Um evento cultural global

VI Mostra Portuguesa em Espanha

A VI Mostra Portuguesa em Espanha, que de facto já se iniciou em Setembro com a exposição em Madrid do artista plástico Carlos Bunga, mas que com mais intensidade decorre de finais de Outubro a meados de Dezembro, é pela sua natureza um «evento cultural global», não na geografia, mas nas suas disciplinas.

Número 131   ·   22 de Outubro de 2008   ·   Suplemento do JL n.º 993, ano XXVIII

VI Mostra Portuguesa em Espanha«Das artes plásticas à música, do cinema à literatura, do debate poético ao pensamento político, do humanismo universitário à gastronomia», tal é o âmbito deste «festival de artes, letras e ideias», na descrição do escritor João de Melo, conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, entidade que organiza desde 2003 a Mostra Portuguesa, desde 2004 juntamente com o Instituto Camões (IC).

«Um festival é o mais parecido que há a uma janela aberta ao mundo», diz a co-directora da Mostra, Concha Hernandez. Na verdade, o objectivo confesso da Mostra é, sustenta o embaixador José Moraes Cabral, «transmitir a imagem de um Portugal moderno, [...] que tem nos seus criadores e intelectuais o melhor exemplo permanente».

Sendo um evento da iniciativa de instâncias oficiais portuguesas, com um custo estimado este ano em 180 mil euros (70 mil dos quais investidos pelo IC, mais do dobro da verba de 2004), não seria contudo possível sem outros apoios, tanto da sociedade civil (empresas e fundações dos dois países) como do próprio Estado espanhol.

A Mostra Portuguesa entrou já de alguma forma na dinâmica agenda cultural espanhola - tornou-se «acontecimento ‘normal\' e habitual em Madrid e noutras cidades de Espanha», na expressão de Moraes Cabral, ou uma «referência», ao alargar-se para fora de Madrid, no dizer de Miguel Ángel Moratinos, ministro dos Assuntos Exteriores de Espanha.

O que leva muitos a dizer, como o ministro da Cultura, César Antonio Molina, «que nesta altura podemos dar por superado o lugar comum que diz que Portugal e Espanha são dois países vizinhos que vivem de costas voltadas».

As escolhas que a Mostra oferece são diversificadas, mas «imperdível» poderá ser a expressão a aplicar à retrospectiva da obra da artista plástica Helena Almeida na Fundação Telefónica de Madrid.

Se a fotografia e as artes plásticas dominam a Mostra (v. texto na pág. seguinte), a arquitectura (exposição 21 Projectos do século XXI), o desenho, através da participação de 20 desenhadores portugueses das novas gerações na Bienal Ibero-Americana de Desenho, o cinema, com uma retrospectiva de homenagem a Manoel de Oliveira e um ciclo de longas e curtas-metragens portugueses recentes, a gastronomia, na semana organizada pelo chefe Luís Baena no Hotel Intercontinental Castellana, de Madrid, e a música alargam o leque de opções.

Fruição e reflexão

A música, em particular, apresenta um conjunto de propostas variadas, a começar pela indefinível Luso-Phonia 2008, que entre Setembro e Dezembro cruza na Catalunha concerto musical puro com uma apresentação de música de improviso no âmbito do Festival LEM de Música Experimental e uma exposição no Centro de Arte de Hangar.

No campo da música, no entanto, Mísia, «que tem repartido o seu ofício entre Juliette Gréco e Amália Rodrigues», na classificação de Luis Martín (director artístico da Mostra), David Fonseca, de sonoridades (Brian) ferryanas, Maria João & Mário Laginha e Júlio Pereira, para além de António Rosado, um dos pianistas clássicos portugueses mais destacados, são propostas mais tradicionais, mas eventualmente mais aliciantes para alguns.

Se a Mostra é sobretudo dirigida ao prazer que a fruição da arte proporciona, ela compreende também uma parte significativa de reflexão cultural. Este ano essa reflexão contempla quatro actividades - os encontros luso-espanhol e luso-catalão de Literatura, este último tendo como tema os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, o debate sobre música de intervenção, a propósito dos 20 anos da morte de Zeca Afonso, e as habituais Jornadas hispano-portuguesas, a 10/11 de Novembro, dedicadas nesta sua Xª edição a discutir «visões sobre a Literatura Portuguesa e Espanhola e outras perspectivas», com a participação de especialistas universitários portugueses e espanhóis.

No encontro luso-espanhol de literatura, participarão, a 5 de Novembro, na Biblioteca Nacional de Madrid os poetas portugueses Maria Andresen, Gastão Cruz e Luís Quintais, que terão como seus pares do lado espanhol Fernando Beltrán, Cecília Quílez e e Ignacio Elguero, com moderação de Filipa Paula Soares, responsável pelo Centro de Língua Portuguesa/IC na Universidade Autónoma de Madrid. A mesma ‘equipa\' portuguesa rumará depois ao Ateneo de Barcelona, onde no dia seguinte debaterão Pessoa com Marta Pessarrodona, David Castillo e Francesc Parcerisas, com moderação de Sergi Jover.

 

Camões, I.P.
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