Na Meca da poesia

Festival de Poesia de Berlim tem este ano a Lusofonia como tema

A poesia vai falar Português neste mês de Julho na capital alemã, onde de 5 a 13 de Julho vai ter lugar o Festival de Poesia de Berlim, um evento que tenta ultrapassar as barreiras tradicionais da arte poética e que tem nesta sua 8ª edição anual como tema principal, mas não exclusivo, a Lusofonia.

Número 127   ·   2 de Julho de 2008   ·   Suplemento do JL n.º 985, ano XXVIII

Festival de Berlim  
   

Poetas em Concerto, Mar de África e Retratos de Lisboa serão os três eventos que marcarão o carácter lusófono do evento, que no entanto engloba múltiplos outros momentos ligados à poesia de todo o mundo.

A organização do festival cabe à Literatur Werkstatt Berlin, fundada em 1991, uma das primeiras instituições culturais conjuntas criadas na capital alemã depois da reunificação da Alemanha com a Queda do Muro de Berlim. A realização do festival é financiada pelo Ministério da Cultura alemão, contando com o apoio de diversas entidades, entre as quais, este ano, o Instituto Camões.

De todos os países que têm o Português como língua oficial, com excepção de Timor-Leste, virão poetas, músicos, tradutores e críticos literários para participarem naquilo que pretende ser «um fórum para poetas do mundo inteiro», abarcando uma «diversidade de formas poéticas e mediáticas», que vão da «pura arte da palavra» às combinações «entre idioma, musicalidade, performance, som, poesia, poesia visual, etc.»

Ao optar por evoluir para formas alternativas de apresentação da poesia, com ligações a outros meios e artes, as edições anteriores do festival alargaram o seu público e atraíram entre 8.000 e 14.000 pessoas, tornando-o naquilo que os seus organizadores designam como «a Meca da poesia».

Cerca de 80 artistas de 52 países já se apresentaram em edições anteriores deste evento, entre os quais o Nobel da Literatura de 1992 Derek Walcott (Santa Lúcia), o criador do movimento Beat Lawrence Ferlinghetti (EUA), a intérprete norte-americana Laurie Anderson, o vencedor do Prémio Büchner Volker Braun, Oskar Pastior, o prémio Pulitzer Paul Muldoon (Irlanda).

De Portugal o poeta e político Manuel Alegre estará presente na cerimónia de abertura no festival de 2008, a 5 de Julho, juntamente com poetas de outros nove países, entre os quais o músico e poeta brasileiro Arnaldo Antunes (parceiro de Marisa Monte nos Tribalistas), que tocará no espectáculo Poetas em Concerto, a 8 de Julho, em que participará igualmente o músico brasileiro Chico César. Arnaldo Antunes estará ainda nesse mesmo dia na conferência O rebelde das artes, integrada na série Conversas de Poesia.

A mesma série terá a 10 de Julho uma conferência sobre A posição da poesia no mundo de Língua Portuguesa, em que participam a escritora portuguesa Ana Luísa Amaral, o poeta e vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, o moçambicano Armando Artur, o escritor brasileiro Paulo Henriques Britto e Maria Carlos Loureiro, da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, tendo como moderador Kurt Scharf tradutor literário de Berlim.

  Arnaldo Antunes
 
Arnaldo Antunes
   
  Manuel Alegre
 
Manuel Alegre
   

Uma sessão especial, intitulada Mar de África, será dedicada a 6 de Julho à poesia em Língua Portuguesa de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Nela participarão Armando Artur (Moçambique), Olinda Beja, poetisa de São Tomé e Príncipe, com os tambores de Ndu, Kalaf, poeta e músico angolano, Mário Lúcio, poeta e músico de Cabo Verde, acompanhado por Stephane Perruchet na percussão e Edson Dany na viola, João Maimona, poeta de Angola, e Tony Tcheka poeta da Guiné-Bissau.

Os Retratos de Lisboa, a 7 de Julho, reunirão na Akademie der Künste, em Berlim, os poetas Teresa Balté, Ana Paula Tavares e Paulo Teixeira com o rapper Pacman, a fadista Aldina Duarte com filmes de Jorge Colombo. «Hoje em dia, Lisboa é uma cidade na qual artistas e escritores de vários países vivem. É um receptáculo para diferentes influências culturais, um lugar em que as artes e as tradições artísticas se misturam e desenvolvem», justificam os organizadores do festival.

A 9 de Julho, será a vez do músico português Miguel Azguime participar no e.poesie. A proposta, dirigida a cinco compositores de música electrónica e a cinco poetas de língua alemã, agrupados dois a dois, é «seguirem as linhas melódicas da poesia, fundi-las com elementos sonoros de música electrónica e criar espaços a partir do ritmo, movimento e tom». O autor de O Itinerário do Sal trabalhará com o poeta Christian Uetz, conhecido pelas suas performances «sempre surpreendentes, cheias de intensidade, nos festivais mundiais de poesia sonora e de palavras faladas», segundo o sítio experimentaclub.com.

Um dos principais objectivos do festival é «tornar os poetas e os seus poemas acessíveis a outros idiomas, transcendendo a barreira da língua», razão pela qual foi incluído na sua programação o projecto VERSschmuggel, ou seja, uma Oficina de Tradução.

Na edição deste ano, em duas sessões, a 10 e a 11 de Julho, cinco poetas de Língua Portuguesa encontrar-se-ão em cada uma das sessões com cinco poetas de Língua Alemã, todos eles alemães à excepção de um, para «traduzir os seus poemas mutuamente com a ajuda de tradutores».

Segundo o programa do festival, as duplas serão formadas no primeiro dia do festival por Ana Luísa Amaral (Portugal) e Monika Rinck, Pedro Sena-Lino (Portugal) e Daniel Falb, Luís Carlos Patraquim (Moçambique) e Richard Pietraß, Ricardo Domeneck (Brasil) e Sabine Scho, e Paulo Henriques Britto (Brasil) e Hans Raimund (Áustria).

No segundo dia será a vez de Paulo Teixeira (Portugal) emparceirar com Norbert Hummelt, Angélica Freitas (Brasil) com Arne Rautenberg, Tony Tcheka (Guiné-Bissau) com Ulrike Draesner, Ana Paula Tavares (Angola) com Barbara Köhler e

Marco Lucchesi (Brasil) com Nicolai Kobus.

O resultado deste trabalho será depois apresentado no festival como também numa antologia bilingue, a editar no final de 2008, contando com a parceria de três editoras: duas alemãs e uma portuguesa.

O conteúdo da Oficina de Tradução deverá também ser posto em linha na Lyrikline.org, uma original plataforma electrónica criada pela Literatur Werkstatt Berlin e alojada na internet, «onde se pode escutar poemas e lê-los tanto na língua original como em diversas traduções», segundo o próprio sítio.

A Lyrikline.org vai receber na sua rede os primeiros parceiros de África, nomeadamente, Artsinitates (Zimbabwe) e o Kwani Trust (Quénia), durante a performance do Mar de África.

Cerca de 480 poetas, 4800 poemas e 49 línguas estão disponíveis, assim como milhares de traduções em 44 línguas, incluindo o Português. Cerca de 3 milhões de utilizadores de 80 países visitaram a Lyrikline.org, de acordo com os números respeitantes a 2007.

Camões, I.P.
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