Prémio Camões consagra o escritor moçambicano Mia Couto

Publicado em terça, 28 maio 2013 11:47

O escritor moçambicano Mia Couto, autor de uma “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”, é o vencedor da 25ª edição do Prémio Camões, o mais importante galardão dedicado à criação literária em Língua Portuguesa.

A escolha do júri foi anunciada na noite de segunda-feira, dia 27 de maio, no termo de uma reunião realizada no Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro, Brasil. Com o valor pecuniário de 100 mil euros, o Prémio Camões foi instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989.

Nas suas anteriores edições já distinguiu nomes da Literatura lusófona como Miguel Torga, António Lobo Antunes, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago (Portugal) Jorge Amado, Dalton Trevisan (Brasil), Pepetela, José Luandino Vieira (Angola) e Arménio Vieira (Cabo Verde).

Para os jurados, a obra de Mia Couto conseguiu “passar do local para o global”. Mencionaram ainda que o autor de “O Último Voo do Flamingo” já editou 30 livros, extravasando assim as suas fronteiras nacionais com “grande reconhecimento da crítica”.

O júri desta edição do Prémio Camões foi constituído por Clara Crabbé Rocha, catedrática da Universidade Nova de Lisboa e José Carlos Vasconcelos, diretor do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, ambos de Portugal, o escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, Alcir Pécora, crítico e professor da Universidade de Campinas, e o diplomata Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras, pelo Brasil.

Mia Couto, que é o segundo escritor moçambicano consagrado pelo Prémio Camões, depois de José Craveirinha em 1991, estreou-se com um livro de poesia, publicado há exatamente 30 anos.

"Raiz de Orvalho", a obra, surgia então contra a corrente da poesia militante e panfletária, que marcava a época, depois de os primeiros textos do escritor terem já aparecido em duas antologias de autores moçambicanos, marcados pela tradição e a memória cultural do continente, e pelo "falinventar" português, de que o escritor fez a sua assinatura.

Mia Couto "é um elo vivo de toda a tradição portuguesa e de todo o espaço da língua portuguesa", disse o pensador Eduardo Lourenço no final de 2011, quando o autor de "Cronicando" foi distinguido com o Prémio que leva o seu nome. "Merece qualquer espécie de prémio", disse então Eduardo Lourenço.

António Emílio Leite Couto, Mia Couto, nasceu em 1955, na Beira, numa família originária de Portugal. Em 1971, iniciou os estudos de Medicina na antiga Universidade de Lourenço Marques, atual Maputo, associando-se então à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

Depois do 25 de Abril de 1974, interrompeu a formação, para trabalhar como jornalista, primeiro em A Tribuna, com Rui Knopfli, depois na Agência de Informação de Moçambique, que dirigiu. Seguiram-se a revista Tempo e o Notícias, até 1985, quando ingressou na Universidade Eduardo Mondlane, onde se formou em Biologia e onde é atualmente investigador e professor de ecologia.

Após o primeiro livro, seguiram-se, entre outros, "Tradutor de Chuvas", também de poesia, "Vozes Anoitecidas", livro de contos com que se estreou na ficção, a que se sucedeu "Cada Homem é uma Raça", "Estórias Abensonhadas", "Contos do Nascer da Terra", "Na Berma de Nenhuma Estrada", "O Fio das Missangas".

"Cronicando", "O País do Queixa Andar", "Pensatempos" testemunham o domínio da crónica, que Mia Couto viria a reunir também em "Textos de Opinião". Refletiu sobre a vitória de Barack Obama, nas presidenciais norte-americanas de 2008, num texto que daria nome à nova coletânea, "E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções", publicada em Portugal em 2009.

No romance estreou-se com "Terra Sonâmbula", na viragem da década de 1980 para a seguinte, obra que foi considerada um dos melhores livros africanos do século XX, Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos.

Seguiram-se "A Varanda do Frangipani", "Mar Me Quer", concebido para o pavilhão de Moçambique na EXPO'98, "Vinte e Zinco", "O Último Voo do Flamingo", "Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra" (adaptado ao cinema por José Carlos Oliveira), "Venenos de Deus, Remédios do Diabo", "Jesusalém", "A Confissão da Leoa".

Para os mais novos escreveu também "O beijo da palavrinha", publicado com ilustrações de Malangatana, "O Gato e o Escuro", "A Chuva Pasmada", "O Outro Pé da Sereia".

Mia Couto foi distinguido já com o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra, o Prémio União Latina 2007, de Literaturas Românicas, o Prémio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, do Brasil, e o Prémio Eduardo Lourenço, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras.

Em 2011, quando lhe foi entregue o Prémio Eduardo Lourenço, o pensador português, disse esperar que Mia Couto "seja um dos autores de origem portuguesa tão universal como a sua própria obra, que já é hoje".

Com Agência Lusa

 

 

Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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