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Instituto Camões acolhe a exposição
«Joan
Brossa, de Barcelona ao Novo Mundo»

Sergio Valenzuela e Glòria Bordons |
A exposição «Joan Brossa, de Barcelona
ao Novo Mundo» foi inaugurada, na sede do Instituto Camões, em Lisboa, no
dia 3 de Novembro, pelo Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Europeus,
Manuel Lobo Antunes, ficando aberta ao público até 5 de Janeiro de 2007.
Falámos com os seus comissários científicos,
Glòria Bordons, especialista na obra de Joan Brossa e representante máximo do
patronato da Fundació Joan Brossa, e Sergio Gonzàlez Valenzuela, historiador
de arte e professor da Universidade Finis Terrae de Santiago do Chile, numa
visita guiada pelo interior da exposição.
Com base no vosso conhecimento acerca da obra
de Joan Brossa, quais os aspectos e características essenciais que tornam
pertinente a realização da exposição?
Glòria Bordons (G.B.) - Joan Brossa é um
poeta. É basicamente poeta. Um poeta que trabalhou muitos registos distintos,
começando por escrever poesia. Enveredou, desde logo, pelos poemas
experimentais. Esta exposição pretende dar uma visão bastante ampla do
trabalho de Joan Brossa, desde os primeiros trabalhos, os poemas experimentais a
partir do ano de 1947, os primeiros livros, cadernos, a participação na
Revista Dau al Set, que foi muito importante na Espanha dos anos 50 (entre os
anos de 1947 e 1955), a relação com outros pintores. Ao longo da exposição
verificamos igualmente a sua faceta mais visual, mais plástica, através de
poemas visuais, cartões, poemas-objecto, que o artista começa a fazer no ano
de 1951. No entanto, a sua produção é mais intensa nos anos 70 e 80. Há
também instalações, livros de artista, as colaborações de Joan Brossa com
outros artistas, como é o caso de Tàpies e Miró. Nos próximos dias, ainda
durante a exposição, vamos poder assistir a um pequeno filme de Joan Brossa,
porque ele também escrevia roteiros de cinema. «Joan Brossa, de Barcelona
ao Novo Mundo» é uma visão de todas as fases e de quase todas as facetas.
Além disso, o público ficará a conhecer melhor as suas opiniões sobre a
poesia.
Sergio Valenzuela (S.V.) - A partir do que
disse a Glòria, um aspecto muito importante para esta exposição é o facto de
podermos contrastar e relacionar a obra de Brossa com aspectos relativos aos
locais de passagem da exposição - o Chile, o Brasil, a Argentina e agora
Portugal.
O Sergio, enquanto historiador de arte,
interessa-se particularmente pela obra de Joan Brossa?
S.V. - Sim. É uma obra que me fascina. Uma das
coisas mais importantes em Brossa é precisamente essa variedade de produção,
ou seja, uma personagem que é poeta, que é escritor, e que consegue abarcar o
espectro tão amplo de todas as coisas que se passam à nossa volta: produções
visuais, obras de cinema, obras de teatro. Isso é algo que normalmente não se
vê. Normalmente, quando um poeta faz incursões noutros campos que não sejam
propriamente literários, abarca um ou dois registos. Joan Brossa abarca oito
registos. Isto é fundamental.
Quando é que começou a interessar-se pela
obra de Brossa?
S.V. - Descobri primeiro Brossa poeta. Li-o
primeiro enquanto poeta, o que me agradou imenso. Em Espanha, em 2000, tive a
oportunidade de ver um catálogo de obras suas e depois, em 2001, vi uma
exposição muito importante, na Fundação Miró, em Barcelona, da qual gostei
muito e comprei os catálogos. Daí, digamos, surgiu um pouco isto de começar a
investigar a obra de Brossa, e a partir do momento em que conheço a Glória,
proponho esta ideia, que no momento pareceu meio louca, mas que, graças a ela e
a todo o esforço dela, se levou a cabo. De facto, estamos aqui, completando um
longo itinerário que começou na América do Sul e que termina aqui na Europa,
pela primeira vez em Portugal.
Que alcance poderá ter esta exposição, em
termos culturais, neste caso, para Portugal e para Espanha?
G.B. - Vai ter com certeza um alcance muito
importante, como disse o Sergio. São importantes os diálogos que pretendemos
fazer com esta exposição. É por esta razão que a mostra se faz acompanhar de
actividades paralelas. Nestas actividades paralelas, neste caso, aqui em Lisboa,
no dia 6, na Universidade Nova de Lisboa, decorreu um colóquio entre
professores que se dedicam à poesia experimental portuguesa, com um trabalho de
investigação muito importante sobre poesia experimental portuguesa dos anos
60. Participei enquanto oradora e falei de poesia visual experimental catalã,
em Brossa, e o Sergio conversou também sobre o que aconteceu no Chile, mais
propriamente no Continente Sul-Americano. Isso vai servir para fazer umas
ligações, ligações que depois também vimos num recital entre poetas
experimentais portugueses e catalães. Outra das actividades é a
representação de uma obra teatral de Brossa. No dia 22, no Instituto Cervantes,
o Grupo Mandrágora de Cascais fez uma leitura dramatizada de uma obra, com a
presença do Director que representou a obra na Catalunha, e também Carlos
Pimenta, um conhecido encenador português. Estes são tipos de iniciativas que
creio que permanecem e que poderão reforçar os laços e a relação entre a
cultura catalã e a cultura portuguesa.
Como é que encaram esta cooperação
institucional e a acção das várias entidades envolvidas no projecto?
G.B. - São muitas as entidades envolvidas no
projecto. Mas o que aconteceu aqui em Portugal foi algo muito interessante,
porque nos outros lugares a ideia surgiu, como explicou o Sergio, quando nos
conhecemos, e encontrámos patrocínios por parte das instituições catalãs e
espanholas, mas essencialmente nas instituições catalãs. Nos outros lugares
fomos nós próprios, os comissários, que procurámos um espaço para a
exposição e para a realização de seminários, com a ajuda das embaixadas ou
do Instituto Cervantes. Mas aqui em Portugal, desde logo, foi importante a
colaboração do Instituto Camões com o Institut Llull da Catalunha, com a
Fundação Joan Brossa, para organizar uma iniciativa conjuntamente, uma
ligação que pudesse ir para além desta exposição. Por exemplo, num Museu
uma exposição está patente durante uns dias, depois o público visita-a mas
não há nada mais depois disso. Não há diálogo, nem repercussões. Por essa
razão, foi muito interessante trabalhar com uma instituição cultural como o
Instituto Camões, porque foi incrível a sua atitude de envolvimento neste
projecto, desde o primeiro momento.
S.V. - Sim, eu creio que foi precisamente isso.
Porque normalmente um Museu é um receptor da exposição, ou seja, instala-se,
faz-se a inauguração e depois as pessoas visitam-na. E nada mais. O êxito
fica dependente da quantidade de pessoas que a visitam e da repercussão na
imprensa. Mas uma instituição cultural põe precisamente ênfase nisto - em
actividades de cooperação, de difusão e de recepção. E isso é fundamental,
neste caso, em Portugal.
Como é que convidariam as pessoas a visitar a
exposição? O que é que lhes diriam?
G.B. - Dizia-lhes que vão ver coisas
surpreendentes. O mais surpreendente aqui, na sede do Instituto Camões, é o
próprio espaço em que se pode ver a obra de Brossa. É a primeira vez que se
faz aqui uma exposição desta importância, com tanta variedade de peças. São
obras muito contemporâneas que poderiam chocar com este espaço antigo, com uma
construção clássica, que é este palacete, mas acaba por existir uma harmonia
e um diálogo entre o antigo e o moderno. Um diálogo parecido com os próprios
objectos de Brossa. Isto porque, normalmente, nos seus objectos, ele põe muitas
vezes em relação o clássico - coisas antigas, objectos quotidianos da vida
das pessoas, alguns dos quais já não existem - e o moderno. Os tempos mudam
mas os objectos permanecem em termos do seu valor histórico. Esta história é
uma história de objectos do princípio do século XX que contrasta com a
história deste palacete onde a exposição está instalada. O público ficará
surpreendido com este tipo de combinações em jogos, em brinquedos - muitas das
peças de Brossa são como brinquedos. O espectador tem que reagir, porque a
obra de Joan Brossa é uma obra para pensar, para reflectir e muitas vezes para
nos deixarmos surpreender e para rir até, inclusivamente. Há uma parte da
exposição que reflecte muito sobre o compromisso social, ou o compromisso
político de Brossa, e creio que os portugueses também o vão compreender muito
bem porque também passaram por uma ditadura, por uma época parecida à época
em que viveu Joan Brossa. E há muitas coisas dessa época que permanecem, quem
sabe, não tanto nas nossas sociedades em termos isolados, mas na sociedade
global, que tem uma série de problemas e de defeitos sobre os quais as obras de
Brossa reflectem - as obras são muito contemporâneas e dizem muitas coisas
sobre a vida e a forma de pensar de hoje. Creio que vão surpreender e fazer
reflectir muito o público português.
S. V. - Concordo plenamente com o que a Glòria
disse. Há muito para reflectir. A exposição reproduz fielmente o mundo
catalão. Um mundo catalão que é reflexivo, irónico, que tem um humor negro
muito especial. Creio que nesse sentido também é um reflexo de Barcelona e da
Catalunha propriamente dita. Podemos encontrar desde uma reflexão muito
poética ou política, a algo que nos faz morrer de riso. Creio que isso é
precisamente um pouco daquilo que caracteriza a Catalunha. Brossa tem todos os
registos e mostra-o claramente em obras que fogem aos formatos tradicionais de
exposições de pintura ou de escultura. A mensagem chega muito rapidamente e é
independente da linguagem. Brossa ultrapassa as fronteiras linguísticas, neste
caso do catalão. As obras são facilmente entendidas por um brasileiro, um
chileno ou um português. A máxima satisfação que um homem pode ter enquanto
artista é que a sua mensagem seja recebida e seja parte de um deleite. Talvez
não um deleite estético resultante de uma pintura bonita, mas sim um deleite
pela obra em si mesma. Foi o que ocorreu comigo. Isso é fantástico.
A exposição já passou pelo Chile, pela
Argentina, pelo Brasil. Como foi a receptividade por parte das pessoas ao
contemplar a obra de Brossa?
S.V. - No outro dia falávamos precisamente
disso. O que acontece é que esta exposição chega a públicos muito distintos,
desde crianças a adultos, todos a desfrutam, desde pessoas muito cultas, até
outras que não têm uma cultura artística, porque precisamente a mensagem é
muito fácil, é directa. Não há aspectos encobertos. Observamos a obra com
atenção e sabemos interpretá-la à nossa maneira. A obra de Brossa atinge
diferentes universos sociais e níveis culturais. E isso é muito pouco habitual
numa obra.
G.B. - Nem sempre a linguagem é tão fácil,
mas neste caso há algumas obras que têm uma linguagem muito directa. É o caso
de Elegia ao Che - olhamos e vemos que falta o C, o H, o E. No entanto, uma
pessoa culta sabe o que é uma elegia, entende um pouco mais, sabe melhor o que
representa o Che. Têm uma leitura mais profunda. Mas há outras obras que falam
no interior da pessoa. Não há referências externas.
As obras podem ter diferentes interpretações…
G.B. - Claro, pode ter diferentes tipos de
interpretações. Por exemplo, um poema visual que podemos ver aqui e que é uma
espécie de labirinto e que depois sobe para uma espécie de lua. As pessoas
podem ver muitas coisas distintas. Uma pessoa culta pode falar do labirinto e do
fio de Ariadne, mas outras podem ver outras coisas. Toda a obra tem esse toque
de poesia, que é falar das coisas do dia-a-dia mas com outros olhos. Para
Brossa o saber olhar era muito importante. Ele dizia que convinha continuar
sempre com os olhos abertos. Esta exposição da obra de Brossa é outra forma
de olhar a realidade. Umas pessoas olharão de uma maneira e outras olharão de
outra.
S.V. - Sim, e acaba por ser uma forma de abrir
a mente e o coração. E Brossa tinha uma abertura mental e uma abertura de
coração. De sentimentos perante a vida e perante as situações.
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