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Colóquios tão simples,
desfigurações
Vasco Graça Moura

Retrato de Luísa Cândida Midosi com 18 anos de idade.
Fotografia de Isabel Rochinha. |
Vasco Graça Moura comenta neste artigo, de uma maneira exaustiva e inovadora, a
escrita do Frei Luís de Sousa. Refere em primeiro lugar Gomes de
Amorim, na
alusão por este feita ao período durante o qual a peça teria sido elaborada
(Março/Abril de 1843) e Costa Pimpão, na análise do quadro psicológico em que se
encontraria inserido o autor e que remetem para problemas de consciência ligados à
existência da filha ilegítima que tivera com Adelaide Pastor.
Igualmente refere as várias fontes escritas sobre a vida de Manuel de Sousa Coutinho,
ordenado como Frei Luís de Sousa, problematizando alguns pontos essencias na versão de
Almeida Garrett, nomeadamente a circunstância do título, dado que a personagem nunca
intervém como tal, o papel do peregrino, que transforma o drama em tragédia e a
circunstância da verosimilhança de um reconhecimento do retrato de D.João de Portugal a
35 anos de distância, e sobretudo a circunstância do incêndio ateado pelo próprio
Manuel de Sousa Coutinho à sua própria casa de Almada, cujas razões patrióticas se
revelam duvidosas dado se ter refugiado precisamente em Madrid, onde foi bem acolhido por
Filipe III.
É também analisada neste estudo a questão das relações de certos passos de Los
Trabajos de Persiles y Segismunda, de Cervantes com a personagem e alguns traços
biográficos de Manuel de Sousa Coutinho, e a da linguagem da peça em que «(...) Garrett
jogou deliberadamente com processos imediatos da coloquialidade sua contemporânea e com
as pulsões mais ou menos espontâneas da sua própria personalidade literária(...) mas
sem perder de vista a dimensão do trágico(...)». Além disso, a dimensão transtemporal
e a eficácia teatral da combinação premonitória no registo do mito histórico nacional
e a vivência pessoal das personagens em cena que se tematiza em Leitmotiv, e faz
de Frei Luís de Sousa uma peça concordantemente clássica na unidade de acção,
tempo e espaço, complementada por um estudo das personagens e da temática do Exílio,
em si mesmo e metamorfoseado na entrada no convento (Madalena de Vilhena e Manuel de Sousa
Coutinho), na morte (Maria) e no desaparecimento (D. João de Portugal).
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