniciativa conjuntamente, uma ligação que pudesse ir para além desta exposição. Por exemplo, num Museu uma exposição está patente durante uns dias, depois o público visita-a mas não há nada mais depois disso. Não há diálogo, nem repercussões. Por essa razão, foi muito interessante trabalhar com uma instituição cultural como o Instituto Camões, porque foi incrível a sua atitude de envolvimento neste projecto, desde o primeiro momento.

S.V. - Sim, eu creio que foi precisamente isso. Porque normalmente um Museu é um receptor da exposição, ou seja, instala-se, faz-se a inauguração e depois as pessoas visitam-na. E nada mais. O êxito fica dependente da quantidade de pessoas que a visitam e da repercussão na imprensa. Mas uma instituição cultural põe precisamente ênfase nisto - em actividades de cooperação, de difusão e de recepção. E isso é fundamental, neste caso, em Portugal.

Como é que convidariam as pessoas a visitar a exposição? O que é que lhes diriam?

G.B. - Dizia-lhes que vão ver coisas surpreendentes. O mais surpreendente aqui, na sede do Instituto Camões, é o próprio espaço em que se pode ver a obra de Brossa. É a primeira vez que se faz aqui uma exposição desta importância, com tanta variedade de peças. São obras muito contemporâneas que poderiam chocar com este espaço antigo, com uma construção clássica, que é este palacete, mas acaba por existir uma harmonia e um diálogo entre o antigo e o moderno. Um diálogo parecido com os próprios objectos de Brossa. Isto porque, normalmente, nos seus objectos, ele põe muitas vezes em relação o clássico - coisas antigas, objectos quotidianos da vida das pessoas, alguns dos quais já não existem - e o moderno. Os tempos mudam mas os objectos permanecem em termos do seu valor histórico. Esta história é uma história de objectos do princípio do século XX que contrasta com a história deste palacete onde a exposição está instalada. O público ficará surpreendido com este tipo de combinações em jogos, em brinquedos - muitas das peças de Brossa são como brinquedos. O espectador tem que reagir, porque a obra de Joan Brossa é uma obra para pensar, para reflectir e muitas vezes para nos deixarmos surpreender e para rir até, inclusivamente. Há uma parte da exposição que reflecte muito sobre o compromisso social, ou o compromisso político de Brossa, e creio que os portugueses também o vão compreender muito bem porque também passaram por uma ditadura, por uma época parecida à época em que viveu Joan Brossa. E há muitas coisas dessa época que permanecem, quem sabe, não tanto nas nossas sociedades em termos isolados, mas na sociedade global, que tem uma série de problemas e de defeitos sobre os quais as obras de Brossa reflectem - as obras são muito contemporâneas e dizem muitas coisas sobre a vida e a forma de pensar de hoje. Creio que vão surpreender e fazer reflectir muito o público português.

S. V. - Concordo plenamente com o que a Glòria disse. Há muito para reflectir. A exposição reproduz fielmente o mundo catalão. Um mundo catalão que é reflexivo, irónico, que tem um humor negro muito especial. Creio que nesse sentido também é um reflexo de Barcelona e da Catalunha propriamente dita. Podemos encontrar desde uma reflexão muito poética ou política, a algo que nos faz morrer de riso. Creio que isso é precisamente um pouco daquilo que caracteriza a Catalunha. Brossa tem todos os registos e mostra-o claramente em obras que fogem aos formatos tradicionais de exposições de pintura ou de escultura. A mensagem chega muito rapidamente e é independente da linguagem. Brossa ultrapassa as fronteiras linguísticas, neste caso do catalão. As obras são facilmente entendidas por um brasileiro, um chileno ou um português. A máxima satisfação que um homem pode ter enquanto artista é que a sua mensagem seja recebida e seja parte de um deleite. Talvez não um deleite estético resultante de uma pintura bonita, mas sim um deleite pela obra em si mesma. Foi o que ocorreu comigo. Isso é fantástico.

A exposição já passou pelo Chile, pela Argentina, pelo Brasil. Como foi a receptividade por parte das pessoas ao contemplar a obra de Brossa?

S.V. - No outro dia falávamos precisamente disso. O que acontece é que esta exposição chega a públicos muito distintos, desde crianças a adultos, todos a desfrutam, desde pessoas muito cultas, até outras que não têm uma cultura artística, porque precisamente a mensagem é muito fácil, é directa. Não há aspectos encobertos. Observamos a obra com atenção e sabemos interpretá-la à nossa maneira. A obra de Brossa atinge diferentes universos sociais e níveis culturais. E isso é muito pouco habitual numa obra.

G.B. - Nem sempre a linguagem é tão fácil, mas neste caso há algumas obras que têm uma linguagem muito directa. É o caso de Elegia ao Che - olhamos e vemos que falta o C, o H, o E. No entanto, uma pessoa culta sabe o que é uma elegia, entende um pouco mais, sabe melhor o que representa o Che. Têm uma leitura mais profunda. Mas há outras obras que falam no interior da pessoa. Não há referências externas.

As obras podem ter diferentes interpretações…

G.B. - Claro, pode ter diferentes tipos de interpretações. Por exemplo, um poema visual que podemos ver aqui e que é uma espécie de labirinto e que depois sobe para uma espécie de lua. As pessoas podem ver muitas coisas distintas. Uma pessoa culta pode falar do labirinto e do fio de Ariadne, mas outras podem ver outras coisas. Toda a obra tem esse toque de poesia, que é falar das coisas do dia-a-dia mas com outros olhos. Para Brossa o saber olhar era muito importante. Ele dizia que convinha continuar sempre com os olhos abertos. Esta exposição da obra de Brossa é outra forma de olhar a realidade. Umas pessoas olharão de uma maneira e outras olharão de outra.

S.V. - Sim, e acaba por ser uma forma de abrir a mente e o coração. E Brossa tinha uma abertura mental e uma abertura de coração. De sentimentos perante a vida e perante as situações.