Curiosidade

Número 138   ·   6 de Maio de 2009   ·   Suplemento do JL n.º 1007, ano XXIX

Língua Portuguesa em Israel

 

O objectivo é vir, a prazo, que se quer curto, criar as condições para a criação de um programa de licenciatura em Estudos Portugueses, que não existe em nenhuma instituição superior israelita. Mas, para já, o papel do leitorado do Instituto Camões (IC) na Universidade Hebraica de Jerusalém, o mesmo é dizer, da leitora Marta Gamito, é assegurar os diversos cursos de Estudos Portugueses que aí existem.

 

Alunos
Alunos de Português na U. Hebraica de Jerusalém
A relação histórica de Portugal com o povo judaico foi, para dizer o mínimo, complexa. Existiu a inquisição, que erradicou quase completamente uma comunidade fortemente implantada, obrigando os que resistiram à clandestinidade, mas também houve mais recentemente Aristides Sousa Mendes, «justo entre as nações» pelo seu papel, em Bordéus, no salvamento de milhares de judeus da deportação nazi para os campos de concentração.

 

«A acção de Aristides de Sousa Mendes está bastante presente na memória judaica», afirma a leitora, que lembra a exposição organizada em 2008 em sua memória no Knesset (parlamento israelita) e mais tarde na Universidade Hebraica de Jerusalém.

 

Mas em que medida a História marca a forma como os dois países se encaram é algo difícil de avaliar. Marta Gamito admite que marcam, mas parece-lhe, «naquilo que é uma visão pessoal, que a influência das relações passadas nas relações presentes se revela sobretudo numa curiosidade cultural, de parte a parte, em descobrir e informar-se mais sobre a história dos judeus em Portugal. De ambos os lados.»

 

Ou seja, não parece haver grandes heranças emocionais, o que talvez explique o perfil daqueles que em Israel estudam português. «A língua e cultura portuguesas em Israel atraem essencialmente três grupos de estudantes: jovens que viajaram pela América do Sul, e nomeadamente pelo Brasil; filhos de imigrantes de origem brasileira e portuguesa; público em geral interessado em línguas românicas ou com um gosto particular pela língua portuguesa», sintetiza Marta Gamito.

 

IsraelAcresce que não existem em Israel «saídas profissionais específicas» que requeiram o conhecimento de português, embora no campo da programação informática, haja ofertas de trabalho cujo requisito é o conhecimento profundo da língua portuguesa», explica a leitora do IC.

 

Normalmente, acrescenta, «os estudantes de Português estudam em simultâneo outras línguas românicas, como o espanhol, o italiano ou o francês. Este conhecimento pode sem dúvida influenciar no mercado de trabalho». Isto é, o conhecimento de português pode representar uma vantagem competitiva num contexto em que também outras competências são exigidas.

 

Tudo isto, garante, «não significa que não haja académicos especializados em Estudos Portugueses, nomeadamente em História de Portugal», em Israel.

 

Na Secção de Estudos Ibéricos do Departamento de Estudos Românicos e Latino-Americanos da Universidade Hebraica de Jerusalém, Marta Gamito ministra cursos de Língua Portuguesa, um para o nível inicial e um segundo para nível avançado. Lecciona ainda um curso de Introdução ao Mundo da Língua Portuguesa, dividido em dois semestres: no primeiro é focado o tema da unidade e diversidade da língua portuguesa, sua história e geografia, contemplando as variantes europeias, brasileira e africanas; no segundo semestre centra-se no mundo cultural lusófono, na análise das relações históricas, culturais e sociais entre países lusófonos que permitem hoje o próprio conceito de lusofonia e a criação da CPLP. No presente ano lectivo tem, ao todo, 28 alunos.

 

Para além da actividade lectiva da Universidade Hebraica, a leitora lecciona também, desde o presente ano lectivo de 2008/2009, um curso de Língua Portuguesa na Universidade de Bar-Ilan, situada na área metropolitana de Telavive, a segunda maior instituição de ensino superior de Israel, depois da Universidade Hebraica.

 

Em Israel, no ensino superior, para além daquelas duas instituições, apenas na Universidade de Telavive os estudantes têm a possibilidade de se inscrever em cursos de Língua Portuguesa – variante brasileira – ministrados por uma professora, vinculada ao Centro Cultural Israel-Brasil, instituição que também oferece, fora da rede docente, cursos de Português.

 

 IsraelOutra das actividades da responsável pelo leitorado na Universidade Hebraica consiste, segundo afirma, no desenvolvimento de acções e de «encontros culturais para promover a língua e a cultura portuguesas e lusófonas entre o público israelita (conferências, palestras, cinema, música, artes plásticas)», em coordenação com a Embaixada de Portugal no país.

Para breve, Marta Gamito pretende lançar na Universidade Hebraica as chamadas ‘Tardes em Português’, com o objectivo de criar um «espaço aberto de comunicação em português», no qual se mostrarão filmes, se ouvirá música e se comentarão as notícias. «Enfim um espaço de livre acesso para todos os interessados nas coisas lusófonas.»

Portugueses ‘convencidos’ e traduzidos 

Que imagem têm os israelitas dos portugueses? A acreditar na pergunta que fizeram à leitora do Instituto Camões (IC) na Universidade Hebraica de Jerusalém, Marta Gamito, a resposta é simples: ‘convencidos’! «Todos os portugueses são assim? Assim como? Convencidos! Porquê? Por causa do Cristiano Ronaldo e do José Mourinho».

 

Toda a gente em Israel conhece Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Mas muitos israelitas conhecem também Mariza e os Madredeus e, claro, Amália Rodrigues. E não apenas. «De facto, a literatura portuguesa tem um enorme sucesso junto do público leitor israelita – um povo que lê imenso. José Saramago, Fernando Pessoa, Lídia Jorge são autores com enorme sucesso em Israel», afirma Marta Gamito.

 

A percepção de Portugal como um país tecnológica e culturalmente desenvolvido chega às elites israelitas, de uma forma ou de outra, «quer através de elites profissionais, especializadas (por exemplo, o metropolitano em Telavive, cuja construção tem o envolvimento directo da empresa portuguesa Soares da Costa), quer através de elites culturais», considera a leitora do IC.

 Aliás, refere Marta Gamito, «tem havido um rápido crescimento» das trocas culturais entre Portugal e Israel. Todos os anos, a Embaixada de Portugal, com o apoio do IC, organiza a Semana de Cinema Português, evento que ocorre geralmente em Setembro, na Cinemateca de Telavive e que cobre as cinematecas de Haifa e de Jerusalém também. «Este evento tem observado um público crescente, enchendo as salas de cinema».

«De qualquer forma, sem dúvida que é na literatura que as trocas culturais se evidenciam. As traduções de autores portugueses para hebraico têm vindo a aumentar de ano para ano, a um ritmo excepcional», afirma Marta Gamito. 

 

Camões, I.P.
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