Camões  
  Revista de Letras e Culturas Lusófonas  
 
 
  Número 15-16      ·       Janeiro-Junho de 2003  
 
 
 
O Teatro no período de Pombal: doutrina, prática e ideologia

Duarte Ivo Cruz


Lisboa, Teatro Garrett, in O Bilhete Postal Ilustrado e a História de Lisboa, de José Manuel da Silva Passos.

O teatro, no longo e poderoso consulado do Marquês de Pombal, sofreu o impacto directo das reformas e da mentalidade imposta pelo "vigilante Ministro", expressão usada com plena propriedade por uma dos principais dramaturgos da época, Pedro António Correia Garção.

Esse impacto e essa influência directa sobre o teatro e os seus criadores e agentes situam-se em dois planos principais. De um lado, uma reforma abrangente dos sistemas de censura e de produção e controle do espectáculo em si, de certo modo alimentados pela intensidade do movimento de teatro popular, chamado "teatro de cordel" pela forma algo tosca com que eram editados e vendidos os textos – cerca de 1800 – das peças representadas nos teatros do Bairro Alto, Salitre e da Rua dos Condes em Lisboa e no São João no Porto.

Mas mais significativa é a ligação intima e directa da politica do Marquês de Pombal com a doutrina e a prática teatral da Arcádia Lusitana, verdadeira câmara de ressonância, sob a forma de Academia, das reformas e da mentalidade do iluminismo pombalino, tal como as ruas de Lisboa são traçadas a régua e esquadro, no dizer de António José Saraiva. Trata-se de uma dramaturgia por vezes de qualidade mas sempre de rigorosa e segura subordinação a regras estáticas e técnicas de desigual resultado. Correia Garção, Domingos dos Reis Quita, Cruz e Silva e Manuel de Figueiredo, entre outros, deixam-nos assim uma obra dramatúrgica e poética de muito interesse e qualidade, mas que, mais do que o valor estético em si, fica como impressionante documento de uma época, de uma política e de uma mentalidade.

 

 

 
 

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