Banquete em Valência

O Banquete - uma performance-ambiente, na descrição de Patrícia Portela - está concebido tendo como referência os repastos que antecediam os grandes debates dos filósofos gregos. E o debate neste espectáculo - que é também um jantar e envolve performers, videastas, um designer de som, cientistas entrevistados e uma chefe de cozinha - é sobre o fim da Humanidade tal como a conhecemos e advento da primeira geração de clones.

Número 135   ·   11 de Fevereiro de 2009   ·   Suplemento do JL n.º 1001, ano XXVIII

O Banquete
O Banquete. Foto de Giannina Urmeneta
«Este evento é simultaneamente um jantar, um espectáculo muito subtil, um ambiente inesperado, um concerto estranho, e sobretudo, e um debate aceso mas silencioso e penetrante sobre clonagem, imortalidade e memória», diz a sinopse que Patrícia Portela leva ao Festival Valencia Escena Oberta a 17 de Fevereiro.

 

- O espectáculo já foi apresentado várias vezes, pelo que, certamente, será possível dizer qual tem sido o padrão de reacção do público... Ou cada público sua reacção?

O Banquete- Este é um espectáculo que depende muito do público, até porque é um espectáculo que ‘não se vê\', é um espectáculo que se ouve, que se come, que se sente, é uma atmosfera, um ambiente e por isso a soma de todos os espectadores é que faz o resultado final do espectáculo. Temos tido espectáculos absolutamente mágicos onde todos estamos em sintonia, onde há um silêncio quase assustador e uma cumplicidade entre todos os presentes, temos outros espectáculos que são hilariantes, onde o público, muito bem disposto, acompanha o espectáculo não deixando de ter uma palavra a dizer (há espaço para sociabilizar durante o espectáculo!), trocam-se telefones, fazem-se comentários, alguém inicia um brinde que se ouve tilintar em dominó por 10 mesas...

Penso que no geral este é um espectáculo que impressiona (no verdadeiro sentido da palavra), e poucos ficarão indiferentes, mas este é também um espectáculo exigente em relação ao espectador e é perfeitamente possível (e já aconteceu!) um espectador ou outro ter uma reacção de total "alergia" ao espectáculo ao ponto de recusar tudo o que lhe é apresentado.

Pessoalmente, este é um espectáculo que me é muito querido pelo seu tamanho, pela desmesurada loucura que foi construí-lo, pela equipa absolutamente de luxo com quem pude trabalhar e sobretudo, pelo texto e pelo ambiente sonoro, uma das criações mais intensas e pessoais que tive o prazer de fazer nos últimos tempos.

 

- Que equipa vai levar a Valência? Têm sido sempre os mesmos performers a apresentar-se ao público ou de cada vez há um novo elenco?

O Banquete- O elenco é fixo mas temos dois actores extra que rodam sempre que há indisponibilidade de algum dos elementos. Curiosamente, e sendo este um espectáculo sobre clonagem e imortalidade, a primeira performer a ser substituída foi a Yukiko Shinozaki, quando apresentámos em Lisboa, pois estava à espera de uma bebé que nasceu durante a nossa tournée portuguesa e desta vez sou eu mesma que vou ser substituída pois estarei provavelmente a correr para uma sala de parto quando servirem os primeiros pratos em Valência. Nos espectáculos que produzo dificilmente se substituem actores, pois o trabalho é muito pessoal e "à medida", o que acontece no banquete é que cada vez que há uma combinação diferente de actores, o espectáculo sofre alterações, mantendo-se assim pessoal mesmo quando se substituem alguns elementos.

 

- Qual a importância para si de ir a um festival como o de Valência?

- Há sempre duas vidas para cada espectáculo: uma corresponde ao seu período de criação, construção e estreia, e a outra é a sua itinerância. O Banquete será o nosso primeiro espectáculo em piso espanhol [...]. Para tal fizemos uma nova versão em espanhol, acompanhada de um libreto que distribuímos aos espectadores. Dada a especificidade deste espectáculo e o facto de se adaptar sempre a espaços diferentes, cada novo espaço é uma nova estreia, e apresentar o espectáculo para um maior número de público e num maior número de espaços/países/cidades possíveis é sempre o sonho de qualquer criador.

No caso específico de Valência, estamos muito contentes por estarmos inseridos num dos maiores festivais da região, apresentando 5 espectáculos num espaço lindíssimo com um pequeno extra, que fará destas apresentações uma ocasião especial: no espaço onde se encontram as mesas, encontram-se também 2 árvores, tal como as duas árvores do paraíso que constam na história do nosso banquete, a da sabedoria e a da imortalidade.

 

Camões, I.P.
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