Investigação sobre «erros» de estudantes universitários

Número 138   ·   6 de Maio de 2009   ·   Suplemento do JL n.º 1007, ano XXIX

Língua portuguesa em Moçambique

Alguns resultados da investigação A Competência em Português dos Estudantes Universitários em Moçambique foram apresentados em Quelimane, na Universidade Pedagógica (UP), a 27 e 28 de Abril, com vista a partilhar, com aquela comunidade académica, a actividade de pesquisa1 que se desenvolve no Departamento de Línguas da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo.

 

A apresentação destes dados é fruto da análise efectuada, pela equipa do projecto, aos dados linguísticos recolhidos nas delegações da UP na Beira, Nampula e Quelimane, em 2005.

 

Estes dados foram analisados de acordo com uma grelha de categorias linguísticas, através da qual foi possível identificar as principais dificuldades desta população universitária no uso do Português.

 

Simplificando (e resumindo) os problemas detectados (para este artigo), pode-se dizer que estes envolvem as categorias:i) uso das preposições, mais particularmente a preposição a (ex. responder mal os mais velhos em vez de responder mal aos mais velhos); ii) artigo (ex. toda cidade em vez de toda a cidade);iii) concordância nominal (ex. transportes público em vez de transportes públicos); iv) concordância verbal (ex. acontece muitos problemas em vez de acontecem muitos problemas) e

v) ortografia e acentuação (ex. eradicação em vez de erradicação; inesperientes em vez de inexperientes; estavamos em vez de estávamos).

 

Para além dos erros gramaticais e de ortografia, detectaram-se ainda deficiências ao nível da estruturação do discurso e da selecção do vocabulário.

 

À apresentação destes resultados seguiu-se uma palestra sobre algumas estratégias que os professores de Português podem aplicar para que os estudantes conheçam e corrijam os seus erros. Explicitou-se a vantagem da utilização de grelhas de erros e como, em conjunto com actividades de revisão e edição e pequenas lições de gramática, construídas à medida dos problemas dos estudantes, se poderá contribuir para tornar os estudantes mais conscientes e mais atentos aos seus padrões de erro e, consequentemente, capazes de melhorarem os textos que produzem.

 

Recorde-se que em Moçambique, como noutros contextos multilingues, pós-coloniais, a língua portuguesa é, para a maior parte dos seus falantes, uma língua segunda (L2) e que durante a sua aquisição, emergem, como vimos, propriedades gramaticais diferentes do Português Europeu com tendência a fixar-se, constituindo áreas de fossilização dos erros.

 

No ensino universitário em geral, e de forma mais particular para os estudantes que frequentam as licenciaturas em Ensino do Português, esta situação é particularmente complexa na medida em que, como futuros professores serão também os responsáveis pelo ensino desta língua.

 

É em face desta realidade que, mesmo tratando-se de alunos adultos, se reconheceu a necessidade de traçar o perfil linguístico desta população, dando origem, em 2001, ao projecto de pesquisa A Competência em Português dos Estudantes Universitários em Moçambique.

 

Assim, para além de identificar as propriedades da língua portuguesa que se apresentam como mais problemáticas para os estudantes moçambicanos, algumas das quais já referidas neste artigo, o estudo visa também fornecer instrumentos para uma intervenção didáctica adequada, com o objectivo de melhorar o desempenho linguístico dos graduados nesta área.

 

Pretende-se ainda apoiar a revisão de programas, introduzindo conteúdos gramaticais relacionados com questões problemáticas identificadas nos dados recolhidos e apoiar a preparação de materiais didácticos, destinados a permitir que os estudantes universitários superem as dificuldades que ainda revelam no uso da língua portuguesa.

 Finalmente, é ainda importante destacar que os dados linguísticos recolhidos no âmbito desta investigação têm servido de base a teses de licenciatura e mestrado, elaboradas em universidades moçambicanas (UEM) e portuguesas (Universidade de Lisboa e Universidade Nova de Lisboa) e que os resultados deste estudo têm vindo a ser apresentados em eventos científicos nos dois países e publicados em revistas da especialidade2, estando em preparação a edição do livro – Português no Ensino Superior em Moçambique: Descrição Linguística e Aplicações Didácticas.  Conceição Siopa.(Formadora do Instituto Camões na Universidade Eduardo Mondlane em Maputo e membro da equipa de investigação)  1 Fazem parte da equipa de investigação Perpétua Gonçalves (coordenadora), Conceição Siopa (formadora do Instituto Camões) e Victor Mércia Justino. Este projecto foi financiado pelo Fundo Aberto SAREC (2003-04) e pelo “Programa Lusitânia” (Fundação para a Ciência e Tecnologia, Gabinete de Relações Internacionais e Instituto Camões (2004-07). A publicação dos resultados desta pesquisa está prevista para este ano (em preparação). 2 Gonçalves, P. (2007) Pesquisa linguística e ensino do Português: Potencialidades das taxonomias de erros. Linguística – Revista de Estudos Linguísticos da Universidade do Porto, 2 (1): 61-76.

Siopa, C. (2006) Ensino do Português na universidade em Moçambique: Trabalhos oficinais de gramática. In: F. Oliveira; J. Barbosa (Orgs.). XXI Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística – Textos Seleccionados. Lisboa: Associação Portuguesa de Linguística, 659-674.

 

Camões, I.P.
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