|
|
O Ovo da Serpente
Para uma leitura do amor nas «Folhas Caídas»
Fernando Pinto do Amaral

Retrato de Rosa Montufar, Viscondessa da Luz, comummente
aceite pelos críticos como sendo a inspiradora da maioria das composições de Folhas
Caídas, muitas das quais referem explicitamente as palavras rosa ou luz. Gravura em
Almeida Garrett, Cartas de Amor à Viscondessa da Luz. Lisboa, Empresa Nacional
de Publicidade, (s.d.). |
Folhas Caídas, o livro de poemas que Garrett escreveu já no
Outono da vida, está intimamente ligado às circunstâncias biográficas do seu autor.
Muitos dos poemas do livro, são dedicados, segundo a opinião da maioria dos críticos,
à Viscondessa da Luz, Rosa Montufar, a grande paixão de Garrett na época. Para Fernando
Pinto do Amaral esta circunstância é porém, algo secundária face à complexidade de
sentimentos inscrita nos poemas, em que o amor é expresso sob as mais variados formas.
"O amor como sentimento afectivo ligado à experiência afectiva concreta de alguém
que o saboreou até à última gota. e que por isso mesmo, tomou também o gosto ao seu
arreière-goût, ao travo tantas vezes desagradável da sua presença."
Importa sim, analisar o sentimento amoroso posto em jogo no livro,
assumido por vezes como veneno, outra como sofrimento, raramente como experiência feliz.
A amargura percorre os poemas com matizes diversos que vão da frustração ao remorso. O
magnetismo exercido pelo sexo oposto tanto é encarado com cinismo, como se transforma em
violento amor-paixão, para, no final do livro, se resumir a uma experiência puramente
erótica.
Finalmente, da análise de Fernando Pinto do Amaral, sobressai o amor
inoculado como veneno lançado por Eros "espécie de curare capaz de paralisar a sua
vítima." No último poema do livro o amor é comparado a uma serpente venenosa,
"misteriosamente concebida e incubada dentro do próprio coração do
sugeito, como
um parasita, um cancro, um ovo maligno que se alimenta e cresce à custa do hospedeiro, à
medida que o mata para assim sobreviver".
|
|