Camões  
  Revista de Letras e Culturas Lusófonas  
 
 
  Número 4      ·       Janeiro-Março de 1999  
 
 
 
Colóquios tão simples, desfigurações

Vasco Graça Moura


Retrato de Luísa Cândida Midosi com 18 anos de idade.
Fotografia de Isabel Rochinha.

Vasco Graça Moura comenta neste artigo, de uma maneira exaustiva e inovadora, a escrita do Frei Luís de Sousa. Refere em primeiro lugar Gomes de Amorim, na alusão por este feita ao período durante o qual a peça teria sido elaborada (Março/Abril de 1843) e Costa Pimpão, na análise do quadro psicológico em que se encontraria inserido o autor e que remetem para problemas de consciência ligados à existência da filha ilegítima que tivera com Adelaide Pastor.

Igualmente refere as várias fontes escritas sobre a vida de Manuel de Sousa Coutinho, ordenado como Frei Luís de Sousa, problematizando alguns pontos essencias na versão de Almeida Garrett, nomeadamente a circunstância do título, dado que a personagem nunca intervém como tal, o papel do peregrino, que transforma o drama em tragédia e a circunstância da verosimilhança de um reconhecimento do retrato de D.João de Portugal a 35 anos de distância, e sobretudo a circunstância do incêndio ateado pelo próprio Manuel de Sousa Coutinho à sua própria casa de Almada, cujas razões patrióticas se revelam duvidosas dado se ter refugiado precisamente em Madrid, onde foi bem acolhido por Filipe III.

É também analisada neste estudo a questão das relações de certos passos de Los Trabajos de Persiles y Segismunda, de Cervantes com a personagem e alguns traços biográficos de Manuel de Sousa Coutinho, e a da linguagem da peça em que «(...) Garrett jogou deliberadamente com processos imediatos da coloquialidade sua contemporânea e com as pulsões mais ou menos espontâneas da sua própria personalidade literária(...) mas sem perder de vista a dimensão do trágico(...)». Além disso, a dimensão transtemporal e a eficácia teatral da combinação premonitória no registo do mito histórico nacional e a vivência pessoal das personagens em cena que se tematiza em Leitmotiv, e faz de Frei Luís de Sousa uma peça concordantemente clássica na unidade de acção, tempo e espaço, complementada por um estudo das personagens e da temática do Exílio, em si mesmo e metamorfoseado na entrada no convento (Madalena de Vilhena e Manuel de Sousa Coutinho), na morte (Maria) e no desaparecimento (D. João de Portugal).

 

 

 
 

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