Camões  
  Revista de Letras e Culturas Lusófonas  
 
 
  Número 4      ·       Janeiro-Março de 1999  
 
 
 
O Ovo da Serpente
Para uma leitura do amor nas «Folhas Caídas»

Fernando Pinto do Amaral


Retrato de Rosa Montufar, Viscondessa da Luz, comummente aceite pelos críticos como sendo a inspiradora da maioria das composições de Folhas Caídas, muitas das quais referem explicitamente as palavras rosa ou luz. Gravura em Almeida Garrett, Cartas de Amor à Viscondessa da Luz. Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, (s.d.).

Folhas Caídas, o livro de poemas que Garrett escreveu já no Outono da vida, está intimamente ligado às circunstâncias biográficas do seu autor. Muitos dos poemas do livro, são dedicados, segundo a opinião da maioria dos críticos, à Viscondessa da Luz, Rosa Montufar, a grande paixão de Garrett na época. Para Fernando Pinto do Amaral esta circunstância é porém, algo secundária face à complexidade de sentimentos inscrita nos poemas, em que o amor é expresso sob as mais variados formas. "O amor como sentimento afectivo ligado à experiência afectiva concreta de alguém que o saboreou até à última gota. e que por isso mesmo, tomou também o gosto ao seu arreière-goût, ao travo tantas vezes desagradável da sua presença."

Importa sim, analisar o sentimento amoroso posto em jogo no livro, assumido por vezes como veneno, outra como sofrimento, raramente como experiência feliz. A amargura percorre os poemas com matizes diversos que vão da frustração ao remorso. O magnetismo exercido pelo sexo oposto tanto é encarado com cinismo, como se transforma em violento amor-paixão, para, no final do livro, se resumir a uma experiência puramente erótica.

Finalmente, da análise de Fernando Pinto do Amaral, sobressai o amor inoculado como veneno lançado por Eros "espécie de curare capaz de paralisar a sua vítima." No último poema do livro o amor é comparado a uma serpente venenosa, "misteriosamente concebida e incubada dentro do próprio coração do sugeito, como um parasita, um cancro, um ovo maligno que se alimenta e cresce à custa do hospedeiro, à medida que o mata para assim sobreviver".

 

 

 

 

 
 

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