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União Europeia: Série de conferências debate em Bruxelas crise na Europa
A última conferência da 1ª fase do projeto Getting Smaller, cujo objetivo é debater a crise europeia, tem lugar a 20 de janeiro, com a participação do antigo comissário europeu António Vitorino. A organização da série de quatro conferências é da responsabilidade do núcleo da EUNIC (Rede dos Institutos Nacionais de Cultura da União Europeia) em Bruxelas, que tem previsto realizar na 2ª fase, no outono deste ano, uma «grande conferência» internacional com representantes de países de dentro e de fora da Europa.
Dificilmente haverá projeto de maior atualidade do que a série em curso de conferências intitulada Getting Smaller, promovida pelo núcleo da EUNIC de Bruxelas, com a participação do Instituto Camões (IC), na pessoa da conselheira cultural da Embaixada de Portugal na capital belga, Margarida Gouveia Fernandes.
De alguma maneira a iniciativa, que surgiu de uma conversa há cerca de dois anos entre Margarida Gouveia Fernandes e Berthold Franke, diretor do Goethe Institut em Bruxelas e para a região da Europa do Sudoeste e ainda responsável pelos contactos da sua instituição com a União Europeia, teve alguma coisa de premonitório, por se debruçar sobre questões e problemas que a crise europeia pôs a nu, mas que naquela altura ainda não eram reconhecidas no consenso público.
Da conversa entre Margarida Gouveia Fernandes e Berthold Franke nasceu então um projeto que foi apresentado à EUNIC-Bruxelas e obteve a adesão de vários outros institutos culturais, nomeadamente da Roménia, Áustria, França, Espanha, Polónia e Bélgica.
Getting Smaller: perspectives on a Shrinking Europe (qualquer coisa que numa tradução livre e literal quer dizer ‘Ficando mais pequeno: perspetivas sobre uma Europa que encolhe’) é a designação de um projeto que inclui numa 1ª fase uma série de quatro conferências, em que intervêm sempre dois institutos associadas na EUNIC-Bruxelas.
Após as conferências com os temas ‘Está a Europa a ficar mais pequena?’, ‘Centro e Periferia’ (outubro) e ‘Multiculturalismo em tempo de crise’ (novembro), que atraíram um público «interessado nesta problemática», seguir-se-á a 20 de janeiro de 2012, a conferência ‘Memória Coletiva’, pelo antigo comissário europeu português António Vitorino e pelo professor alemão Ulrich Menzel, da Universidade Técnica de Braunschweig, no Estado da Baixa Saxónia.
As vantagens do ‘retraimento’
«Começámos a falar sobre uma certa cegueira, em não querer ver – agora já se vê, mas há dois anos ainda havia uma certa resistência» - a questão da crise europeia, refere Margarida Gouveia Fernandes, que em representação do IC tem assento no Grupo Estratégico da EUNIC global. «Não se deve pensar que a perda de força política e de influência da Europa começou há dois anos», explica a conselheira cultural portuguesa, que, antes de Bruxelas, esteve em posto em Bona, Berlim e Moscovo. Este ‘retraimento’ – outra palavra possível para o shrinking inglês – da Europa não é físico, sublinha. «Não quer dizer que a Europa se torne mais pequena, porque até tem havido alargamento, mas em termos relativos, em relação a outras potências emergentes, está a perder influência política, económica, etc.»
Há depois ainda uma outra dimensão do getting smaller, o da perda recente em termos históricos (a partir da I Grande Guerra) dos impérios europeus – tenham sido eles continentais, como no caso da Alemanha ou da Áustria, ou ultramarinos, como no caso português, espanhol e francês. Esta perda nem sempre terá sido negativa para os países europeus, dá a entender Margarida Gouveia, quando, conhecedora da Alemanha, onde viveu a queda do muro de Berlim, cita o caso deste país, que «tem de facto tratado o passado de uma forma sistemática», em resultado da sua derrota na II Guerra Mundial. Os alemães, refere, dizem que nunca viveram tão bem e nunca tiveram tão poucos inimigos naquilo que designam como «cultura da derrota».
Esta perceção dos efeitos positivos do ‘retraimento’ europeu levou mesmo a que, numa primeira versão, o subtítulo das conferências fosse «advantages of a shrinking Europe» (‘vantagens de uma Europa que encolhe’), depois substituída por uma mais neutral «perspectives». É que o objetivo das conferências é de alguma forma pragmático: «encarar» a perda de influência da Europa, como lidar com ela preservando o futuro e «analisar as melhores formas de manter os princípios que nos orientam e como preservar também alguma forma de harmonia social, face a esta nova situação», ou seja, «tirar as lições históricas» ao mesmo tempo que se faz uma análise politológica rigorosa da situação.
Há consciência, no entanto, da gravidade da crise europeia por parte dos promotores das conferências quando, questionados sobre as tensões que parecem acumular-se na Europa e as diferenças com que a própria crise está a atingir os países, Margarida Gouveia Fernandes diz que «se implodir o euro, e se continuar a não haver uma política comum, mais tarde o mais cedo todos estarão mal, uns mais do que outros, evidentemente…».
Grande conferência no outono
A conselheira cultural é da opinião que «a História não se repete, mas há por vezes, processos semelhantes – populações em crise, populações em pânico», «medos irracionais», nacionalismos e xenofobia em ascensão, o aparecimento dos populismos e dos populistas e a possível rápida passagem do «inimigo interno» ao «inimigo externo». Cita Rimbaud – Je est un autre [eu é um outro], para dizer que «a partir do momento em que se abstrai o outro, o outro passa a ser uma abstração e pode ser eliminado». E esta alienação recíproca torna mais fácil todas as formas de conflito.
Por isso, a preocupação é andar para a frente e, porque é também objetivo dos organizadores do Getting Smaller obter o «olhar do exterior», está já marcada para o outono de 2012 uma «grande conferência», que constituirá a 2ª parte do projeto Getting Smaller. Organizada pela EUNIC-Bruxelas, com o apoio financeiro da Bertelsmann Stiftung (fundação alemã) e do Goethe Institut, vai envolver representantes não só dos países europeus como dos outros continentes, sobretudo dos BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China] e personalidades de fora da Europa. Queremos ouvir «pessoas que se tenham debruçado conceptualmente sobre todas estas questões».
O programa desta conferência prevê a abordagem de uma série de tópicos agrupados em dois grandes conjuntos. O primeiro conjunto - Como nos tornámos mais pequenos... / como perdemos influência… – debate, nomeadamente, o papel da Europa na perspetiva dos BRIC, a perda dos impérios e a sua influência nas mundividências europeias e a convergência e divergência das experiências nacionais; o segundo conjunto, que foca o significado e consequências da perda de influência da Europa, gira em torno da política externa e de segurança da UE, da política económica/monetária e do multilinguismo.
O que as conferências pretendem é colocarem «um espelho à nossa frente», diz. Trata-se de «encarar a situação real, não termos medo de ir ao fundo dos nossos medos, dos nossos fantasmas». Os problemas não se resolvem por si, sustenta. «Esta situação só se resolve, como tudo na vida, quando a gente a resolve. Se não a vida resolve por nós e, geralmente, mal».
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