Um clássico «multidisciplinar»

SA Marionetas no International Festival of Glass

É um cruzamento do classicismo com vanguardismo. Classicismo porque se trata da peça de William Shakespeare Tempestade. Vanguardismo porque se trata de um «projecto multidisciplinar» num domínio criativo que mais facilmente está associado à tradição, o teatro de marionetas.

Número 128   ·   30 de Julho de 2008   ·   Suplemento do JL n.º 987, ano XXVIII

SA Marionetas
SA Marionetas, Marionetas da Feira e Puppetink. Foto Marcus Fernando
É este o projecto que a companhia SA Marionetas, de Alcobaça, está a desenvolver numa parceira com a sua homóloga inglesa Puppetlink, de Birmingham, para apresentar a 20 de Agosto em Stourbridge, no Reino Unido, no Festival Internacional da Biennale of Glass, dedicado à arte contemporânea em vidro ou cristal, numa deslocação apoiada pelo Instituto Camões.

Os directores das duas companhias, José Gil e Clive Chandler, já se conheciam de outras andanças nos circuitos internacionais do teatro de marionetas e entre ambos houve uma «empatia engraçada», na expressão do director português. A companhia inglesa, que pratica o teatro de marionetas tradicional inglês, denominado Punch and Judy, já veio várias vezes a Portugal, onde a SA Marionetas realiza regularmente um festival de marionetas em Alcobaça.

Há cerca de dois anos os dois directores concluíram ser possível articular duas ideias originais suas: os bonecos feitos em vidro e cristal, um material «invulgar» para marionetas, e o teatro de sombras, em que os bonecos são projectados num ecrã de 7 metros por cinco, sem recurso a qualquer tipo de gravação.

Daqui nasceu um projecto que José Gil classifica como «multidisciplinar», porque não é só dramatúrgico. Envolve também designers, artesãos, músicos e bailarinos de dança contemporânea. Os primeiros, através do Hugo Amado, designer principal da Atlantis, são responsáveis pela criação dos bonecos de vidro, os segundos, com uma equipa da Marinha Grande dirigida por Nelson Dinis, pela sua feitura com recurso à técnica do vidro. E um programa informático especial tira do vidro e do cristal os sons que constroem a música.

A escolha de um texto de Shakespeare para o espectáculo deveu-se, explica José Gil, ao facto de o dramaturgo inglês ser um autor universal e a sua peça Tempestade abordar o tema do mar, se passar numa ilha e de nela se falar em descobrir, temas caros aos portugueses.

Depois de estreado em Stourbridge, o espectáculo «vai correr mundo», promete José Gil.

A SA Marionetas é uma companhia de teatro de marionetas, com sede em Alcobaça, que pratica a forma tradicional portuguesa do D. Roberto. A companhia profissionalizou-se em 1997, depois de ter aparecido quatro anos antes. No entanto, a sua origem está nos «Pequenos Comediantes de Trapos e Farrapos», surgidos em 1979.

Apesar de não ter quaisquer apoios estatais regulares, a SA Marionetas desenvolve uma intensa actividade. Em 2008, além do espectáculo Tempestade, a companhia tem previstas as estreias dos espectáculos História da Princesa Lia, uma co-produção com as Marionetas da Feira, e A Ver Navios, sobre o rei D. João VI e a rainha Carlota Joaquina, com que pretendem ir a Moçambique e ao Brasil, no âmbito das comemorações dos 200 anos da ida da corte portuguesa para o Brasil. Prevêem também a apresentação de um quarto espectáculo em meados de Outubro no âmbito de um projecto com uma quinta pedagógica existente perto de Alcobaça.

 

Camões, I.P.
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