Camões  
  Revista de Letras e Culturas Lusófonas  
 
 
  Número 3     ·      Outubro-Dezembro de 1998  
 
 
 
D. José

Sergio Ramírez

Perguntei a D. José, naquele almoço no palácio de San Ildefonso, no México, se o nome da sua personagem de Todos os Nomes, o Sr. José, tinha sido escolhido como homenagem a si mesmo, e ele respondeu-me com esse sorriso humilde que o desarma, mas que antes desarma o seu interlocutor, que tinha posto José à sua personagem porque não lhe tinha ocorrido outro nome mais humilde. Já havia antes o José carpinteiro, nas páginas do seu Evangelho segundo Jesus Cristo e agora o D. José vinha-nos com este José, o amanuense.

José, o amanuense. Um obscuro burocrata, muito humilde, que passa a vida a assentar nomes de mortos no registo público e vive ali mesmo, solteiro e solitário, e a partir dessa solidão começa a viver uma enorme história de amor, dramática, misteriosa, surpreendente, mas um amor de papéis, como corresponde a um amanuense cumpridor. Uma alegoria, um romance negro, um romance de amor.

O amanuense José, apaixonado por uma mulher desconhecida que é apenas uma ficha do registo, começa a procurá-la, naquilo que é a grande aventura da sua vida, e volta no fim para comparecer à frente do grande registador, dono dos destinos, vidas e mortes, dentro do sombrio edifício antigo, onde estão registados todos os nomes.

Perguntei também a D. José, com essa impertinência que pomos ao interrogar os escritores, porque já lhe devem ter esquecido os detalhes da trama do livro, visto estar já a urdir a do seguinte, se o Pastor de O Evangelho segundo Jesus Cristo era o mesmo Pastor que, no fim de Todos os Nomes, aproxima o seu rebanho de ovelhas do cemitério onde o José amanuense procura a sua amada, o Diabo de novo vestido de pastor de ovelhas; aquele Pastor que no meio do lago Tiberiades, sozinho com Jesus num barco solitário, o interroga e o tenta, uma das passagens mais belas de todas as literaturas. Disse-me D. José, com um sorriso complacente, que sim, talvez.

Era Março quando, nessa vez, estávamos no México para o encontro de Geografia do Romance, promovido pelo Colégio Nacional, graças a Carlos Fuentes, e conheci também esse outro grande escritor que procura sempre passar despercebido e oxalá seja Prémio Nobel algum dia, o sul-africano J. M. Coetzee, que escreveu pelo menos duas novelas magníficas, Esperando os bárbaros e Foe.

D. José aparecia nessa altura em todos os jornais falando com dignidade e coragem sobre Chiapas. Tínhamo-nos encontrado pela primeira vez na tarde anterior, no acto presidido por Cuauhtémoc Cárdenas, no qual a Cidade do México era declarada cidade de refúgio para os escritores perseguidos. Fui direito a ele pela sua imagem das fotografias, e por aquele sorriso, tão quente e tão franco: foi como se nos conhecêssemos desde sempre.

Esse homem com cara de professor universitário, de estatura imponente e andar juvenil, tez morena e lentes grossas, está sempre a sorrir, com tranquilidade, salvo quando se zanga profundamente em defesa das boas causas, face às quais tem de ser profundamente radical, uma palavra tão utilizada nos dias que correm, radical, mas à qual o D. José confere tanta dignidade nas suas palavras e nos seus actos.

Tínhamo-nos encontrado outra vez em Madrid, nos ritos multitudinários da Feira do Livro do Retiro, pejada de leitores indo e vindo pelas alamedas, cada qual com o seu igual, diríamos, cada rebanho com o seu pastor, cada escritor na sua casota, um com a fila de leitores devotos, como D. José, assinando com pausas cordiais; outros suspirando pelos leitores, como uma apaixonada na sua janela, toda uma feira de vaidades, como a de Thackeray no seu romance inesquecível.

Agora era Junho em Lanzarote. Entrou D. José com Pilar, sua mulher, na Casa da Cultura de Arrecife, em frente aos recifes da praia de poucos banhistas, no entardecer do princípio de Outono, como se fosse só mais um habitante, tranquilo e circunspecto (se estivéssemos nos anos trinta, devia usar chapéu panamá, e se fosse no princípio do século, bengala com castão de prata), para assistir à apresentação do meu romance Margarita está linda la mar, um famoso, tão famoso pelos corredores, dando sem protagonismos os seus pontos de vista na altura do diálogo com o público, do seu assento da primeira fila e, logo a seguir, pelas ruas para entrarmos no pequeno carro, cruzando-se com os turistas alemães, encarnados como lagostas cozidas, como certamente Robert Graves andando pelas ruas de Deià, em Maiorca, longe de toda a publicidade.

No restaurante de Puerto del Carmen, continuámos a falar sobre literatura e, um pouco à socapa, a falar do Prémio Nobel, um tema que não agradava muito a D. José, dizendo Pilar que cada vez que se aproxima o anúncio do ganhador, os fotógrafos e os operadores de câmara acampam em frente da casa, e só se vão embora quando não há nada, deram o prémio a outro. Mas também falámos, e muito, da América Latina, D. José, essa espécie de profeta laico que explica as suas posições como analista, com opiniões calmas e seguras, mas irredutíveis.

Por fim quero contar este último caso: saindo nessa madrugada da sua casa de Los Topes, na aldeia de Tías, casas brancas na paisagem de ferro de Lanzarote, disse-lhe: «D. José, este vai ser o último ano em que vai ter os fotógrafos e os operadores de câmara a acampar em frente da sua casa»; fez um gesto com a mão, como que afastando essa ideia da cabeça, sorrindo, o que vai ser.

E foi. Deram o Prémio Nobel a um grande escritor deste século, deram-no à língua portuguesa, que é como se o tivessem dado ao mesmo tempo a Eça de Queiroz, a Pessoa, a Machado de Assis, a Guimarães Rosa; mas também o deram à língua espanhola, porque D. José é muito nosso. Ele e a dignidade que representa.

 

Sérgio Ramírez foi vice-presidente da Nicarágua pela Junta Sandinista.

 

 

 
 

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