Número 85   ·     13-26 de Abril de 2005    ·     Suplemento do JL, Nº 901, Ano XXV

Aprender Português em terras de Espanha

Escritores portugueses (em cima) e conferência no CLP/ICA de Cáceres

Serão cerca de 14 mil os estudantes de língua portuguesa em escolas e universidades espanholas, com predominância nas regiões da Catalunha e da Extremadura. Exemplos do crescimento exponencial do ensino do português no país ao lado

Corria o ano de 1997 quando Filipa Soares assumiu o Leitorado do Instituto Camões na Universidade Autónoma de Madrid (UAM) e os 110 alunos dos quatro níveis da cadeira de Português Língua Estrangeira. Desde então, garante, não houve um dia em que não se sentisse gratificada com a tarefa. O lugar cativo que tem na lista dos 150 professores mais bem avaliados anualmente pelos alunos e pela direcção, de entre os 3000 docentes da universidade, mostra que a satisfação é recíproca.

Aceite o convite para Professora Associada em 2003, depois de ali ter defendido tese de doutoramento sobre Os Fundamentos do Realismo na Obra de Eça de Queirós, Filipa Soares, com o apoio protocolado entre o ICA e a UAM, acumula agora as cadeiras semestrais de português com o primeiro seminário na área de estudos portugueses num programa de doutoramento da UAM, «uma grande conquista».

E há ainda as aulas «espontâneas». «De vez em quando lá vou eu com os alunos pedir ao Reitor autorização para dar uma aula extra. Eles reclamam muito por não poder aprofundar a língua para além do quarto nível. E há sempre alguns que, como não podem inscrever-se na cadeira porque já têm os créditos feitos, vão às aulas como assistentes, por gosto.»

O gosto de ensinar conjugado com a elevada carga horária da única professora de português da UAM não são, contudo, suficientes para responder ao interesse manifestado pelos alunos. «Não tenho dúvidas de que se houvesse mais um docente de português, possibilidade que estamos a negociar com a direcção da universidade, o número de estudantes ultrapassaria em muito os actuais 166».

De onde vem este entusiasmo pelo português? «Da música, sobretudo a brasileira. Quanto às aulas, acho que os conquisto para a língua através da cultura e da literatura, uso muito os vídeos da Universidade Aberta e outros componentes audiovisuais. E eles encaram as dificuldades da oralidade, das diferenças do sistema vocálico, como um desafio; empenham-se muito.»

Às aulas, Filipa Soares junta ainda a organização das actividades extracurriculares, que os leitorados do ICA habitualmente desenvolvem e os trabalhos de preparação de uma pós-graduação de Estudos Portugueses, que poderá vir a funcionar já no próximo ano lectivo, com a colaboração de outros professores da universidade. «Tudo será mais fácil a partir de Maio, com a abertura do Centro de Língua Portuguesa do ICA na UAM e a atribuição de um bolseiro que dará apoio aos professores», acrescenta, lamentando não ter o dom da ubiquidade.

A Complutense de Madrid e a Alcalá de Henares são as outras duas universidades da Comunidade de Madrid que oferecem aulas de português, reunindo actualmente cerca de 180 estudantes.

Pelo resto do país há aproximadamente 2600 estudantes do ensino superior inscritos em cursos de Português Língua Estrangeira e Filologia Portuguesa, nomeadamente na Universidade Autónoma de Barcelona (423), na Universidade da Extremadura (427), na Universidade de Girona (150), na Universidade de Huelva (100), na Universidade das Ilhas Baleares (170), na Universidade de León (34), na Universidade de Oviedo (139), na Universidade de Salamanca (130), na Universidade de Santiago de Compostela (101), na Universidade de Sevilha (200), na Universidade de Valladolid (50), na Universidade de Valência (364) e na Universidade de Vigo (300).

E, neste domínio, os números mostram que a antiguidade dos Leitorados e a existência de Centros de Língua do ICA (Barcelona, Cáceres), fazem toda a diferença. Mas é nas Escolas Oficiais de Idiomas e no ensino secundário que se concentra a maioria dos aprendentes da língua de Camões. Segundo dados reunidos pela Embaixada de Portugal em Madrid, há em Espanha 9410 estudantes «em cursos de Língua e Cultura Portuguesa e no Ensino Secundário Obrigatório». Há 10 anos eram 3.029 e há 15 não ultrapassavam os 704.

Curiosidade recente na Catalunha


António Lobo Antunes no CLP/ICA de Barcelona

Com mais línguas à disposição do que em qualquer outra universidade europeia, os alunos da Faculdade de Tradução e Interpretação da Universidade Autónoma de Barcelona (UAB) têm a impressionante taxa de colocação no mercado de trabalho de 89% nos seis meses seguintes à conclusão do curso e de 93% ao fim de um ano. Entre eles contam-se os 343 estudantes actualmente inscritos nas aulas de Língua Portuguesa, no total dos quatro anos de licenciatura.

Nada que se compare com os 10 alunos do ano lectivo de 92/93, altura em que Helena Tanqueiro, docente do Instituto Camões e responsável pelo Centro de Língua Portuguesa (CLP) na UAB, chegou à Faculdade. «Eles têm de associar à língua materna, de categoria A, uma estrangeira de categoria B ou C, e nós conseguimos que o português fosse B, como o inglês, o francês e o alemão. É uma língua pouco falada aqui que está a ter muita procura, está a tornar-se competitiva no mercado de trabalho, nomeadamente na área da tradução», explica.

Para além das disciplinas da licenciatura em Tradução e Interpretação, a UAB oferece ainda cadeiras opcionais de português a 80 estudantes da Faculdade de Letras. Mais especializado no estudo profundo da língua e da literatura, o curso de Filologia Portuguesa da Universidade de Barcelona conta este ano com 20 alunos.

Fora das universidades, a capital da Catalunha tem ainda 60 estudantes da escola secundária Joan Coromines nas aulas de português do 9.º, 10.º e 11.º anos, e os alunos dos cursos de Português Elementar, Intermédio e de Expressão Oral e Escrita leccionados no CLP/ICA – cerca de 70 desde Março de 2004.

A «curiosidade crescente dos catalães, muitos de ascendência estrangeira», de que fala Helena Tanqueiro, nota-se também nas contas da Escola Oficial de Idiomas de Barcelona, onde os falantes de português rondam os 250.

Trata-se de um entusiasmo recente mas intenso. «Até há pouco tempo havia um grande desconhecimento da nossa cultura e da nossa língua na Catalunha, apesar da proximidade fonética do português e do catalão. De há uns anos para cá essa situação inverteu-se e temos tido uma óptima receptividade por parte do público e das instituições», conta a responsável do ICA, que assegura não precisar de fazer promoção às actividades do CLP, um dos principais agentes da mudança, desde que foi fundado, em Março de 2001.

Os mais de 80 mil visitantes da exposição Cinco Pintores da Modernidade Portuguesa, que esteve patente o ano passado no edifício de La Pedrera, e as enchentes do auditório do CLP em todos os eventos que organiza ou acolhe, são exemplos deste interesse. Mas o CLP também vai para a rua e é convidado na casa dos outros. «No próximo dia 21 faremos uma sessão de leituras de poetas portugueses sobre a temática do amor no Instituto Francês. A 23 de Abril estaremos na Feira do Livro de S. Jordi, nas Ramblas. A tradição nesse dia é que as senhoras ofereçam um livro aos cavalheiros e eles retribuam com uma flor. No dia 3 de Junho começa a Jornada da Diversidade Linguística e Cultural, com apoio dos outros institutos de línguas. É um calendário cheio».

Instituídos estão já o Prémio de Tradução Giovanni Pontiero, cuja quinta edição acaba de acontecer, o Programa Vieira, que concede bolsas a estudantes de Tradução e Interpretação, os protocolos entre a UAB e universidades portuguesas, com o objectivo de fomentar o intercâmbio de professores e alunos e, mais recentemente, a participação na GUNI – a Rede Global de Universidades para a Inovação. «Faremos a tradução do boletim e da página na Internet para português e coordenaremos a ligação da GUNI com o Instituto Camões, que abrirá a rede a todas as universidades em que há língua portuguesa».

O fenómeno da Extremadura

Reiniciada a cooperação entre o Instituto Camões e a Universidade da Extremadura (EU) no presente ano lectivo, o número de alunos da cadeira opcional de português da UE cresceu mais do dobro em relação ao semestre passado. Aos cerca de 300 estudantes de licenciaturas diversas juntam-se os 127 alunos do curso de Filologia Portuguesa, que existe há seis anos na Faculdade de Filosofia e Letras da mesma universidade.

«Acho que é já a consequência das actividades do Centro de Língua Portuguesa (CLP) que abriu em Novembro de 2004», arrisca Lígia Borges, docente do ICA na UE e responsável pelo CLP de Cáceres.

O seminário sobre rádio que decorreu no mês passado na Faculdade, e que incluiu a gravação e emissão de um programa pelos alunos de Filologia Portuguesa no dia 15 de Março, na rádio local Onda Cero, terá sido uma das iniciativas que mais seduziu os estudantes. Das actividades programadas para 2005, Lígia Borges destaca a Feira do Livro que decorre este mês, com maratona de leitura incluída, o Congresso de Escritores Luso-Extremenhos, o ciclo de cinema contemporâneo previsto para Maio, a exposição de 50 fotógrafos ibéricos em Junho e a mostra de arte contemporânea portuguesa em Outubro.

À margem da universidade, há ainda 150 alunos em cursos de português da Câmara Municipal e de outras instituições de Cáceres e mais 270 nas Escolas Oficiais de Idiomas, que no total da Extremadura espanhola têm 8000 alunos de português.

«Esse é um fenómeno que ninguém consegue explicar», admite a leitora do ICA, mesmo considerado o factor da proximidade geográfica.

De acordo com dados da Junta da Extremadura, o número total de alunos de português na província cresceu de 467 para cerca de 9000 nos últimos oito anos, sendo o português a segunda língua estrangeira mais estudada e falada, a seguir ao inglês. Este crescimento transforma a Extremadura na região de maior concentração de alunos de português em toda a Espanha (66%).

E, também aqui, não são só os espanhóis que se interessam pela língua mais ocidental da Europa. Entre os alunos de Lígia Borges contam-se estudantes Erasmus de várias nacionalidades.

O Instituto Camões e o ensino do Português

Atento ao interesse de Espanha pela aprendizagem da Língua e Cultura Portuguesa, o Instituto Camões, já no presente ano, protocolou um acordo com a Universidade de Huelva, a partir do qual tiveram início aulas de Língua Portuguesa e o I Curso de Introdução à Cultura Portuguesa, contando esta Universidade já com cem alunos matriculados.

Em fase de planificação o ano lectivo de 2005-2006, o Instituto Camões irá retomar ou iniciar, no âmbito da docência, a cooperação com várias universidades espanholas, quer por via de Leitores quer de programas com Professores Visitantes, de Universidades portuguesas.