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Percursos da Memória:
centenários portugueses no século XIX
Maria Isabel João
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Medalhão esculpido no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, que se tem sugerido
poder representar Pedro Álvares Cabral.
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Neste artigo vamos traçar uma breve retrospectiva sobre as origens dos centenários e
a sua introdução em Portugal. O primeiro centenário contemporâneo com largo impacto no
país foi o tricentenário da morte de Camões, também assinalado no Brasil. Segue-se a
abordagem do quarto centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia e o do
Brasil, comemorados em ambos os países. Mais do que fazer a crónica destas celebrações
pretendemos mostrar o seu significado ideológico e as representações que lhes estiveram
associadas. Conferimos, além disso, uma importância destacada às realizações e aos
discursos, produzidos em Portugal e no Brasil, no âmbito destes centenários.
Origens dos centenários
Desde a mais remota antiguidade, as sociedades humanas procuraram
conservar a memória dos factos mais significativos do seu percurso colectivo. O
aparecimento da escrita foi fundamental para desenvolver os mais variados registos e deu
origem a múltiplas inscrições epigráficas que, hoje, constituem uma fonte do
historiador. Em especial, na Grécia e na Roma antigas multiplicaram-se as inscrições e
os monumentos para assinalar os acontecimentos mais notáveis, como as vitórias em
batalhas.
A época medieval e a moderna mantiveram essa tradição através dos
livros de linhagens, das crónicas dos reis e dos príncipes, das lápides tumulares e da
erecção de templos em acção de graças e memória dos eventos mais marcantes para a
vida da comunidade. Assim, foi erguido o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha,
em cumprimento de um voto feito por D. João I no dia em que se travou a batalha
de Aljubarrota, que teve uma importância decisiva para manter a independência do Reino
face às pretensões castelhanas. Igualmente, a construção do Mosteiro dos Jerónimos
ficou para sempre ligada ao descobrimento do caminho marítimo para a Índia. O monumento
da época manuelina eleva-se na memória dos portugueses como um hino de pedra em glória
do notável feito da armada capitaneada por Vasco da Gama.
Cerimónias públicas de carácter religioso e secular assinalavam as
datas importantes e transmitiam aos participantes uma noção de pertença a um colectivo,
de unidade e de identificação com a Coroa. Entre estas celebrações destacamos as
comemorações de batalhas, os festejos da família real e a invocação dos anjos e
santos protectores1. A procissão comemorativa da batalha de Aljubarrota
realizou-se anualmente ao longo dos séculos XV e XVI e foi restaurada por D. João IV em
1641, sendo ainda respeitada em 1820. Na mesma linha de afirmação da autonomia face a
Castela se inseriam as procissões comemorativas da aclamação de D. João IV e da
Restauração da independência do Reino. Mais tarde, idêntico propósito norteou as
comemorações da expulsão dos franceses em 1808. O centenário das guerras travadas
contra a ocupação dos exércitos napoleónicos e das vitórias então alcançadas pelos
portugueses foi comemorado entre 1907 e 1908, nos últimos anos da Monarquia
Constitucional.
A recordação de acontecimentos que interessam a uma comunidade
através de práticas ritualizadas tem, por conseguinte, uma origem remota e uma larga
tradição. O advento da Idade Contemporânea criou o quadro cultural e
político-ideológico necessário para as comemorações se expandirem e ganharem uma
projecção antes impensável. Logo em 1791 a Constituição francesa consagrava o
estabelecimento dum calendário de festas nacionais para conservar a memória da
Revolução2. Os revolucionários pretendiam, deste modo, perpetuar a
lembrança dos acontecimentos que tinham permitido derrubar o Antigo Regime, simbolizados
pela emblemática tomada da Bastilha. Queriam também preservar o regime entretanto
instaurado e formar cidadãos capazes de se identificarem com os novos valores laicos e
progressistas que pretendiam impor a toda a sociedade. Objectivos políticos e
pedagógicos estiveram, portanto, na base das festas cívicas desenvolvidas na sequência
da Revolução francesa que, rapidamente, tiveram eco noutros países europeus.
Em Portugal, encontramos a réplica desse tipo de celebrações na
primeira fase da implantação do regime liberal, nos anos 20 do século XIX3.
As manifestações cívicas incluíam um número variado de iniciativas, como o juramento
da Constituição, cortejos cívicos e alegóricos, paradas e desfiles militares,
proclamações, discursos, representações teatrais e declamação de poesia e, nalguns
casos, o ritual maçónico de plantar a Árvore da Liberdade. Apesar das características
laicas de que se procuraram revestir as festas liberais, a tradição religiosa manteve-se
presente nestas comemorações que começavam, com frequência, pela celebração de missa
solene e Te Deum Laudamus. Em muitos locais do país, os adros das igrejas
continuavam a ser o sítio preferido para realizar as festas cívicas, tal como acontecia
nos arraiais populares.
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Estátua de Pedro Álvares Cabral, Rio de Janeiro.
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A outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV a 29 de Abril de
1826, ainda feita no Brasil, foi recebida pelos cidadãos liberais com grandes
manifestações de júbilo, em Lisboa e no Porto. O juramento solene da Carta pela Infanta
Regente, D. Isabel Maria, foi sublinhado por três dias de grande gala e festas4.
Nas ruas, os slogans gritados pelos populares exaltavam a liberdade e o fim do
despotismo. Por isso, entre as muitas quadras que então circularam destacamos uma
bastante sugestiva:
«Do Brasil, tantas riquezas
Não vieram, nem virão
Vale mais que suas Minas
Liberal Constituição»
Posteriormente, as celebrações liberais circunscreveram-se aos dias
de gala, ou feriados, que assinalavam a data da ocupação das principais cidades do país
pelos exércitos liberais - como o 24 de Julho, em Lisboa - e ao aniversário da outorga e
juramento da Carta Constitucional.
Somente no último quartel do século
XIX, se passou a comemorar com
regularidade os centenários do nascimento ou da morte de figuras marcantes da história
nacional ou de acontecimentos igualmente decisivos para a vida da nação. O primeiro foi
o tricentenário da morte de Camões, celebrado a 10 de Junho de 1880. Seguiram-se os
centenários do Marquês de Pombal (1882), do Infante D. Henrique (1894), do Santo
António (1895), do descobrimento do caminho marítimo para a Índia (1898) e do achamento
do Brasil (1900). Portugal seguia, assim, de perto a moda dos centenários que se tinha
desenvolvido nos países ocidentais, na segunda metade do século5. Entre eles,
podemos destacar pela projecção que tiveram na altura: as comemorações do centenário
da declaração da independência americana (1876), o centenário da Revolução francesa
(1889), o quarto centenário do descobrimento da América (1892) e o centenário do
próprio século (1900).
O tricentenário de Camões
Algumas comemorações nacionais tiveram uma significativa repercussão
no Brasil, mercê das relações históricas existentes entre os dois países e do empenho
da importante comunidade portuguesa ali residente. Foi o caso da comemoração do
tricentenário da morte de Camões, em 1880. O poeta era considerado um símbolo da
nacionalidade portuguesa e um génio que fazia parte do património de toda a humanidade.
A sua obra tinha tido uma considerável divulgação entre as elites cultas de diversos
países e era reconhecida como um verdadeiro monumento da literatura mundial.
Em Portugal, as celebrações foram promovidas por uma comissão da
imprensa que agregou personalidades de diversas sensibilidades políticas e partidárias.
Contudo, o centenário ficou marcado pelo papel que os republicanos desempenharam na
defesa da sua realização e na propaganda do seu ideário. A figura mais destacada foi
Teófilo Braga que publicou um conjunto de artigos, no Commercio de Portugal,
destinado a publicitar a ideia do centenário, dentro de um quadro ideológico marcado
pela influência das concepções positivistas. Mas foi o empenho de Luciano Cordeiro,
fundador e secretário perpétuo da Sociedade de Geografia de Lisboa, que viabilizou a
organização necessária para se realizarem os festejos. Estes decorreram durante três
dias na capital do país e tiveram um eco muito forte em todas as regiões da província,
devido à constituição de comissões locais patrocinadas pela imprensa regional. Entre
iluminações, música, foguetes, conferências, exposições e espectáculos nos teatros,
o ponto alto das comemorações foi o cortejo cívico que percorreu as ruas de Lisboa
durante várias horas.
O centenário camoniano teve uma repercussão considerável no
estrangeiro, em particular nos círculos mais informados e cultos, onde a obra do poeta
era muito apreciada. No Brasil, o impacto foi notável e as autoridades oficiais, os
intelectuais brasileiros e a comunidade portuguesa promoveram múltiplas iniciativas
destinadas a assinalar o dia da sua morte. Não é, evidentemente, possível traçar um
quadro exaustivo de todas elas, mas podemos destacar algumas das mais significativas6.
Na cidade do Rio de Janeiro, as celebrações foram abertas com a
inauguração de uma grande Exposição Camoneana, na Biblioteca Nacional, que
reuniu um acervo iconográfico e bibliográfico valioso. O próprio Imperador, D. Pedro
II, presidiu à abertura e encerramento do evento. O bibliotecário responsável pela
organização da exposição, dr. Benjamin Franklin Ramiz Galvão, na sua breve alocução
salientou a universalidade do poeta, "que não cantou só as glorias do patrio
ninho, - mas uma pagina brilhante da historia da humanidade,
que não é thesouro de um seculo, de um povo, de um vate, de uma lingua, mas thesouro de
todos os tempos e de todos os lugares"7.
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Cortejo cívico comemorativo do «Centenário de Camões».
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O Gabinete Portuguez de Leitura do Rio de Janeiro foi o responsável
pelas realizações mais notáveis. Desde 1878 que a direcção tinha decidido celebrar a
memória do épico da forma mais significativa: o lançamento da primeira pedra do futuro
edifício destinado a albergar a sua biblioteca e a ser um ponto de reunião e encontro de
todos os associados, além de um pólo de divulgação da cultura portuguesa no Brasil. A
traça do palácio foi executada pelo arquitecto português Rafael da Silva Castro dentro
do estilo neomanuelino então em voga. Para colocar em quatro baldaquinos na fachada,
foram encomendadas ao escultor Simões de Almeida as estátuas do Infante D. Henrique,
Luís de Camões, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. As figuras foram concebidas de
acordo com os cânones estéticos naturalistas, representando uma idealização dos
heróis onde sobressai o porte elevado, a fisionomia grave e uma atitude nobre e serena. A
obra só foi inaugurada a 22 de Dezembro de 1888 e, em 1906, um decreto de D. Carlos
concedeu-lhe o título de Real8.
As festas promovidas pelo Gabinete Portuguez de Leitura continuaram, à
noite, com um espectáculo no Teatro de D. Pedro II, onde se reuniram mais de três mil
pessoas. No proscénio foi colocado o busto de Camões, do escultor Simões de Almeida, e
o pedestal ficou juncado de coroas de flores enviadas por muitas corporações
científicas, literárias e artísticas do Brasil. O principal orador foi o escritor e
político brasileiro Joaquim Nabuco, grande lutador da causa da abolição da escravatura9.
Seguiu-se a recitação de poesias dedicadas a Camões e a representação da peça
dramática em um acto do escritor e poeta brasileiro Machado de Assis, Tu, só tu, puro
amor, sobre o famoso romance entre Camões e Catarina de Ataíde. O Festival
Commemorativo terminou com a execução de vários números musicais, destacando-se o
"Hymno Triumphal a Camões", composto pelo maestro brasileiro Carlos Gomes.
No campo da divulgação da obra do poeta, que foi uma tónica
importante de todo o centenário, o Gabinete Portuguez de Leitura promoveu uma edição de
Os Lusíadas, com um prólogo de Ramalho Ortigão e um invulgar retrato de Camões,
executado pelo pintor Columbano. Além disso, mandou cunhar uma medalha com o duplo
objectivo de comemorar o tricentenário e o assentamento da primeira pedra do novo
edifício. No anverso, pode ver-se o busto de Camões de acordo com o retrato
seiscentista, mas sem a tradicional coroa de louros. Neste caso, preferiu-se colocá-la a
emoldurar o busto do poeta.
No dia 13 de Junho, realizou-se na baía do Botafogo uma regata que foi
muito concorrida pelo público. Os prémios eram exemplares de Os Lusíadas e
medalhas de bronze, que foram distribuídos pelo Imperador. Aliás, a sua participação e
a da família real nas principais iniciativas mostra bem o empenho da monarquia brasileira
nas comemorações. O narrador destes acontecimentos em Portugal, o republicano Teófilo
Braga, refere a propósito que o Imperador se vinha apoiando no "espirito
conservador da colónia portugueza"10. À noite, toda a baía
apareceu iluminada e numerosas embarcações vogavam, levando a bordo as famílias que
queriam observar o espectáculo do fogo de artifício.
Ainda no Rio de Janeiro, os positivistas realizaram um sarau literário
e artístico no Theatro Gymnasio, a 10 de Junho, onde foram escutados trechos da ópera
Guarany, do maestro Carlos Gomes, entre discursos e récitas. A decoração do teatro
punha em evidência os princípios ideológicos que presidiam à celebração de Camões e
era dominada pela evocação das Civilizações Clássicas, da Renascença e dos
Descobrimentos, vistos como factores históricos do "progresso" da Humanidade11.
Noutras cidades do Brasil, nomeadamente em São Paulo, também se ficaram a dever à
iniciativa dos positivistas brasileiros diversas cerimónias e festejos. O mesmo cunho
ideológico esteve presente na festa promovida pelos estudantes brasileiros, no Rio de
Janeiro. Os estudantes das Academias reuniram-se na rua do Theatro para uma marcha aux
flambeaux que desfilou em duas alas pelas ruas da cidade. Os estudantes levavam
balões chineses suspensos em varas, com flâmulas e galhardetes. À frente do cortejo, ia
a banda dos Imperiais Marinheiros, em seguida a bandeira da Politécnica e as bandeiras da
Humanidade e da Civilização, que tinham servido na véspera para a festa dos
positivistas. Um grupo de estudantes carregava em ombros o busto de Camões, colocado
sobre um palanquim adornado com flores. Fechavam o préstito as bandas marciais do corpo
de polícia e um batalhão de Infantaria. As ruas por onde passou o cortejo foram
iluminadas e decoradas para o efeito, e a população acorreu para saudar os estudantes.
As celebrações estenderam-se a outras cidades brasileiras, com maior
ou menor brilho consoante a disponibilidade e empenho dos organizadores. A comunidade
portuguesa mobilizou-se e há notícia de festejos em Pernambuco, Bahia, São Paulo, Porto
Alegre, Uruguaiana e outros locais. O jornalismo brasileiro consagrou números especiais e
artigos ao centenário, nomeadamente a Revista Brazileira12 e os maiores
representantes da imprensa diária.
A tónica dos discursos foi colocada, naturalmente, na celebração do
poeta e da época gloriosa da história de Portugal que cantou na sua epopeia. Em
Portugal, demonstrava-se grande júbilo pela forma como tinha decorrido o centenário no
Brasil e irmanavam-se as duas nações, sob a égide de Camões:
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Folha de rosto de Os Lusíadas. Edição ilustrada comemorativa do IV «Centenário da
Índia», Lisboa, Sociedade de Geografia de Lisboa, 1898.
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"No Brazil e especialmente no Rio de Janeiro, as festas do
terceiro centenario de Camões tiveram um brilho excepcional como devia ser tratando-se de
honrar a memória dum genio que falou uma linguagem herdada pelos dois povos, que
pertence ás duas nacionalidades, que é filho dos dois paizes pelo espirito pela raça e
pelas tradições"13.
O Brasil era considerado uma promissora nação que poderia formar os
"Estados Unidos do Sul", onde a herança deixada pela colonização portuguesa
seria o "vinculo moral" necessário para manter a unidade de tão imenso
território14. Teófilo Braga considerava mesmo, nas páginas da revista O
Positivismo, que o Brasil era "o rudimento de uma phase nova e futura da
nação portugueza"15. Na perspectiva de alguns sectores portugueses,
e malgrado as divergências acirradas pelo nacionalismo em ambos os países, o Brasil era
visto como um prolongamento de Portugal no Novo Mundo.
O "Centenário da Índia"
Depois do centenário camoniano, outra celebração que teve um eco
assinalável no Brasil foi o "Centenário da Índia", segundo a designação
abreviada utilizada na época. Em Portugal, as comemorações foram promovidas pela
Sociedade de Geografia de Lisboa com o apoio do governo, após muitas indecisões e larga
insistência dos organizadores16. O programa desenrolou-se de 17 a 20 de Maio
de 1898, quando se completavam quatro séculos sobre a chegada da armada comandada por
Vasco da Gama a Calecute. Entre as múltiplas iniciativas realizadas, salientaram-se um
imponente cortejo cívico que percorreu durante várias horas as ruas de Lisboa, uma Feira
Franca, ao cimo da Avenida da Liberdade, várias exposições, espectáculos nos teatros,
provas desportivas e a inauguração do Aquário Vasco da Gama. O projecto de uma grande
Exposição Internacional, na zona ocidental da cidade, teve de ser abandonado por falta
de recursos financeiros. O programa editorial do centenário também se destacou pelo
número e qualidade das publicações, nomeadamente no campo historiográfico e das
edições de fontes.
O centenário teve uma considerável repercussão em todo o país e no
estrangeiro, mercê da solidariedade manifestada pelas associações congéneres da
promotora dos festejos portugueses e de diversas agremiações científicas afins. Estas
não só promoveram sessões solenes e conferências para evocar a memória do Almirante
do Mar da Índia e do seu feito, mas também se fizeram representar na cerimónia que
decorreu na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa, presidida pelo rei D. Carlos17.
Diversas personalidades tomaram a palavra para discorrer sobre a influência dos
descobrimentos portugueses na história geral da civilização e para fazer o panegírico
apropriado às circunstâncias especiais da celebração.
Em representação da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e dos
Institutos Históricos e Geográficos de São Paulo e da Bahia, falou João Pereira
Monteiro, professor da Faculdade de Medicina, de São Paulo. O seu elogio da terra e da
gente portuguesa insere-se na visão tradicional daquela época. Nas suas palavras,
Portugal tinha ido "cravar o marco da civilisação nas escuras regiões da
barbarie inconsciente e, pelo sopro do seu poder juridico, innoculou o direito onde só a
força brutal de humanas feras dominava, - terra assim forte,
assim civilisadora, assim rica, dos mais preciosos thesouros do mundo phisico e do mundo
moral, - a luz e o direito, - terra
assim de tanto prodigio não enfraquece, nem póde morrer jamais"18.
Os portugueses eram, deste modo, elevados a agentes do "progresso" e das forças
civilizadoras, contra a selvajaria e a barbárie que ainda dominariam o mundo no início
da Idade Moderna. Trata-se de uma visão que foi comum no discurso ideológico da época e
que justificava o domínio exercido pelos europeus, ou pelos seus descendentes radicados
noutros continentes, sobre o mundo.
Entretanto, no Brasil tinha-se implantado a República em 1889 e os
festejos foram especialmente subscritos pelas associações da comunidade portuguesa,
espalhadas por várias regiões. Muitas récitas de gala, saraus literários e
artísticos, missas solenes e a constituição de uma Grande Comissão Patriótica
Portugueza que, tendo ainda presente a humilhação do Ultimato britânico a Portugal e as
dificuldades do erário nacional, promoveu uma subscrição pública para oferecer um
navio de guerra à Pátria19.
Outro edifício ficou ligado às comemorações portuguesas, desta
feita o Real Centro Português de Santos20. As reminiscências
"manuelinas" estão presentes nas janelas e portais, bem como na cimalha
rendilhada. Este estilo de carácter revivalista, tributário de uma arte de feição
nacionalista que teve grande voga na época, prolongou-se pelo século XX e ainda está
presente no Gabinete Portuguez de Leitura da Bahia, inaugurado em 191821. Por
sua vez, o governo federal brasileiro decretou que a data do centenário fosse "dia
de gala", tendo lugar os embandeiramentos dos edifícios públicos e dos navios
surtos nos portos que eram da praxe22. Os vasos de guerra também deveriam
salvar para assinalar a efeméride. Desta forma a República brasileira mostrava a sua
solidariedade com as comemorações portuguesas e reconhecia a importância histórica da
viagem que tinha permitido ligar, por via marítima, o Ocidente e o Oriente.
O quarto centenário da descoberta do Brasil
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Retrato de Pedro Álvares Cabral publicada numa gravura publicada em Retratos e
elogios dos varoes e donas que ilustram a naçao portuguesa, de Pedro José
Figueiredo, Lisboa, Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1817.
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Dois anos depois tinha lugar o quarto centenário do descobrimento
oficial do Brasil. Mais uma vez, a vigilante Sociedade de Geografia de Lisboa não queria
deixar passar a data sem promover a celebração do feito de Pedro Álvares Cabral. O
assunto foi debatido na sessão de 12 de Fevereiro de 1900, mediante o parecer apresentado
pela Comissão Americana. Mas a difícil conjuntura nacional e um certo cansaço dos
principais organizadores deste género de iniciativas, que no centenário anterior tiveram
de lutar com as reticências dos governos e com dificuldades de toda a ordem para levar o
projecto por diante, reduziram, logo à partida, o âmbito das propostas para o
centenário23.
Na introdução ao seu parecer, a Comissão recordava as difíceis
circunstâncias económicas do país e defendia que a "importancia das homenagens
não está no seu valor intrinseco mas na maneira sincera como são prestadas"24.
Assim, propunha um ciclo de conferências sobre os descobrimentos portugueses, na sede da
Sociedade de Geografia, feitas por homens de reconhecida competência; um número especial
do Boletim, dedicado ao descobrimento do Brasil; a trasladação dos restos mortais
de Pedro Álvares Cabral para o Mosteiro dos Jerónimos, onde já estavam os de Camões e
Vasco da Gama; uma sessão solene na sala "Portugal", da Sociedade de Geografia;
e, por fim, que fossem estudados os meios práticos para se erguer um monumento a Cabral.
A proposta foi objecto de discussão e outras ideias surgiram entre os
sócios presentes. Havia quem fosse contrário à trasladação pelo facto do Mosteiro
continuar em obras de restauro e não estarem reunidas as condições para receber com
dignidade os restos de Pedro Álvares Cabral25. Outro problema ainda mais
difícil se iria colocar: o facto de haver ossos de mais do que uma pessoa no carneiro
onde se julgava estarem também os de Cabral, na igreja do convento da Graça, em
Santarém. Além do hábito antigo de enterrar mais do que um indivíduo na mesma campa,
parece que a sepultura fora profanada aquando das invasões francesas e nela havia
esqueletos distintos26. Tal como já tinha acontecido com as trasladações de
Camões e Vasco da Gama27, não se podia identificar com certeza os restos de
Pedro Álvares Cabral. A cerimónia teria, por conseguinte, um valor meramente simbólico.
Mas continuava a haver quem se opusesse ao plano, seja pelas razões já invocadas ou por
considerarem que as cinzas de Cabral estavam muito bem junto de sua mulher, D. Isabel de
Castro, e onde ele tinha escolhido ser enterrado. Assim sendo, a trasladação não chegou
a ser realizada.
Outros projectos foram debatidos na reunião da Sociedade de Geografia.
Alguns tinham uma inegável utilidade prática, como a criação de uma escola destinada a
educar os futuros colonos das possessões portuguesas, denominada Pedro Álvares Cabral,
ou a celebração de um tratado económico com o Brasil, nos termos que melhor
correspondessem aos interesses da indústria, da agricultura e do comércio dos dois
países28. Ainda chegou a ser proposta a realização do tradicional cortejo
cívico, mas a ideia foi rejeitada por não haver condições nem tempo para o efeito.
O projecto da Comissão Americana não chegou a ser concretizado e, em
Lisboa, a celebração oficial ficou circunscrita à evocação de Pedro Álvares Cabral e
do seu feito numa sessão solene na Sociedade de Geografia, a 5 de Maio de 190029,
sob a presidência do rei D. Carlos. O governo decretou "dia de gala" naquela
data e em várias cidades do país foram promovidas conferências e sessões públicas
para recordar a efeméride30. Mas o centenário passava quase despercebido no
meio dos problemas gravíssimos do país.
A crise agrícola atingia fortemente o mundo rural e as tradicionais
exportações portuguesas debatiam-se com a quebra de preços e a concorrência nos
mercados estrangeiros, nomeadamente o sector vinícola. Em 1899, o governo tinha-se visto
obrigado a impor restrições à importação do trigo estrangeiro para facilitar o
escoamento da produção nacional. A chamada "Lei da Fome" atendia os interesses
dos produtores de trigo, mas prejudicava gravemente os consumidores e aumentava, por isso,
o descontentamento das populações. Nas cidades crescia a agitação e os sectores
políticos mais radicalizados colhiam os dividendos da situação. Na sequência de um
surto de peste bubónica na cidade do Porto, que tinha obrigado o governo a impor medidas
sanitárias imprescindíveis mas impopulares, os republicanos capitalizaram o mal-estar
elegendo três deputados nas eleições de 26 de Novembro de 1899. Perante estes
resultados as eleições foram anuladas, por alegadas irregularidades, e repetidas a 18 de
Fevereiro do ano seguinte. Mas o Partido Republicano não só manteve a votação como
ainda a aumentou31.
O regime monárquico sentia-se, naturalmente, alvo de uma crescente
ameaça. Os deputados republicanos eleitos criaram, nas Cortes, um ambiente de grande
contestação que acelerou a queda do ministério progressista, liderado por José Luciano
de Castro, já gasto por três anos de governação especialmente difícil. A 25 de Junho
de 1900 foi nomeado novo governo, dirigido pelo chefe do Partido Regenerador, Hintze
Ribeiro. Um dos principais problemas era o deficit orçamental e o volume da
dívida pública que impunham pesadas restrições às despesas. Os governos
defrontavam-se com uma situação de penúria financeira, cuja solução mais imediata era
o recurso a mais endividamento. Mas os credores tradicionais mostravam-se desconfiados e
cada vez mais exigentes, depois da grave crise financeira portuguesa do início da
década. O período foi marcado por uma nova fase de estagnação económica (1891-1914)
que aumentava ainda mais o atraso de Portugal e a distância em relação aos países mais
desenvolvidos32. O pessimismo instalou-se entre certas camadas de intelectuais
portugueses, enquanto outros sectores se refugiavam na retórica nacionalista e na
exaltação das glórias passadas como lenitivo para as dificuldades do presente.
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Corte transversal do projecto do Real Gabinete POrtuguês de Leitura, Rio de Janeiro.
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A questão colonial estava na ordem do dia. Em 1898, um tratado
anglo-germânico continha uma cláusula secreta que previa a partilha de Angola,
Moçambique e Timor em certas circunstâncias33. Mas a Grã-Bretanha não
estava realmente interessada no seu cumprimento e somente pretendia usá-lo para impedir a
aliança entre os alemães e os bóeres no conflito do Transvaal. Por isso, em 1899,
através do tratado de Windsor reafirmava os anteriores compromissos de amizade e garantia
a integridade dos domínios portugueses. Em troca Portugal deixava utilizar o território
de Moçambique para transportar tropas e armamento para a guerra anglo-bóer e
comprometia-se a não permitir a instalação de qualquer base naval, estação de cabos
ou depósito de carvão nas suas ilhas do Atlântico. A aliança com Portugal servia,
assim, para os ingleses neutralizarem as pretensões alemães e vencerem os bóeres.
Apesar dos hábeis jogos da diplomacia continuarem a permitir a
Portugal manter a soberania nas colónias, havia que garantir a ocupação militar e a
administração portuguesa sobre vastíssimos territórios. Na precária situação do
erário público e perante as dificuldades económicas do país tal desiderato mostrava-se
particularmente difícil de cumprir. Algumas vozes isoladas levantavam-se para defender a
venda das colónias. A12 de Fevereiro de 1900 José Bento Ferreira de Almeida, antigo
ministro da Marinha e Ultramar, discursou a favor de tal posição na Câmara dos
Deputados, reservando somente Angola e São Tomé e Príncipe34. O produto
dessa venda serviria, na sua opinião, para pagar a dívida externa e promover o
desenvolvimento do país. Mas esta posição era minoritária e não colhia o apoio da
opinião pública numa época dominada, em Portugal e noutros países europeus, pelo
ascendente das pretensões imperialistas. O major Mouzinho de Albuquerque tinha sido
recebido, depois da vitória contra o império dos vátuas e da prisão de
Gungunhana,
como um herói nacional e o Hymno do Centenario da India fazia a seguinte
exortação:
Portuguezes dos tempos dagora!
Sêde dignos da herança sagrada!
A tarefa é gigante, é pesada;
Mas há hombros, que a podem suster!35
O país não cedia no que considerava serem os seus direitos
históricos sobre territórios dispersos por dois continentes, a África e a Ásia. Mas a
questão mais premente, no final do século XIX, prendia-se com a manutenção das
colónias africanas e o sonho de transformá-las em pólos de desenvolvimento capazes de
absorver a mão-de-obra nacional que todos os anos continuava a demandar o Brasil. Tendo
em conta a população total do país, o número de emigrantes que partiam em busca de
melhores condições de vida era realmente impressionante. Este problema social
demonstrava bem as dificuldades estruturais da economia nacional e as carências que
afectavam a maior parte dos portugueses.
Neste contexto, compreende-se que a comemoração do quarto centenário
da viagem de Pedro Álvares Cabral não tivesse dado lugar a grandes festas. Mas no
Brasil, pelo contrário, a data foi assinalada com importantes celebrações públicas e
festividades. O Estado português enviou como seu representante uma figura cimeira do
regime monárquico e constitucional, o general e conselheiro Francisco Maria da Cunha, que
foi acompanhado por uma comitiva oficial. A delegação deslocou-se num navio de guerra, o
cruzador D. Carlos, e chegou com alguns dias de atraso, mas ainda pôde participar nas
principais cerimónias do programa oficial das comemorações. Em particular, merece
destaque o facto do descerramento do monumento dedicado a Pedro Álvares Cabral, do
escultor Rodolfo Bernadelli, ter sido inaugurado em conjunto pelo representante de
Portugal e pelo presidente da República do Brasil na época, Campos Salles. Além de
Cabral, o monumento homenageia também Pêro Vaz de Caminha e frei Henrique de Coimbra36.
Em 1940, o governo brasileiro ofereceu uma réplica do monumento que foi descerrada, em
Lisboa, no âmbito das comemorações do Duplo Centenário da Independência e
Restauração de Portugal.
A imprensa portuguesa referiu-se ao centenário e noticiou os festejos
realizados no Brasil. A revista Brasil-Portugal, editada em Lisboa, fez uma larga
cobertura dos acontecimentos e publicou um número especial dedicado ao centenário, que
reuniu uma importante colaboração de autores nacionais37. A publicação ia
no segundo ano de existência e divulgava entre nós aspectos da cultura e da sociedade
brasileira. O espírito que animava a publicação foi, de certa forma, resumido por Brito
Aranha no artigo intitulado "Brasil e Portugal": "O Brasil é, e será,
uma grande nação na grande América. Tem vida propria, tem civilisação propria, tem
independencia, tem brio, tem patriotismo! [...] Mas o Brasil tambem é nosso
irmão"38.
Os centenários de Camões, do descobrimento do caminho marítimo para
a Índia e do Brasil tiveram, por conseguinte, expressão em ambos os lados do Atlântico.
De um ponto de vista geral, as posições ideológicas e a visão da história subjacentes
às comemorações eram comuns. As navegações europeias e, em particular, os
descobrimentos portugueses eram vistos como uma grande gesta colectiva, que tinha
permitido aproximar os continentes e desbravar regiões até então desconhecidas. Mas
mais importante do que isso era o facto de ter permitido estabelecer o domínio da Europa
sobre o mundo e, assim, contribuído para trazer ao grémio da Civilização vastas áreas
e povos do globo.
Entendia-se que a colonização europeia era uma prática civilizadora
e que a Humanidade caminhava num sentido de evolução e "progresso" que
conduziria, inevitavelmente, à aproximação dos povos colonizados dos padrões culturais
e de desenvolvimento dos colonizadores. Os países do Novo Mundo e, neste caso, o Brasil
eram considerados um bom exemplo desse processo que tinha permitido criar sociedades à
imagem e semelhança das europeias. Os portugueses orgulhavam-se do grande esforço feito
e dos resultados que tinham sido alcançados naquela região da América Latina. Pelo
menos os sectores mais cultos e informados do ponto de vista histórico, não esqueciam
que a grande nação latino-americana, com o seu vasto território e uma língua comum,
tinha sido fruto da colonização portuguesa.
Neste sentido, o descobrimento do Brasil era comemorado como o início
da sua história. Por um lado, considerava-se que os primitivos habitantes do Brasil pelo
facto de serem povos sem escrita estavam na Pré-História e, por isso, tinha sido a
chegada dos europeus que tornara possível o ingresso daquelas regiões na História. E,
por outro lado, entendia-se que o Brasil era uma criação dos portugueses:
"O Brazil não existia antes do descobrimento, nem ficou
existindo pela realização deste. O Brazil, imediatamente à empreza de Álvares
Cabral, ficou sendo apenas uma designação, um nome, de uma paragem
transoceanica,
dahi em diante marcada nas cartas. [...] O Brazil que descobrimos não é,
pois, na realidade das cousas, o Brazil pelo qual nos glorificamos. Este é outro Brazil,
muito diverso: é o Brazil que nós creamos, que nós fizemos"39.
O autor deste artigo concluía que Portugal já não poderia morrer
como Nação, pois iria sobreviver no Brasil -
"nelle estamos continuados e renovados; nelle somos reconhecidos pelos
povos que nos rodeiam; nelle, finalmente, continuamos, pela perpetuidade dos tempos,
a sermos nós". Esta ideia do Brasil como uma continuação de Portugal na América
foi um dos tópicos mais significativos dos discursos comemorativos. O Brasil e os
brasileiros não eram vistos numa óptica de alteridade, mas como uma parte de nós. Era
também considerado o exemplo máximo da capacidade de Portugal como país colonizador, de
tal modo que o grande objectivo do colonialismo português consistia em criar "novos
brasis" em África.
O feito de Pedro Álvares Cabral assumia, por conseguinte, o valor de
um acontecimento fundador da história e da futura nação brasileira. Nisto residia a sua
importância para a memória nacional tanto dos portugueses como dos brasileiros e como
tal foi comemorado em 1900. A polémica historiográfica bastante viva sobre as
circunstâncias que rodearam o achamento do Brasil era, naturalmente, um problema que
interessava a um universo restrito de cidadãos. O acaso ou a intencionalidade, o
verdadeiro responsável pelo feito e o papel desempenhado por Cabral, a datação precisa
da chegada às costas brasileiras, a localização dos sítios que a armada percorreu e
onde fundeou, entre outros aspectos, foram assuntos focados em opúsculos e revistas mais
especializadas, mas não tinham impacto fora dos círculos mais cultos. A própria data da
comemoração oficial, fixada em 5 de Maio, não respeitou o que já se sabia sobre o dia
da chegada da armada à região de Porto Seguro.
Aquilo que os portugueses queriam recordar era a ligação histórica
do Brasil a Portugal, "desde o nascimento para a vida civilizada desse
grande país", nas palavras do almirante Almeida dEça, pronunciadas na
sessão solene da Sociedade de Geografia40.
No seu discurso defendeu que colonizar é "desbravar a
floresta, cultivar a campina, guiar as aguas da torrente, exterminar as feras, fundar
povoados, amansar o indigena bravio, ligar-se com elle, dar origem a novas raças que das
raças cruzadas conservem as qualidades, fazer uma nação nova onde a nação antiga se
continue". Teria sido assim que os portugueses colonizaram o Brasil e, quando a
nova nação atingiu a maturidade, tornou-se naturalmente independente.
O centenário do descobrimento do Brasil foi o pretexto para a
publicação de vários romances históricos que eram um género bastante popular na
época, além de relatos que tomavam por base a carta de Pêro Vaz de Caminha41.
A visão dominante neles em relação aos índios era de povos que viviam num estado
natural ou selvagem, mais próximo da condição animal ou da infantilidade. Mas o olhar
simpático de Caminha não deixou de influenciar as narrativas do século
XIX. Por um
lado, continuava presente a ideia da inocência dos índios bem demonstrada pela forma
como exibiam os seus corpos nus sem qualquer pudor. Pêro Vaz de Caminha chegou mesmo a
estabelecer comparação com a inocência de Adão no Paraíso. Por outro lado, não era
ignorada a beleza física dos homens e das mulheres, o carácter bom e a simplicidade dos
seus costumes, a amabilidade que demonstraram em relação aos portugueses, ultrapassadas
as primeiras reacções esquivas e de natural desconfiança.
Num dos romances, o autor concedeu mesmo ao personagem que simboliza o
índio uma certa superioridade moral em relação ao português que com ele rivaliza no
amor, porque como afirma, no prólogo, "a civilisação tem sido muitas vezes
mais barbara do que a barbarie"42. Havia, decerto, nesta concepção
ressaibos da ideia do "bom selvagem" que não existiam noutros relatos
que foram mais vulgares na época.
Os autores do século XIX não ignoravam as descrições das práticas
de canibalismo, que tinham chocado os europeus quando se inteiraram melhor dos costumes
indígenas. A antropofagia era, por conseguinte, um dos elementos mais importantes de uma
visão bastante generalizada sobre os índios, que ressaltava a imagem da selvajaria e
ferocidade. Fora destas generalidades mais vulgares, ainda havia um grande desconhecimento
sobre a história e a etnografia dos primitivos habitantes do Brasil. Não constituíam,
aliás, foco de interesse das comemorações, cuja perspectiva era claramente
lusocêntrica.
Os preconceitos da época não permitiam apresentar com igual
naturalidade a nudez dos índios nas ilustrações. Em certas obras são desenhados de
lado, de forma a esconder os sexos, e noutras aparecem pudicamente cobertos com uma tanga
de folhas. Mas as ilustrações de Roque Gameiro captaram bem os momentos mais
significativos do primeiro encontro entre os índios e os marinheiros portugueses. As suas
imagens de grande humanidade foram bastante fiéis ao relato de Pêro Vaz de Caminha.
Por último, é importante referir a forma como as relações
luso-brasileiras eram apresentadas nestes momentos especiais de celebração. Duas imagens
sobressaíam na maior parte dos discursos comemorativos: a paternal e a fraterna. De modo
geral, considerava-se que o Brasil era como um filho querido de Portugal que, tendo
alcançado a idade madura, se tinha emancipado do progenitor. Esta ideia salientava a
estreita relação histórica existente entre as duas nações e o papel de Portugal como
país colonizador. Mas os termos da relação não eram de plena igualdade, visto que a
figura paterna comporta uma certa autoridade e superioridade em relação ao filho. Por
isso, começou a ser também utilizada a imagem de uma relação entre países e povos
irmãos. Colocavam-se, assim, os portugueses e os brasileiros em pé de igualdade, unidos
por uma história comum e por relações fraternas. A imagem tornou-se recorrente nas
comemorações e até no discurso político-diplomático.
Em suma, a comemoração do quarto centenário do descobrimento do
Brasil, apesar de modesta, servia para reafirmar a profunda ligação histórica existente
entre os dois países. Pela mão de Portugal se considerava que o Brasil tinha, afinal,
entrado na História e na Civilização.
NOTAS
1 - Ver sobre o assunto: Francisco
Bethencourt, "A sociogénese do
sentimento nacional" in A Memória da Nação, Colóquio do Gabinete de
Estudos de Simbologia, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1991, pp. 477-480.
2 - Jacques Le Goff "Memória" in Enciclopédia Einaudi, Lisboa,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p. 37.
3 - Ver sobre o assunto: Maria Cândida Proença, " 1820: A festa da Regeneração:
permanências e inovações" in Revista de História das Ideias, nº 10,
Coimbra, 1988, pp. 375-384; Isabel Nobre Vargues, A Aprendizagem da cidadania em
Portugal (1820-1823), Coimbra, Minerva Editora, 1997.
4 - Ver sobre o assunto: Maria Isabel João, "Espaço urbano e festa cívica" in
A Cidade. Jornadas Inter e Pluridisciplinares, Lisboa, Universidade Aberta, 1993,
pp. 285- 294.
5 - Para uma abordagem genérica do fenómeno ver: Roland Quinault, "The cult of the
centenary, c. 1784-1914" in Historical Research, vol. 71, Nº 176, October
1998, pp. 303-323.
6 - As fontes consultadas: O Positivismo. Revista de Philosophia, II vol., Porto,
Livraria Universal, 1880; O Centenário de Camões em Pernambuco, festas
promovidas pela Directoria do Gabinete Portuguez de Leitura, Porto, 1880; O
Centenário de Camões em Porto Alegre, Porto Alegre, 1882; A festa do
tricentenario de Camões no salão da Escola Practica do Pará, Club
Euterpe, s.l.,
s.d.; O Occidente, vol. III, Nº 63, Lisboa, 1 de Agosto de 1880.
7 - Cit. O Positivismo. Revista de Philosophia, II vol., Porto, Livraria
Universal, 1880, p. 515.
8 - O neomanuelino ou a reinvenção da arquitectura dos descobrimentos, Lisboa,
CNCDP, 1994, p. 253.
9 - Joaquim Nabuco, Discurso pronunciado a 10 de Junho de 1880 por parte do Gabinete
Portuguez de Leitura, Rio de Janeiro, 1880.
10 - O Positivismo. Revista de Philosophia, II vol., Porto, Livraria Universal,
1880, p. 517.
11 - Ibidem, p. 514.
12 - O número de homenagem abre com breves palavras de D. Pedro II e é preenchido por
poemas assinados por escritores e literatos brasileiros e portugueses - Revista
Brazileira. Homenagem a Luiz de Camões, 10 de Junho de 1880, Rio de Janeiro, 1880.
13 - O Occidente, vol. III, Nº 63, Lisboa, 1 de Agosto de 1880, p. 126.
14 - O Positivismo. Revista de Philosophia, II vol., Porto, Livraria Universal,
1880, p. 517.
15 - Ibidem.
16 - Para uma abordagem mais desenvolvida, ver o nosso artigo em O "Centenário
da Índia" e a memória da viagem de Vasco da Gama, Lisboa, Comissão Nacional
para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, pp. 17-56.
17 - Quarto Centenario do Descobrimento da India, Sessão Solene na Sociedade de
Geographia de Lisboa, em a noite de 16 de Maio de 1898, Lisboa, Imprensa Nacional,
1899.
18 - Ibidem, p. 21.
19 - O Centenario da India pela colonia portugueza da Bahia, Bahia, Officinas dos
"Dois Mundos", 1898, p. 193.
20 - O neomanuelino ou a reinvenção da arquitectura dos descobrimentos, Lisboa,
CNCDP, 1994, p. 255-57.
21 - Ibidem, p. 259.
22 - O Centenario da India pela colonia portugueza da Bahia, Bahia, Officinas dos
"Dois Mundos", 1898, p. 29.
23 - Para uma análise mais detalhada dessas dificuldades, ver o nosso artigo já citado.
É importante também recordar que, ainda nesse ano, morreu Luciano Cordeiro e que o
trabalho dos organizadores destes eventos não era remunerado. Era considerado um dever
cívico.
24 - Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 19ª serie, Nº 1 e 2, Janeiro
e Fevereiro de 1901, Lisboa, Imprensa Nacional, 1901, p. 25.
25 - Idem, p. 28.
26 - Actas das Sessões da Sociedade de Geographia de Lisboa, vol.
XIX, Anno
de1899, Lisboa, Imprensa Nacional, 1900, p. 228 Uma comissão que, em 1882, tinha
procedido ao exame do local concluiu que "houvera violação e que na referida
sepultura se acham ossadas de esqueletos distinctos, mas sem a menor exhitação pela
vetustade das ossadas uma d'ellas pertencia ao inclyto navegador".
27 - Os supostos restos mortais de Vasco da Gama foram trasladados por duas vezes, em 1880
e em 1898. Ver sobre o assunto o nosso texto: "As comemorações do "Centenário
da Índia"" in O "Centenário da Índia" e a memória da viagem de
Vasco da Gama, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos
Portugueses, 1998, pp. 54-55.
28 - Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 19ª série, nº 1e 2, Lisboa,
Imprensa Nacional, 1901, pp. 29 e 31.
29 - Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 19ª série, nº 1e 2, Lisboa,
Imprensa Nacional, 1901, pp. 99-110.
30 - Portugal, Madeira e Açores, Lisboa, 5 e 13 de Maio de 1900.
31 - História de Portugal em datas, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, p. 248.
32 - Eugénia Mata e Nuno Valério, História Económica de Portugal. Uma perspectiva
global, Lisboa, Presença, 1993, p. 162.
33 - António José Telo, Economia e Império no Portugal Contemporâneo, Lisboa,
Cosmos, 1994, p. 206.
34 - História de Portugal em datas, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, p. 248.
35 - Fernandes Costa, Hymno do Centenario da India, Lisboa, Imprensa Nacional,
1897, p. 12.
36 - Sobre o monumento, ver a revista O Occidente, vol. XXIII, nº 768, 30 de
Abril de 1900.
37 - Brasil-Portugal, 2º ano, Número Extraordinario, Fevereiro de 1900 a
Fevereiro de 1901, Lisboa, 1901.
38 - Brasil- Portugal, 2º anno, Fevereiro de 1900 a Fevereiro de 1901, Lisboa,
1901, p. 75.
39 - Commercio do Porto, Porto, 8 de Maio de 1900.
40 - Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 18ª serie, Agosto a Novembro
de 1900, Nª 8 a 11, Lisboa, 1901, p. 405.
41 - Alberto Pimentel, O descobrimento do Brazil, 2ª ed., Lisboa, 1900; Henrique
Lopes de Mendonça, Terra de Santa Cruz, Lisboa, 1899; Faustino da Fonseca, A
Descoberta do Brazil; Lisboa, 1900; O Descobrimento do Brazil - Narrativa de um
marinheiro, Lisboa, 1900.
42 - Alberto Pimentel, O descobrimento do Brazil, 2ª ed., Lisboa, 1900, p.
XIII.
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