A influência portuguesa

A língua, a toponímia, os nomes das pessoas e mesmo o património mostram a influência portuguesa no Senegal.

Razões históricas explicam que a língua veicular no Senegal, o wolof, da etnia com o mesmo nome, registe vocábulos de origem portuguesa (sobretudo do domínio da vida material), explica o leitor de Língua Portuguesa da Universidade Cheikh Anta Diop (UCAD), José Horta, que lembra que «os primeiros contactos de Portugal com a região onde hoje se situa o Senegal remontam ao final da primeira metade do século XV».

Número 128   ·   30 de Julho de 2008   ·   Suplemento do JL n.º 987, ano XXVIII

Senegal
Goreia, Dacar. Foto de Robin Taylor

Entre os vocábulos do wolof de origem portuguesa, o «mais curioso», no dizer de José Horta, é Tugël < Europa, «palavra formada por redução de Portugal que, por metonímia, passa a designar o continente europeu». O leitor adianta outros vocábulos de origem portuguesa usados na língua veicular do Senegal como coppu < copo, kaccoor < cachorro (em sentido figurado serve também para denominar alguém que faz disparates ou travessuras), paca < faca e sobla (ou sóblé) < cebola.

«Este fenómeno é de tal forma generalizado que não é difícil encontrar, noutras línguas da costa africana, vocábulos semelhantes designando a mesma realidade», acrescenta José Horta, que explica o fenómeno pelo facto de a expansão da Língua Portuguesa ter acompanhado a expansão marítima, embora admita que alguns desses vocábulos poderão ter entrado nas línguas da costa africana através das línguas crioulas de base lexical portuguesa.

Também na toponímia, um número significativo de nomes de localidades ou de pontos geográficos do Senegal denunciam a sua origem portuguesa, refere José Horta: Almadies ou, de forma mais completa, Pointe des Almadies (de almadia, tipo de pequena embarcação), a poucos quilómetros de Dacar; Kabrousse ou Cap Roxo (de Cabo Roxo), em Casamansa; Palmarin (de palmeirinha), na zona costeira, a sul de Dacar.

«Muitos destes locais foram habitados, até ao século XIX, por uma população designada de ‘luso-africana\', por serem os seus membros descendentes dos chamados ‘lançados\' ou ‘tangomaus\', os primeiros portugueses a instalar-se na costa africana».

José Horta chama ainda a atenção para o facto de residir no Senegal «uma significativa comunidade cabo-verdiana e guineense, que se tem miscigenado com a população autóctone» e que faz perdurar no país alguns dos traços da Cultura Portuguesa, nomeadamente nos nomes. É «fácil registar apelidos senegaleses (muitas vezes graficamente adaptados à pronúncia francesa), que denunciam a sua origem - Barbosa, Barreto, Corréa, Costa, Diminga, Gomis, Mendy, Preira, Sylva, Tavares, etc. -, como se pode constatar nas inscrições das campas da zona destinada aos cristãos no cemitério ‘misto' de Ziguinchor, assim conhecido por nele estarem sepultados muçulmanos e cristãos».

Para além destes vestígios, persistem no Senegal no património construído algumas marcas da presença portuguesa.

 

Camões, I.P.
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