|
|
Do Classicismo ao
Realismo na Claridade
Alberto Carvalho

Reprodução do primeiro número da revista Claridade
na edição comemorativa do seu cinquentenário. Linda-a-Velha, ALAC, 1986.
Fotografia de Laura Castro Caldas e Paulo Cintra. |
A revista Claridade surge no Mindelo em 1936, no centro de um movimento de
emancipação cultural, social e política da sociedade cabo-verdiana, que atinge, por
estes anos, a idade adulta. Do ponto de vista literário, a Claridade constitui-se
como baliza da contemporaneidade estética e linguística, superando o conflito entre o
"antigo" e o "moderno", isto é, entre o Classicismo/Romantismo de
referente português, dominante durante o século XIX, e o novo Realismo; "sensível
às realidades do quotidiano do povo,(...) no sentido de uma cada vez maior abrangência e
representatividade da consciência geral da nação".
Os fundamentos deste movimento de emancipação cultural e política podem encontrar-se
na atitude da burguesia liberal oitocentista saída do Setembrismo, uma vez ultrapassado o
conflito entre a sociedade crioula de base esclavagista e as novas instâncias sociais e
jurídicas inerentes à abolição da escravatura e do regime dos morgadios, que anunciam
o fim do Antigo Regime. A nova burguesia liberal instituiu a Escola como elemento
homogeneizador da diversidade étnica que persistia nas ilhas, no pressuposto de que o
processo de alfabetização e formação intelectual da população era indispensável ao
desenvolvimento de uma consciência geral esclarecida. Fê-lo de maneira sistemática e
com a aprovação e apoio constantes da Igreja que era, até então, a única entidade
detentora de uma estrutura de ensino eficaz. A Escola desencadeou uma fome de leitura que
está na base do extraordinário desenvolvimento cultural de Cabo Verde no século
XX.
A criação do Seminário-Lyceu da Praia está na origem da proliferação de diversas
actividades culturais, tendo sido registadas cerca de dezanove associações recreativas e
culturais em todas as ilhas. O Lyceu, para além de formar os quadros dirigentes da
administração crioula, constituiu o cadinho donde saíram sucessivas gerações de
intelectuais, principais dinamizadores das instituições de comunicação e cultura no
território. Serão estes a " assumir a reacção nacionalista desse tempo contra
a mão forte do processo colonialista. A mesma escola de intelectuais, enfim que criou as
condições para o surgimento do Liceu do Mindelo em 1917, responsável pela nova
intelectualidade científica e positivista incumbida de superar os seus
antecessores."
O lançamento da Claridade, deu lugar à divulgação de uma estética realista
que respondia a uma nova situação social. "No sentido prospectivo, a Claridade
foi capaz de dizer, mediante uma ética que reelaborou o conceito de artista da palavra, o
que convinha à população que dela fosse dito para se realizar como nação-Estado. A
demora em percorrer esse percurso de soberania, (...) vem a ser assim um dos significantes
da permanência do espírito de realismo vivo que foi enformando e readaptando a revista a
sucessivas gerações de colaboradores."
|
|