Distracções

Número 140   ·   1 de Julho de 2009   ·   Suplemento do JL n.º 1011, ano XXIX

 

Não faltam razões para aprender português em Goa – a existência de falantes, o sistema jurídico, sobretudo os seus cartórios e conservatórias com imensa documentação em português, o significativo património histórico de influência portuguesa que ajuda a atrair o turismo, o mercado de trabalho das multinacionais indianas… não falando das relações com uma comunidade de 240 milhões de pessoas que têm como língua oficial o português.

 

Todavia, lamenta Delfim Correia da Silva, leitor do Instituto Camões e responsável pelo Centro de Língua Portuguesa em Goa, «os goeses estão aparentemente pouco atentos à realidade que é a promoção e o crescimento do português em termos mundiais, sobretudo na América Latina, em África, nalgumas regiões na Europa».

 

Atitude que contrasta com a dos chineses, ou dos latino-americanos hispano-falantes, que estão a investir na aprendizagem do português, porque encaram o idioma como uma fonte de oportunidades, sobretudo no espaço lusófono, em África e no Brasil.

  

O que não quer dizer que a realidade lusófona e portuguesa seja completamente desconhecida, sobretudo entre os jovens a quem os novos e os velhos media – em Goa recebe-se facilmente a RTP Internacional – permitem ter uma outra visão e até mesmo acompanhar, por exemplo, os resultados das equipas desportivas, a música e os novos grupos, refere Correia da Silva. Outros goeses sabem o que se passa, ou porque viajam ou porque têm familiares no estrangeiro e muitos deles em Portugal.

 

A outros níveis, como na literatura, há, contudo, um grande desconhecimento, até porque «Goa está muito atrás de alguns estados indianos, nomeadamente de Kerala, onde é mais fácil encontrar boas publicações». Não há muitas livrarias, que aliás não têm à venda quaisquer livros em português ou sequer portugueses traduzidos para inglês.

  

O docente português regista, no entanto, a existência de algumas pessoas, «em número reduzido, que parece que pararam no tempo». «Guardam uma imagem de Portugal até 61», data da integração de Goa na Índia.

 

Em contraste, Delfim Correia da Silva conta o caso de dois alunos da licenciatura de Cultura e Literatura Portuguesas da Faculdade de Línguas e Literaturas da Universidade de Goa vindos de Nova Deli, o primeiro com o objectivo de vir a exercer a docência de Português no norte da Índia e o segundo atento às oportunidades oferecidas pelas multinacionais de Bombaim e Bangalore, que necessitam de dotar os seus funcionários do conhecimento da língua portuguesa.

Outra área em que a aprendizagem de português em Goa se revela pertinente é a área do direito, considera o leitor do IC.

 

«O sistema jurídico é ainda marcadamente português. Muitas leis foram herdadas do tempo da presença portuguesa em Goa. E portanto discute-se muito a questão de ter conhecimentos de português para poder melhor apreciar as normas jurídicas, no fundo o espírito da lei. Ou, então, apreciar os documentos, quando se pedem certidões», indica Correia da Silva. Aliás, «há um projecto de digitalização, não só de todo o material bibliográfico, que é imenso e de uma riqueza que convém preservar, mas também a digitalização dos documentos, certidões, etc.».

No plano académico, diz Delfim Correia Silva, «há a vontade» de promover o português. «A Universidade de Goa não cria qualquer tipo de problemas, bem pelo contrário».

Correia da Silva defende «acções de sensibilização ao mais alto nível para demonstrar que o português é uma aposta com viabilidade» e que na Índia, pela sua herança histórica e cultural, Goa deve assumir o protagonismo. «Caso contrário, surgirão outros locais, possivelmente em Kerala, em Bangalore, em Bombaim, em Nova Deli, em Calcutá, que vão assumir esse protagonismo. Mas não somos nós que podemos decidir. São os locais que podem decidir a sua orientação».

 

Camões, I.P.
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