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A Descoberta do
Outro na Carta de
Pêro Vaz de Caminha
José Augusto
Seabra
| «Mas tome Vossa Alteza minha ignorância por boa
vontade, a qual, bem certo, creia que por afremosentar nem afear haja aqui de pôr mais do
que aquilo que vi e me pareceu» Pêro Vaz de
Caminha |
Os debates e mesmo as polémicas que suscitou há anos o quinto centenário da chegada
de Cristóvão Colombo à América, celebrado em tons diversos dos dois lados do
Atlântico, tiveram por cerne uma questão essencial, que agora com as comemorações da
descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, há cinco séculos, de novo retorna: a
visão controversa do encontro entre civilizações e culturas de matrizes afastadas, num
mundo que começava a ser percorrido então de lés a lés, tornando-se progressivamente
global, com as grandes navegações oceânicas portuguesas e espanholas.
Em vez de falar, como se tornou lugar comum, do «encontro de dois mundos», deveria
antes falar-se da demanda de «novos mundos», ao mundo dados, como o fez Luís de Camões
nOs Lusíadas. Demanda plural do outro, dos outros, em que a descoberta foi
reciproca, num face a face multiplicado, de conhecimento em reconhecimento, no vaivém
continuado, de viagem em viagem.

Carta de Pêro Vaz de Caminha para D. Manuel I com as novas do
achamento da Terra de Vera Cruz, Porto Seguro, 1 de Maio de 1500. Instituto dos Arquivos
Nacionais/Torre do Tombo, Lisboa. |
Pretender, como um Tzvetan Todorov, que só a descoberta da América foi uma verdadeira
«descoberta do outro», enquanto «estrangeidade radical», diferentemente das da África
e da Ásia, de que os europeus não ignoravam a existência, é uma visão reducionista1.
Aliás, «Colombo não sabia que estava a desembarcar num novo mundo», como
observou Charles Verlinden, julgando antes que se tratava de uma região da Ásia, o
continente das Índias de sonho2. As Índias a que facto aportava eram as
ocidentais, como se viria a baptizá-las, por contraposição às orientais. Há que ter
em conta, de resto, que no espírito de Colombo seriam as profecias do Antigo Testamento
que ele estava a cumprir: a descoberta não era, pois, na expressão tão ajustada de
Régis Debray, mais do que uma «verificação de arquivos»3.
Na verdade, a «abertura ao outro», no dizer de Claude
Lévi-Srauss, dimanou, antropologicamente, sobretudo do lado ameríndio, estando os brancos «animados de
disposições muito contrárias»4. Quem descobre quem? A descoberta do outro
pressupõe uma descoberta de si mesmo: o encontro de uma identidade a partir da
alteridade5. É preciso surpreendê-la na relação que se tece no momento em
que o face a face tem lugar, prolongando-se em seguida noutras relações complexas,
através de todas as formas de comunicação, mas também de alienação, próprias a
trocas frequentemente desiguais, como as que se iriam desenvolver, ao longo dos séculos a
vir, entre povos, civilizações e culturas que as descobertas puseram em contacto.
Dispomos, felizmente, de alguns testemunhos preciosos que nos permitem reconstituir
esse momento único que foi o da primeira abordagem pelos navegadores de terras e gentes
desconhecidas. Evocaremos aqui, no que às descobertas portuguesas concerne, a célebre Carta
de Pêro Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel, escrita ao vivo nos dias que se seguiram
à chegada em 1500 da armada de Pedro Alvares Cabral à costa do Brasil. Essa Carta é ao
mesmo tempo um documento descritivo e narrativo, detalhado e preciso, desse acontecimento,
acompanhado de comentários sobre as peripécias que pontuaram as primeiras relações
entre portugueses e ameríndios na «Terra de Vera Cruz», nome dado por Cabral a
essa «terra nova», que não sabia ainda se era uma ilha mais a emergir no oceano ou um
vasto continente.
A viagem tinha como destino a Índia, na sequência da de Vasco da Gama, em 1498, mas a
rota tinha inflectido para sudoeste, antes da dobragem do cabo da Boa Esperança - por
instruções, aliás, recebidas por Cabral, à partida, do seu predecessor - e eis que os
navegantes aperceberam «alguns sinais de terra», dando o comandante ordem para
que as naus ancorassem. Na equipagem ele levava consigo um «escrivão», destinado à
futura feitoria de Calecut, que tinha o hábito de dar conta, como um bom profissional, do
que via e acontecia. Tal era Pêro Vaz, dito de Caminha, pela origem paterna, mas ao que
parece nascido no Porto, por cuja Câmara fora encarregado da escrita a enviar às Cortes
de Lisboa, tendo merecido o apreço de D. Manuel. Ele iria anotar com minúcia os
incidentes ocorridos durante essa escala, que duraria de 23 de Abril a 2 de Maio de 1500,
com uma preocupação de transmitir ao rei a sua própria observação e opinião acerca
do acontecimento em curso, por ocasião do envio por Cabral a Lisboa da «nova do
achamento», aproveitando de resto a oportunidade para solicitar o perdão régio para
o genro degredado em São Tomé.
Essa carta tornar-se-ia, como lapidarmente a caracterizou Jaime Cortesão, o «auto
oficial do nascimento do Brasil e do Novo Mundo»6. Mas esse seu
significado emblemático ela deve-o não apenas ao relato factual - outros da descoberta
nos ficaram, como uma carta de Mestre João médico de bordo, e a «relação» de um
piloto anónimo -, mas à linguagem em que está escrita e que configura um texto de
grande qualidade literária, para além do seu estatuto histórico, que decorre das
funções próprias de Pêro Vaz de Caminha: «...O escritor, que ele é, alvorece na
pele do escrivão», como Cortesão assinalou. Estamos perante um discurso que releva
arquitextualmente de vários registos, desde o do género epistolar, de que se reclama, ao
narrativo ou mesmo poético, passando pelo que hoje designaríamos como etnológico ou
antropológico7. É esse hibidrismo discursivo, para que chamou a
atenção Maria Alzira Seixo, abonando-se na acepção dialógica bakhtiniana do termo,
que dá à literariedade da Carta todo o seu efeito aliciante, como testemunho do
comportamento dos ameríndios no contacto com os Portugueses, nesse instante privilegiado
de uma descoberta mútua8.

«Planta do Ribeirão de Mutary (Itacumirim) onde
se forneceu de agua a esquadra do descobrimento e em cujas margens se passaram os
principaes episodios narrados por Pedro Vaz de Caminho», reproduzido em Carlos
Malheiro Dias (org.), História da Colonização Portuguesa do Brasil, 1923, vol.
II. Reprodução fotográfica de Isabel Rochinha. |
Se na descrição da natureza luxuriante do que julgava ser uma ilha, Pêro Vaz de
Caminha é relativamente sóbrio, já na maneira de apreender as atitudes e os traços
psico-sociológicos e culturais dos aborígenes ele se alonga em minúcias de
observação, mostrando como reagem à presença imprevista de estranhos irrompendo do
oceano. Primeiro de longe, depois de mais perto, descreve-nos a sua aproximação dos
portugueses, «pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que lhes cobrisse suas vergonhas»,
avançando «todos rijos» para o batel, mas depondo pacificamente os arcos e as
setas a um «sinal» que lhes foi feito. Por sinais a comunicação se iria estabelecer,
por deles não poder «haver fala nem entendimento que aproveitasse», como escreve
Pêro Vaz, que vai construindo um código semiótico gestual como sucedâneo do
linguístico, através do sentido que tomam as trocas que de imediato se processam entre
os navegantes e os indígenas, com caracter simbólico: um «barrete» e uma «carapuça»
contra um «sombreiro de penas de aves» e um «ramal grande de continhas
brancas», que de resto o capitão-mor Pedro Alvares Cabral enviaria a D. Manuel como
prendas emblemáticas. A partir daí, estabelecido faticamente o contacto, este
prosseguiria através de tentativas recíprocas, que Pêro Vaz pacientemente vai
inventariando, por vezes suscitando reacções dos seus interlocutores com certos stimuli,
como se agisse ao mesmo tempo como semiólogo, psicólogo ou sociólogo, em suma, como
antropólogo em missão.
É antes de mais sobre os corpos dos ameríndios e ameríndias que incide o olhar
atento e fascinado do escrivão de bordo. Quanto aos homens, «afeição deles é serem
pardos, maneira davermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feítos»,
nota ele com naturalidade, observando que na sua nudez e exposição das «vergonhas»,
revelam «tanta inocência como têm em mostrar o rosto». Quanto às mulheres,
elas são «bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas»,
ostentando «suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas que de nós
muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha», como releva Pêro Vaz,
fazendo-se intérprete das reacções dos seus companheiros. Não há duvida que para eles
os aborígenes são seres humanos com uma dignidade própria, podendo considerar-se como
correspondendo aos paradigmas estéticos e até éticos que são os seus.
A respeito dos homens, Pêro Vaz não deixa de pôr em evidência que não eram
circuncidados, nem revelavam anomalias fisiológicas mas sim semelhanças corporais. Sobre
as mulheres, não regateia elogios, indo até erigir a beleza física de uma delas em
modelo para as portuguesas: «certo, era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha
que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais
feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela». A diferença entre
brancos e indígenas não era, assim, à parte a cor da pele, essencialmente de ordem
biológica, mas antes cultural. Ela manifestava-se quer na falta de vestuário dos
ameríndios quer no uso de ornamentos excêntricos, como os ossos atravessando os lábios
inferiores perfurados e as perucas postiças de penas coladas nos cabelos. Se os corpos
não eram cobertos, podiam em compensação ser coloridos total ou parcialmente a azul e
negro, por vezes com desenhos em forma de xadrez. Embora o significado destes sinais
bizarros escape a Pêro Vaz de Caminha, ele aventura-se a fazer algumas comparações
interculturais, como a que o leva a ver nas penas coladas sobra a pele de um velho o corpo
crivado de flechas de São Sebastião mártir...
Nas relações entre portugueses e indígenas uma preocupação ressalta ao longo da
narração do seu encontro: a de uns e outros buscarem um entendimento mútuo, através
dos signos gestuais que compensam a impossibilidade de comunicação verbal. Mesmo se por
vezes, como observa Pêro Vaz de Caminha, não era possível perceber o que os ameríndios
queriam dizer «por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia
ninguém», ele não desespera de virem um dia os portugueses a aprender essa
linguagem estranha para poderem transmitir-lhes a fé crista. Até lá, era necessário
tentar penetrar na verdadeira natureza dos sentimentos deles, cuja disposição para com
os recém-chegados era à primeira vista pacifica e acolhedora. Por isso o capitão
recebeu a bordo dois deles, «com muito prazer e festa, adoptando um ar solene, para os
impressionar ao aparecer-lhes "bem vestido" e com um colar douro mui
grande ao pescoço». As reacções não se fizeram esperar: um deles «pôs olho
no colar do capitão e começou dacenar com a mão para terra e depois para o colar,
como que nos dizia que havia em terra ouro». De modo semelhante, «também viu um
castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que
havia também prata». Eis o que não podia deixar de interessar sobremaneira os
portugueses, como um primeiro indício, ao menos, das riquezas que poderiam ser exploradas
no futuro na Terra de Vera Cruz. Isso mesmo se no fim da Carta Pêro Vaz reconhece que o
mistério a tal respeito permanece, pois «até agora não pudemos saber que haja ouro,
nem prata, nem nenhuma cousa de metal, nem de ferro: nem lho vimos». Mas a esperança
era permitida, tanto mais que os indígenas pareciam propor uma troca de objectos de
adorno dos portugueses por ouro: «Viu um deles umas contas de rosairo, brancas; acenou
que lhas dessem e folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço e depois tirou-as e
embrulhou-as no braço; e acenava para terra e então para as contas e para o colar do
capitão, como que dariam ouro por aquilo».

Adoração dos Magos, óleo s/ carvalho, c.
1501-1506, oficina de Vasco Fernandes, Museu de Grão Vasco, Viseu. De notar a
substituição do tradicional Mago negro, Baltazar, por um índio «brasileiro». |
É com efeito sob o signo da troca que as relações recíprocas se vão desenvolver
pouco a pouco. Não deixaram de ser testadas, em várias oportunidades, as intenções e
as motivações dos ameríndios a tal respeito. Ao reenviar para terra os dois indígenas,
o capitão mandá-los-ia controlar por um «mancebo degradado», com a missão de
«andar lá com eles e saber de seu viver e maneira». Em breve ele voltou
acompanhado por esses e por outros mais, que se ofereceram para aprovisionar os bateis com
água, pedindo que por isso «lhes dessem alguma cousa». O comércio tinha
começado, não havia dúvida, incidindo sobre os mais diversos objectos: «Davam-nos
daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que lhes
homem queria dar». Outros testes foram feitos, à medida que os contactos se
intensificavam e a familiaridade se tornava maior. Tudo era, de certa maneira, pautado
pelo toma-lá-dá-cá, mesmo se o prazer de convívio se acrescentava à avidez da
troca. Mas foi em vão que o capitão tentou obter, através dos gestos, informações
precisas acerca da existência ou não de ouro, interrogando um velho que deu ar de nada
perceber. Não admira, aliás: como acerca dos contactos entre os espanhóis e os aztecas
foi também observado, o ouro era para estes últimos um bem muito mais secundário do que
por exemplo as penas, em contraste com a obsessão que por ele tinham os
«conquistadores»9. Entre a cultura mercantil dos europeus, baseada ao valor
dos metais preciosos, e a cultura das comunidades indígenas, de base agrícola, não
havia comum medida, que pudesse fazer pensar numa moeda de troca. Nenhum rasto, mesmo, de
ferro, como acabou por constatar Pêro Vaz de Caminha, na Terra de Vera Cruz. Só a troca
primitiva em natureza era para os ameríndios concebível, na sua vida espontânea e
simples.
Contrariamente ao que imaginavam os portugueses, os indígenas tinham entretanto um
modo de habitar e uma organização social, de que puderam testemunhar os proscritos que o
capitão enviou com ordem de se misturar com eles, acabando por descobrir, no interior da
costa, um conjunto de casas de madeira em que viviam por grupos de trinta ou quarenta,
dormindo em redes atadas a esteios e alimentando-se de raízes e sementes. Tão ciosos
eram porém da sua vida privada que não permitiram aos intrusos passar a noite com ele,
obrigando-os a regressar aos batéis. E isso mesmo se a sociabilidade dos indígenas era
evidente, dado que aceitavam misturar-se com os navegadores durante o dia e mesmo dormir a
bordo. Era já um esboço da mestiçagem cultural, sem perda da identidade das duas
partes. Os portugueses mostraram-se dispostos a incentivá-la, ao deixarem alguns
proscritos em terra, aos quais se juntaram dois grumetes em fuga. Em vez de prender um ou
outro indígena para enviá-los a Portugal pelo «navio dos mantimentos» que levaria a
El-Rei a «nova do achamento», foi antes decidido disseminar uns poucos de brancos
entre eles, a titulo de observadores, como uma experiência mais adequada e fecunda de
miscigenação. Como nota Pêro Vaz, dando conta dessa opção, «a isto acordaram que
não era necessário tomar por força homens, porque geral costume era dos que assim
levavam por força para alguma parte dizerem que ha ai tudo o que lhes perguntam, e que
melhor e muito melhor informação dariam dous homens destes degradados do que deles
dariam, se os levassem, por ser gente que ninguém entende». Os portugueses
abandonados à sua sorte em Terra de Vera Cruz adquiririam, por certo, um conhecimento
mais íntimo e autêntico desse povo, que era de resto mais confiante e aberto do que os
seus visitantes, como reconhece o escrivão de bordo, ao comentar que os indígenas se
comportam «em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus»...
A melhor prova dessa disponibilidade dos ameríndios face à maneira de ser e de agir
dos portugueses é sem duvida a sua curiosidade e o seu respeito pelas cerimonias
religiosas que Pedro Álvares Cabral fez celebrar durante essa breve escala10.
Se quando, no domingo de Pascoela, a 26 de Abril, foi rezada missa campal pelos frades
franciscanos que acompanhavam a expedição, os indígenas a ela assistiram discretamente,
manifestando-se em seguida com os seus saltos e danças - modo de afirmação dos seus
próprios ritos -, já alguns dias mais tarde, quando o capitão se preparava para erguer
uma cruz na praia, alguns deles a beijaram como os portugueses, numa participação
espontânea. Duma forma ainda mais impressionante, numerosos foram os que de joelhos e
mãos erguidas assistiram à missa do 1º de Maio, véspera da partida da frota, repetindo
automáticos todos os movimentos dos cristãos, o que, segundo Pêro Vaz, lhes fez «muita
devoção». Um dentre os ameríndios, com aparente ascendência sobre os demais, fez
mesmo gestos que indicavam uma compreensão do Santo Sacrifício, apontando com um dedo
alternadamente e para o altar e para o céu, de forma a transmitir aos outros o sentido
que julgava ser o da liturgia. Finalmente, muitos indígenas, depois de ouvirem uma
pregação, aceitaram pôr ao pescoço um fio com um crucifixo, distribuído por um dos
frades franciscanos.

Representação de índios brasileiros, gravura em Les
Singularités de la France Antarctique, autrement nommée Amerique & de plusiers
terres & îles découvertes de notres temps de André Thevet, 1557, Paris.
Bibliothèque National de France, Paris. |
Esta espécie de mimetismo religioso leva Pêro Vaz a escrever: «Parece-me gente de
tal inocência que, se os homem entendesse e eles a nós, que seriam logo cristãos,
porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece». Mesmo se se trata
de uma ilusão do escrivão de bordo, já sacrificando ao mito do bom selvagem, que
atravessa toda a Carta, e já pondo tal «inocência» em contraste, por exemplo, com as
praticas religiosas próprias dos negros de África, o certo é que a sua interpretação
tende sobretudo a indigitar a disponibilidade dos ameríndios para uma evangelização
futura. Com uma condição, note-se bem: a de virem a ser compreendidos um dia pelos
portugueses. Razão pela qual - mensagem essencial que Pêro Vaz de Caminha quer
transmitir ao Rei - ele insiste: «Se os degradados que aqui hão-de ficar aprenderem
bem a sua fala e os entenderem, não duvido, segundo a santa tenção de Vossa Alteza,
fazerem-se cristãos e crerem na nossa santa fé...»
Esta mensagem é, para além mesmo da questão religiosa, dum grande alcance: ela
mostra a que ponto os portugueses, longe da obsessão de um etnocentrismo cultural, seja
ele linguístico, eram abertos à linguagem do outro, a dos ameríndios, neste caso. Os
jesuítas compreenderam-no muito bem mais tarde, ao estudarem as línguas indígenas para
melhor evangelizarem o Brasil, indo até conceber uma «língua geral», composta de
elementos do tupi-guarani, do latim e do português, a qual seria acessível a todos.
Utopia, sem dúvida, como a de não importa que língua artificial, mas que testemunha de
uma visão pluralista e universalista das formas da linguagem religiosa, tais como são
prefiguradas na Carta de Pêro Vaz de Caminha.
Ao lado dos outros documentos que se reportam à chegada de Pedro Álvares Cabral ao
Brasil, como a carta de Mestre João, médico de bordo, e a «relação» do piloto
anónimo a que já nos referimos, o texto do escrivão da armada portuguesa em rota para
Calecut, onde iria morrer gloriosamente à mão dos muçulmanos, é uma das peças mais
preciosas da grande aventura das descobertas marítimas, através das quais vários mundos
se encontraram: povos, civilizações e culturas em dialogo, em polílogo infinito. Ele
mostra com uma autenticidade e uma frescura de escrita muito raras como essas descobertas
foram, mais do que empresas de domínio, com as suas alienações históricas - a
escravatura, o colonialismo e os seus avatares -, ocasiões únicas de viver esse momento
irredutível que é a descoberta do outro, ainda e sempre a recomeçar.
NOTAS
1 - Tzvetan Todorov, La Conquéte de L'Amérique. La
Question de l'Autre, Paris, 1982, p. 12.
2 - Charles Verlinden, «La longue durée de la découverte de l'Amérique», in Diogène,
159, Paris, 1992.
3 - Régis Debray, Christophe Colomb, le Visíteur de l'Aube, Paris, 1991, p. 9.
4 - Claude Lévi-Strauss, Histoire de Lynx, Paris, 1991, p. 16.
5 - Cf. Paul Rícoeur, Soi-même comme un Autre, Paris, 1991.
6 - Jaime Cortesão, A Carta de Pero Vaz de Caminha, Lisboa, 1967, p.129.
7 - Cf. no mesmo sentido M. Viegas Guerreiro, introd. a Pêro Vaz de Caminha, Carta a
El-Rei D.Manuel, Lisboa, 1974, pp. 20-23.
8 - Maria Alzira Seixo, «Sobre a Carta de Pêro Vaz de Caminha», in Poéticas da
Viagem na Literatura, Lisboa, 1998, p. 108.
9 - Cf. Léon-Portilla, Visión de los Vencidos, cit. por Edgar
Montiel, in «Le
miroir de l'altérité», Diogène, 159, Paris, 1992.
10 - Cf. a este respeito Margarida Barradas de Carvalho, «L'idéologie réligieuse dans
la Carta de Pero Vaz de Caminha», in Bulletin des Etudes Portugaises, 22,
Paris, 1959-1960.
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