Sessão de apresentação do épico Kalevala em Língua Portuguesa

A primeira tradução portuguesa feita diretamente do original da obra Kalevala, o poema épico da Finlândia escrito no século XIX por Elias Lönnrot, será apresentada a 22 de abril de 2013 em Lisboa, pelas 18:00, na sede do Camões, IP (Palacete Seixas, Av. da Liberdade, 270), numa cerimónia que contará com a presença de uma das tradutoras, Ana Isabel Soares.

Folclorista, filólogo e médico, Lönnrot (1802-1884) escreveu o livro que viria ser considerado o texto épico da nacionalidade finlandesa na sequência de uma criteriosa recolha de cantigas da tradição oral que fez na região da Carélia, zona atualmente dividida entre a Finlândia e a Rússia.

O seu desejo era construir e dar a conhecer uma epopeia nacional tão grandiosa quanto eram a Odisseia, o ciclo germânico dos Nibelungos ou Os Lusíadas. Pretendia, no fundo, servir a ideia de uma nação finlandesa, que continuava a ser um território gerido alternadamente por governos suecos e russos. O texto teve três versões e a última, de 1849, veio a ser considerada definitiva.

Constituído por 50 cantos, o épico Kalevala é ainda hoje utilizado em todo o mundo como documento de base ao estudo da literatura e da cultura da Finlândia. Do património tradicional recolhido por Lönnrot constam fábulas, baladas, poemas líricos e épicos, esconjuros, cosmogonias, rituais, invocações pagãs e cantos fúnebres.

No século XIX, e na região da Carélia, a poesia era essencialmente cantada, sobretudo por mulheres idosas e por bardos, e assim passava de geração em geração. Foi a partir desse imenso património imaterial que Lönnrot conferiu existência escrita a personagens fabulosas: heróis valorosos, cantores exímios, poetas que emocionam até as pedras, damas cobiçadas e audazes guerreiros.

A edição agora apresentada, com a chancela da editora D. Quixote, é enriquecida com ilustrações, muitas a cores, do pintor Rogério Ribeiro (1930-2008). Consiste num volume de 600 páginas que reflete um complexo e exigente trabalho de minúcia linguística, atestado por mais de 300 notas explicativas.

Além das dificuldades gramaticais e lexicais decorrentes do funcionamento de dois idiomas com origens muito distintas, o finlandês e o português, a tradução de Kalevala requereu consultas especializadas de botânicos, zoólogos, geólogos e etnógrafos, na busca do vocabulário apropriado para referir elementos da fauna e da flora próprias de terras finlandesas, que fosse facilmente identificável por um leitor de língua portuguesa.

Falante nativa de finlandês, Merja de Mattos-Parreira é doutorada em Linguística Inglesa e professora na Universidade do Algarve. Nas suas palavras, o maior desafio na tradução do poema épico foi a própria língua, porque, conforme explicou ao suplemento “Ípsilon” do jornal Público (de 22 de fevereiro de 2013) “um nativo contemporâneo, urbano e de Helsínquia, não percebe a língua do Kalevala sem recorrer a um glossário”.

Doutorada e pós-doutorada em Teoria da Literatura, também professora na Universidade do Algarve, Ana Isabel Soares destaca (na mesma publicação) na tradução daquele clássico a exigência na transposição da “riqueza formal e melódica” da língua finlandesa pois, afirma, o português tem um vocabulário de onomatopeias consideravelmente mais escasso.

O poeta Herberto Helder vertera já para português, a partir de uma edição francesa, cerca de 30 versos deste épico, parte de uma invocação para fazer estancar o sangue das feridas (publicada em Magias – Poemas mudados para português, cuja primeira edição é de 1987). Em 2009 foi publicada no Brasil a tradução do Canto I, diretamente feita da língua finlandesa por Álvaro Faleiros e José Bizerril. (Houve, entretanto, a tradução integral do poema para português, lançada pela editora portuguesa Saída de Emergência, mas a partir de uma das muitas versões em inglês.)

Mais de 150 anos depois da edição original, Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares são responsáveis pela primeira tradução direta e integral do épico Kalevala em língua portuguesa. Do ponto de vista textual, o seu objetivo foi fazer justiça ao ritmo, à prosódia e à riqueza lexical que universalmente caracterizam a obra-prima de Elias Lönnrot.

A presente edição é dada à estampa com o apoio da Kalevala Society e do Finnish Literature Exchange (FILI), e ainda com o patrocínio da Fundação Juminkeko, cujo trabalho se centra no conhecimento, interpretação e divulgação do Kalevala. A obra tem um preço de capa de 30 euros.

 

 

Camões, I.P.
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