Muito mais que o acaso

Língua Portuguesa na Roménia

Número 142 · 26 de Agosto de 2009 ·  Suplemento do JL n.º 1015, ano XXIX

«As motivações são as mais variadas que se podem imaginar», diz Patrícia Ferreira, leitora do Instituto Camões (IC) nos últimos três anos na Universidade Bucareste, Roménia, país onde, diz, o ensino da língua portuguesa «está muito bem de saúde!»

Universidade de Bucareste
Foto Viosan CC

«Tivemos nestes últimos anos um crescimento espantoso do número de alunos a nível universitário e espantoso é também o número de pessoas exteriores à universidade que procuram cursos livres de português», afirma esta licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, actualmente a terminar o Mestrado em Estudos Narrativos, Ficção Portuguesa Contemporânea. «Na edição de Verão deste ano do curso gratuito oferecido pelo Centro de Língua Portuguesa/Embaixada, em Junho, registaram-se quase 100 inscrições só em Bucareste, o que revela um interesse significativo pela nossa língua e cultura» refere Patrícia Ferreira.

As razões para que um número bastante apreciável de jovens romenos aprenda a língua e a cultura portuguesa oscilam desde motivações prosaicas até à percepção de que é possível «usar – no final da licenciatura – o português como língua de trabalho», diz a leitora, que acrescenta: «penso que esta motivação surge e vai ganhando corpo ao longo da licenciatura».

Até porque, segundo diz, «existe, de facto, na Roménia a possibilidade de encontrar empregos em que o português é língua de trabalho». «Refiro-me, por exemplo, aos diversos centros (call centers) de empresas como HP ou Oracle, que precisam de funcionários/técnicos para as funções de atendimento a clientes que ligam de Portugal e do Brasil, mas sobretudo refiro-me às numerosas empresas portuguesas existentes na Roménia (estima-se que são mais de 300) que recrutam secretárias, tradutoras/es e intérpretes». E existem, ainda, as escolas de línguas que procuram com frequência professores, para além dos gabinetes de tradução técnica e as editoras que procuram também frequentemente tradutores de literatura.

Outras razões serão menos ‘práticas’, mas não menos motivadoras, como seja «a vontade de aprender uma língua latina diferente das habituais (espanhol, italiano e francês)» ou o desejo dos jovens de se «aproximarem do exotismo que o Brasil representa», uma vez que «a cultura brasileira – através das telenovelas e da música – é muito acarinhada pela comunidade romena em geral», explica a leitora. Mesmo quando o Departamento de Português inserido na Cátedra de Linguística Românica, Línguas e Literaturas Ibero-românicas da Faculdade de Línguas e Literaturas Estrangeiras da Universidade de Bucareste não tem a variante de Português do Brasil. Estes jovens, ao depararem-se apenas com o Português Europeu no início dos seus estudos, «ou apaixonam-se por Portugal», pela sua cultura e literatura ou sentem alguma frustração «por não encontrarem a sonoridade e a musicalidade dos falantes brasileiros». «A primeira reacção é, porém e felizmente, a mais comum!», sublinha a leitora,

Outros jovens ainda estudam Português para compreender o fado «de perto». «O fado é bastante conhecido na Roménia», explica Patrícia Ferreira. «Tive alunos cujos pais, por exemplo, são admiradores de Amália Rodrigues – que esteve uma vez na Roménia – e, por isso, incentivaram-nos para a aprendizagem do português».

Mas há outras motivações: «atracção pelo país que ficava do outro lado do império romano», «estudar mais uma língua latina», «vontade de aprender a língua do país onde alguns membros da família e amigos residem» ou tão simplesmente porque ouviram e gostaram da sonoridade da língua e até por… «acaso».

Em 2008/09, 439 alunos estudaram Português na Universidade de Bucareste – um pouco mais de metade dos 844 alunos que frequentaram aulas de Língua Portuguesa em diversos níveis do ensino oficial no ano lectivo passado. Ao todo, são sete os estabelecimentos de ensino romenos onde é possível estudar Português: quatro universidades (Bucareste, Constança, Babes-Bolyai [em Cluj-Napoca] e Alexandru [em Iasi]) e três liceus (Eugen Lovinescu, Mihai-Eminescu, George Galinescu).

Em 2009/10, o Português começará também a ser ensinado na Universidade de Timisoara, graças a um protocolo assinado com o Instituto Camões, o que significa que a Língua Portuguesa, a partir do próximo ano lectivo, será estudada em todas as principais universidades da Roménia, enfatiza Patrícia Ferreira.

As licenciaturas em língua e cultura portuguesa existem nas universidades de Bucareste e Constança, que possuem também centros de língua portuguesa do IC. Nas restantes universidades, a língua e a cultura portuguesa constituem cursos livres.

Em Bucareste, o Português é estudado em duas licenciaturas, uma como língua A (1ª escolha, ou seja, língua de especialidade e, portanto, com mais horas de aulas) outra como língua B (segunda especialidade). Para Língua A, as infindáveis combinações vão do Português-Espanhol ao Português-Búlgaro ou Português-Hindi; como Língua B é ao contrário. O Português estuda-se ainda como língua C, ou seja, opcional para alunos que estudam Tradução-interpretação (STIT); Estudos Europeus ou Línguas Modernas Aplicadas (LMA). Em Constança só se estuda Português como língua B e C. 

 

 

Camões, I.P.
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