Camões dá que falar com Bernardo Carvalho

Durante o ano de 2018, o Camões, I.P. irá promover um conjunto de conversas denominadas “Camões dá que falar” com personalidades das mais diversas áreas. Com um orador convidado por mês, o Camões abre as suas portas à sociedade civil e pretende tornar-se palco de discussões e debates, num registo informal e inclusivo, de modo a estimular a troca de ideias com a participação ativa da audiência.

Teve lugar no dia 5 de junho de 2018, no Auditório do Camões, I.P., a sexta edição do “Camões dá que falar” que contou com a participação do jornalista e escritor brasileiro Bernardo Carvalho, Prémio Oceanos de Literatura e Língua Portuguesa em 2017, e duas vezes distinguido, na categoria “Romance”,  pelo mais importante Prémio Literário do Brasil, o Jabuti (2004 e 2014). Das suas obras mais reconhecidas pelo público e pela crítica destacam-se o romance “Nove noites” (2002) e o seu último título  “Simpatia pela Demónio” (2016).

Bernardo Carvalho, cuja escrita é marcada pela desmontagem de conceitos-padrões na literatura e se define, deliberadamente, contra identidades prévias e assumidas, evocou no “Camões dá que falar”,  os grandes temas transversais à sua  escrita, numa conversa sobre “Literatura e Desejo” que procurou, numa viva troca de ideias com o público, partilhar a ideia de como, através dos seus livros, procura transmitir a mensagem de que todo o “desejo” está relacionado com a noção de “política” e com o reconhecimento de “identidades” nacionais ou outras. Por detrás de motivações políticas, identidades sociais, linguísticas ou de grupos minoritários,  Bernardo Carvalho classifica o “desejo” como o grande motor de todas as convicções relacionadas com a verdade e com as diferentes realidades, vivenciadas por sujeitos distintos.

Identificando vários momentos de “convulsão” social que marcaram a sua vivência como escritor (tendo particularizado os atentados de Paris, em Novembro de 2015), o escritor brasileiro relaciona, de forma direta, os atos terroristas a uma política também ela identitária e, sempre, o “desejo à identidade” de cada indivíduo que, em última instância, se revela, muitas vezes, como “contraditória e incompatível” com os padrões sociais.

Sobre a Língua Portuguesa, o escritor não a considera “um logótipo  com fronteiras” defendendo antes “uma literatura que põe fim a convenções e crenças”. Lamentando o grau de iliteracia em que vive submersa, atualmente, a maior parte da sociedade brasileira, o escritor procura combater, através das suas obras, as caraterísticas de uma sociedade (brasileira)  em permanente crise de “identidade política”, procurando aproximar-se dos leitores através de uma “escrita empobrecida mas rica em identidades”.  Bernardo Carvalho, através de uma “literatura aberta ao desejo”, procura assim descobrir novas identidades que, enquanto limitativas, não deixam de ser necessárias e, em última análise, constituem o padrão social da sociedade brasileira que procura retratar nos seus livros através de “um mosaico  multicultural com múltiplas identidades”, numa palavra, um retrato do Brasil.

Num registo marcadamente informal, de conversa e diálogo, Bernardo Carvalho, com recurso a várias referências literárias, procurou apresentar, através de um processo de desmontagem, a “marca” distintiva dos seus livros,  concluindo com a mensagem de que a literatura “não tem barreiras nem convenções a que obedecer (…) deve ser livre como o desejo e o impulso”, sempre presentes nos personagens que dão vida às suas obras.

 

 

 

 

Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
Usamos cookies no nosso site para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização.