Número 43   ·    23 de Janeiro de 2002   ·     Suplemento do JL, Nº 817, Ano XXI

Homenagem a Manuel Lopes


Manuel Lopes

A música e um ambiente de festa marcaram a homenagem do Instituto Camões ao escritor cabo-verdiano Manuel Lopes, no âmbito do projecto "Pontes Lusófonas". A homenagem na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa contou com a presença de várias personalidades da lusofonia e de muitos artistas cabo-verdianos que interpretaram Lisboa.

Manuel Lopes, único sobrevivente do movimento literário "Claridade" surgido no Mindelo em 1936 como uma afirmação de emancipação cultural, social e política da sociedade cabo-verdiana, foi homenageado pelo Instituto Camões, em Lisboa. Um evento onde foi apresentada uma fotobiografia do escritor e um CD de música cabo-verdiana tendo Lisboa como inspiração.

Rotas da Vida e do Escritor, é uma fotobiografia que regista uma conversa entre o escritor, o jornalista António Loja Neves e a investigadora Maria Armandina Maia, para além de depoimentos de outros escritores, nomeadamente Germano Almeida. Lisboa nos cantares cabo-verdianos revela um repertório eclético onde ficamos a conhecer as várias visões que no arquipélago se alimentavam sobre Lisboa. Neste CD encontramos as vozes de Titina, Bana, Maria Alice, Tito Paris, José Casimiro ou Ildo Lobo.


O embaixador de Cabo-Verde, João Higino Silva, com o escritor

O projecto Pontes Lusófonas – Um futuro para o passado, já na sua quarta edição, visa ser um espaço de reflexão e debate procurando aproximar em torno de referentes comuns as culturas da lusofonia.

Em Março de 2002, em Cabo Verde, nas cidades da Praia e do Mindelo, está prevista a realização de um extenso programa de debates com representantes dos oito países de Língua Oficial Portuguesa . Pretende-se dar destaque para os valores que constituem o património nacional de cada país, a literatura, as artes plásticas, teatro, arquitectura, jornalismo, música, artesanato ou ciência. Apela-se assim aos "fazedores de cultura" conhecedores da riqueza do património do seu país que possam fazer as pontes do diálogo entre lusofonias.

As anteriores edições das Pontes Lusófonas realizaram-se em Lisboa, Maputo e Brasília.

Manuel António dos Santos Lopes nasceu a 23 de Dezembro de 1907 no Mindelo, ilha de São Vicente. Foi um dos "claridosos" fundadores do movimento "Claridade", tal como o poeta Baltazar Lopes, entre outros. Hoje é o único sobrevivente desta geração de referência para a Cultura cabo-verdiana e para as letras lusófonas. Flagelados do Vento Leste (1968) é uma das suas obras mais celebrada, adaptada para o cinema em 1987 pelo realizador António Faria, com produção de António da Cunha Telles. Chuva Braba, um romance de 1956, Horas Vagas (poesia, 1934), Poemas de Quem Ficou (poesia, 1949), Temas Caboverdeanos (ensaios, 1950), O Galo Cantou na Baía (contos, 1959), Crioulo e Outros Poemas (poesia, 1964), As Personagens de Ficção e os seus Modelos (ensaio, 1971) e Falucho Ancorado (antologia poética com alguns inéditos, 1997), são títulos seus que consagram uma carreira.  

Manuel Lopes – rotas da vida e da escrita

Coordenado por Maria Armandina Maia, pretende traçar o perfil não só do escritor de mérito como do cidadão empenhado. O nome de Manuel Lopes goza de "uma aura, não só de mérito literário, mas de cidadão que, ao longo de uma vida inteira, construiu e reconstruiu, sem cessar espaços preciosos para a identidade cabo-verdiana", escreve Jorge Couto no prefácio. Um livro que segundo o presidente do IC, junta a voz do Instituto "aos intelectuais que, de há longa data, reconhecem no nome de Manuel Lopes um dos mais importantes pilares da edificação de uma rota da caboverdianidade".

Maria Armandina Maia acerca do autor de Chuva Brava afirma: "Manuel Lopes continua a sonhar o futuro como as personagens que criou", referindo a sua "modéstia, pouco habitual nos dias de hoje".

Este livro reúne ainda um conjunto de fotografias do autor de Flagelados do vento Leste, desde a sua juventude, até aos dias de hoje, fotografias de amigos e dos muitos locais por onde passou, bem como uma entrevista conduzida por M. Armandina Maia e António Loja Neves onde o escritor explana razões da escrita e da vida.

Num dos testemunhos recolhidos nesta obra, o também escritor cabo-verdiano, Germano Almeida, afirma ter Manuel Lopes adquirido "direito de ficar credor do respeito e da homenagem de todos os filhos das ilhas". Germano de Almeida salienta a coragem do homem que formou um grupo que afirmou a incontestável independência literária de Cabo Verde. O movimento Claridade, surgido em 1936. Acerca desse movimento na entrevista dada, Manuel Lopes afirma: "Claridade não era de esquerda nem da direita, nós não discutíamos mesmo política, não queríamos política lá dentro", mas reafirma a caboverdianidade do projecto: "só devíamos respeitar uma cláusula: a de tratar assuntos que dissessem respeito a Cabo Verde. A Claridade era uma revista cabo-verdiana". É a realidade do povo de Cabo Verde que lemos nos livros de Manuel Lopes como enfatiza Germano Almeida: "E é de facto sobre Cabo Verde, sobre o problema do povo de Cabo Verde, que Manuel Lopes conta nos seus livros". O povo a quem, para fugir á censura, Manuel Lopes teve de chamar "população" a conselho do seu amigo Jorge Barbosa. É esta e outras histórias que Manuel Lopes vai desfiando na sua entrevista. Fala da sua passagem pelos Açores e a vinda para Coimbra a contra gosto pois pretendia regressar á sua terra natal. Nos Açores conhece Vitorino Nemésio que considera "muito inteligente e muito culto". É também nos Açores que começa a dedicar-se á pintura "Onde comecei a pintar regularmente foi nos Açores" um situação motivada, segundo atesta pela "solidão de linguagem".

Voltando ao movimento Claridade, Manuel Lopes se refere as influências brasileiras nega veementemente qualquer influência de José Lins do Rego. "Comigo não seu deu influência nenhuma. É claro, basta olhar para as estruturas dos romances. E nessa altura líamos todos os brasileiros, não apenas o Lins do Rego. O Brasil teve sempre um movimento literário muito importante que nos interessava". Uma conversa que passa também pelos seus livros e as suas personagens. "Eu não posso gostar nem deixar de gostar das minhas personagens. Elas são o que são. Eu limito-me a ir na senda de um caminho que o nexo das suas atitudes define", afirma.

Hoje afirma que não anda aborrecido nem pelos cantos da casa "a abrir aboca" . Diz que anda com as suas personagens, e quando encontra um amigo garante que é uma alegria. Gosta que lhe telefonem. "O que prefiro é estar com eles a conversar". E sendo escritor afirma não é muito de "escrivinhar cartas" apesar de ter os amigos afastados. Esta é a sua solidão, confessa.