João de Melo: «Actual modelo está no limite»

A Mostra em Espanha é o maior evento anual da cultura portuguesa no exterior. Pôs fim à ideia de que os dois países viviam de «costas voltadas». Nesta entrevista o escritor João de Melo, seu artífice, aborda a edição de 2008 e fala do futuro.

Número 131   ·   22 de Outubro de 2008   ·   Suplemento do JL n.º 993, ano XXVII

O que é que caracteriza e diferencia a VI Mostra Portuguesa?

A edição de 2008 traz ainda mais actos, mais temas e um maior número de intervenientes do que a de 2007. Tem sido sempre assim, aliás. Em 2003, quando a criámos, era apenas uma ‘semana portuguesa\' de quatro dias, com três pequenos concertos, uma jornada de literatura e um ciclo de 4 filmes. Passou, primeiro, a quinzena, depois a três semanas, e este ano terá uma amplitude temporal superior a um mês e meio (incluindo as itinerâncias). Trata-se de uma edição comparável à do ano passado, ainda que reforçada sobretudo nas Artes Plásticas (8 exposições, entre as quais a grande retrospectiva de Helena Almeida na Fundação Telefónica, que esperamos tenha um número de visitantes equiparável à de Paula Rego no Museu Rainha Sofia) e no Cinema [...].

Considero que o actual modelo está no limite das nossas possibilidades. A Mostra é o maior evento anual da cultura portuguesa no exterior. Superou acontecimentos de que hoje ainda se fala, mas cujos resultados se esgotaram ou não se repetiram: as ‘Belles Étrangères\', a Europália e mesmo a Feira do Livro de Frankfurt dedicada a Portugal. No ano passado, estiveram connosco cerca de 70.000 espanhóis. Este ano não esperamos menos.

Como é encarada em Espanha a Mostra Portuguesa? Num país que tem uma intensíssima actividade cultural, não há o risco de a Mostra poder passar algo despercebida?

César António Molina, ministro da Cultura de Espanha, disse na última cimeira luso-espanhola de Governos que o balanço cultural entre os dois países pendia claramente a favor de Portugal neste momento, graças não só à Mostra como ao conjunto de toda a acção cultural. E que, por isso, urgia repor o equilíbrio e organizar também uma ‘Mostra Espanhola\' em Lisboa e outras cidades. É possível que haja exagero político na sua reivindicação. Mas a ‘Mostra\' conjuga-se com outros acontecimentos onde temos todo o tipo de participações: a ARCO, os encontros ‘Ágora\' na Estremadura, a acção integrada dos Centros de Língua Portuguesa, da Casa de Ariges, das Universidades, de alguns dos nossos Consulados, a ‘PhotoEspaña\', onde este ano fomos o país convidado, etc., etc, etc. A Embaixada é um colectivo que se harmoniza em torno de um projecto, não vale a pena individualizar.

Temos público, temos uma boa imprensa permanente - e protagonistas de peso no cenário artístico e no mapa de Espanha: passam cada vez mais cantores de fado e de música Pop; há sempre artistas plásticos nas melhores galerias de Madrid. Mas existe muito mais literatura espanhola traduzida em Portugal do que portuguesa aqui. Esse é um reduto onde ainda não conseguimos levar a nossa carta a Garcia, apesar do trabalho investido. Em cultura, tudo está feito, tudo está sempre por fazer.

Como surgiu um envolvimento tão significativo das autoridades espanholas na Mostra Portuguesa?

As autoridades espanholas perceberam depressa que conhecer a nossa cultura é ter de Portugal uma imagem mais justa e mais identificada. Daí o acolhimento imediato das nossas propostas: o município de Madrid (além de dinheiro, deixa-nos afixar cartazes, bandeirolas e mupis nas ruas, cede-nos o Auditório Conde Duque), os ministérios da Cultura e dos Assuntos Exteriores, a Presidência do Governo, as Regiões Autónomas, as empresas. É de justiça reconhecer o envolvimento da Embaixada, do Instituto Camões (que nos tem apoiado sem reservas), do Ministério da Cultura, da TAP e de outras entidades portuguesas em toda esta dinâmica, que permitiu acabar de vez com o mito de dois países de «costas voltadas» ou «de espaldas». Devo muito aos meus amigos de Madrid, sobretudo a Concha Hernández e a Luis Martín, da Presidência do Governo, que comigo criaram a Mostra em 2003 e que têm sido «mi mano derecha», edição a edição. Mas senti sempre, nos políticos espanhóis, uma sensibilidade especial para as coisas portuguesas. A cultura é uma imagem que pode induzir atitudes e procedimentos que não estavam inscritos no imaginário de uma relação ibérica que era ou pouco assídua ou atribulada. Importa deixar obra feita num país, a Espanha, que é a nossa primeira prioridade europeia em todas as frentes, sem excluir a estratégia cultural.

[...]

No próximo ano, como será?

Estou já em campo para trazer a Madrid a exposição A Consistência dos Sonhos sobre José Saramago, que fará aqui grande êxito. Penso realizar uma mostra de esculturas de Canto da Maya e levá-la a outras cidades de Espanha. E vamos ter uma grande Antologia da Poesia Portuguesa, mais abrangente do que a de Ángel Crespo (ficando assim completo o ciclo, depois de publicada a minha Antologia del Cuento Portugués e uma outra de jovens contistas, Alta Velocidad). Por outro lado, se este ano temos poetas entre nós, em diálogo com os seus confrades espanhóis de Madrid e Barcelona, é normal que queira trazer em 2009 os novos narradores. E recebi já uma proposta para que Portugal seja o país convidado da Feira do Livro de Valladolid. Continuaremos em força com a PhotoEspaña, também. Há em tudo isto (tem de haver) uma dose elevada de «quixotismo» diplomático. Importa fazer as coisas com persistência, com devoção. Por amor a Portugal e a Espanha. E trabalhar, imaginar, mover ideias, fazer novos amigos. É para isso que aqui estou.

 

Camões, I.P.
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