Número 78   ·     29 de Setembro de 2004    ·     Suplemento do JL, Nº 887, Ano XXIV

IX Bienal de Arquitectura de Veneza


Inês Lobo

Bernardo Rodrigues

Nuno Brandão Costa

Marcusandmarjan Architects

A Bienal de Arquitectura de Veneza tem sido um momento para a reflexão sobre a situação internacional da Arquitectura, divulgando a um público, cada vez mais vasto, projectos, arquitectos e tendências actuais no panorama desta disciplina. A primeira exposição internacional de Arquitectura de Veneza data de 1980. Desde 1975 até esta data, as exposições de arquitectura decorreram inseridas na Mostra de Artes Visuais.

Portugal participa este ano na IX Bienal de Arquitectura de Veneza com o projecto Metaflux, já inaugurado em Itália na Artiglerie dell'Arsenale com a presença da Secretária de Estado das Artes e Espectáculos, Teresa Caeiro, e de Paulo Cunha e Silva, Director do Instituto das Artes. A exposição nasceu do projecto Influx que, sob a chancela da Fundação de Serralves, introduziu um panorama de 15 arquitectos portugueses cuja actividade e discurso são pautados por novos temas e referências. A exposição comissariada pelos arquitectos Pedro Gadanho e Luís Tavares Pereira traz a esta cidade dez escritórios de arquitectura e cinco propostas artísticas. Teresa Caeiro aproveitou para reforçar o significado desta deslocação: «a maior participação de sempre numa bienal de arquitectura em Veneza», concluindo: «Não é por acaso.

Esta presença deve-se, por um lado, ao impulso dado pelo Instituto das Artes e, por outro, ao reconhecimento internacional que a arquitectura portuguesa tem adquirido.» Em Metaflux serão revelados os trabalhos de duas gerações de arquitectos portugueses sob o lema da metamorfose, que abrange toda a Bienal. Metaflux pretende revelar o olhar dos arquitectos artistas contemporâneos que trabalham a questão do território urbano.

A participação portuguesa prolonga-se até ao dia 7 de Novembro e integra também, a convite do comissário da bienal, a presença dos arquitectos Eduardo Souto Moura e Álvaro Siza Vieira, vencedor do «Leão de Ouro» de 2003.

Percorrendo os vários espaços que compõem o Arsenal, na chegada à sala de Metaflux, os visitantes são confrontados com um objecto criado por Didier Fiuza Faustino, que pode ser lido, segundo Tavares Pereira, como uma crítica política (ao muro que se está a construir em Israel) ou urbanística (as vedações que compartimentam os espaços urbanos). As intervenções artísticas podem ser entendidas como momentos de descompressão: configuram-se como antecâmaras, onde também Rui Toscano e Pedro Bandeira projectam os seus vídeos, antecipando a presença da arquitectura propriamente dita. Do lado oposto, Augusto Alves da Silva, Nuno Cera e Diogo Lopes encerram a mostra. Envolvem-se os trabalhos dos arquitectos com as visões dos artistas porque, tal como refere Tavares Pereira, «a arquitectura não é uma coisa isolada; existe dentro de contextos». A organização da mostra permite então uma leitura sintética do trabalho das dez equipas de arquitectos seleccionadas. «Não formatámos demasiadamente a exposição para deixar emergir as identidades de cada atelier», diz o comissário. A proposta da existência de duas gerações - X e Y - reflecte-se na divisão em dois grupos. São vários os suportes utilizados. 

 O material exposto sobre mesas alongadas, mais do que explicar pedagogicamente os projectos, emite sinais das preferências gráficas, texturais, sensoriais dos trabalhos dos ateliers. Há colagens, renderings (imagens tridimensionais), maquetes de todos os materiais que remetem para mundos virtuais, mas também desenhos a lápis e desenhos rigorosos feitos a tinta da china, excepções que confirmam a hipótese de transformação «futurista», subjacente à ideia de Metaflux. As caixas de luz e os ecrãs que emitem entrevistas aos arquitectos contribuem para o carácter algo feérico e denso que é desejado. Neste sentido, pode dizer-se que esta participação portuguesa se enquadra bem no tema da bienal proposto pelo comissário e crítico suíço Kurt W. Forster - Metamorfose - conseguindo inspirar um clima de pertença às novas vagas de expressão da arquitectura contemporânea. 

Um evento que o Instituto Camões apoiou e que conta com a participação de mais de 20 arquitectos portugueses, cujos projectos exploram os fluxos de influência e contexto no domínio da arquitectura contemporânea. Uma metamorfose que é definida por circulação, troca, tradução e adaptação. 

Portugal, cuja representação está a cargo do Instituto das Artes/Ministério da Cultura, é um dos 42 países presentes na 9.ª Bienal de Arquitectura de Veneza, ao longo da qual vão ser apresentados 200 projectos de 170 ‘ateliers’.