Moçambique: Exposição de fotografia «Nas Margens do Índico» de José Paula

Publicado em terça, 05 junho 2012 08:03

No dia 5 de junho, às 18 horas, é inaugurada na Galeria do Instituto Camões - Centro Cultural Português em Maputo, uma exposição de 65 fotografias a preto e branco – Nas Margens do Índico – de José Paula.

Esta exposição resulta de 20 anos de atividade de investigação na costa leste africana, em particular Moçambique, mostrando a diversidade de ambientes da zona costeira de Moçambique e Tanzânia, desde a ilha de Zanzibar ao Estuário do Rovuma, e das Quirimbas à ilha da Inhaca.

As atividades de pesca de subsistência são o tema central, sendo mulheres e crianças os atores principais. Todas as imagens são contextualizadas através de um texto de apresentação da autoria de Mia Couto.

José Paula é biólogo e Professor Associado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa na área de Biologia Marinha. Profissionalmente dedicado ao ensino e à investigação da biologia e ecologia marinhas, em especial em ecossistemas costeiros tropicais, é colaborador permanente da Universidade Eduardo Mondlane, como professor e investigador.

Atualmente ministra cursos de Ecologia Marinha no âmbito do programa de Mestrado. É fotógrafo amador de longa data, com especial interesse na biodiversidade costeira e atividades tradicionais humanas respeitantes ao mar e seus recursos.

Mais informação: www.instituto-camoes.org.mz

 

Palavras de Mia Couto sobre a exposição

 

Garimpeiras da água

O mar é o não haver a outra margem. Somos nós que a inventamos, além do horizonte. José Paula criou uma margem do lado de cá, uma berma que não vislumbrávamos, mas que sempre esteve dentro de nós. Essa margem é feita de gente. São pessoas comuns a quem ele confere um rosto, um corpo, uma história. São mulheres e crianças que penteiam as ondas, que coletam mariscos como se de lavoura se tratasse. A pesca está reservada aos homens, lá no onde das ondas.

O destino das mães e esposas é ficar, mas elas não moram na espera. Peixe que vier na rede vai ser trocado por dinheiro e ao dinheiro quem dá destino são os homens. Por isso, para que a família não definhe nos magros restos, estas mulheres peneiram as praias como garimpeiros. O que catarem da maré vaza irá encher a panela de cada dia. Poucos sabem mas para as famílias de pescadores do litoral o alimento que estas mulheres retiram das praias é tão ou mais importante que o pescado que trazem os barcos. Esse esforço de milhares de braços é invisível, tão oculto como as vidas que se esbatem na neblina.

Durante anos José Paula percorreu as zonas litorais de Moçambique. Poucos moçambicanos conhecerão a costa de Moçambique como este português que se apaixonou pelo nosso país. À sua bagagem de biólogo juntou o olhar de fotógrafo. O resultado são imagens como se fossem páginas de um diário feito de maresia e de humanas vozes que se liquefazem no quebra-mar.

Muitos estiveram no litoral de Moçambique. E tudo o que viram foram praias. Mas existe, para além desse cenário imediato, um universo de suor e sal, campos de lavra em que milhares de mulheres se debruçam para coletarem sobrevivências. Essa história épica é, de forma sublime, recriada nas imagens desta exposição.

 

Mia Couto

Maputo, Junho 2012

 

 

Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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