Exposição do IC sobre Fernão Mendes Pinto: Peregrinação «claramente vista»

Número 142 · 26 de Agosto de 2009 ·  Suplemento do JL n.º 1015, ano XXIX

Quase toda a gente conhece o trocadilho com o nome do autor da Peregrinação (1614). ‘Fernão, Mentes? Minto!’, reza a blague. Mas das palavras da professora universitária Ana Paula Laborinho, da Faculdade de Letras de Lisboa, depreende-se que o trocadilho tem cada vez menos razão de ser.

PeregrinaçãoA investigação histórica «tem vindo a confirmar muitas das informações que ele presta na obra», diz. E, depois, essa não é verdadeiramente a questão quando nos confrontamos com «uma das obras mais importantes da literatura portuguesa», na classificação da investigadora da FLL e responsável pelo guião da exposição que o Instituto Camões está a preparar dedicada aos 500 anos do nascimento de Fernão Mendes Pinto.

No fundo, as apropriações de histórias ou mesmo a pura fantasia de que Fernão Mendes Pinto é acusado não passariam de um quase ‘malentendido’ decorrente dos processos narrativos escolhidos pelo «aventureiro e explorador português» – que é como o classifica o artigo que lhe é dedicado na Wikipédia – para escrever a Peregrinação, quase na mesma altura em que Luís de Camões concluía Os Lusíadas, obra à qual – no que toca à expansão portuguesa – constituiria uma espécie de «contraponto». Uma interpretação nascida com António José Saraiva nos anos 60, que se tornou dominante, mas que é tributária da demarcação em relação ao oficialismo que envolveu Camões durante o regime do Estado Novo. «Os Lusíadas eram um texto canónico do fascismo», explica Ana Paula Laborinho. António José Saraiva «propõe a Peregrinação como o texto que se opõe, o texto revolucionário, de crítica social».

Nasce assim um Fernão Mendes Pinto – herói pícaro, à semelhança do D. Quixote de la Mancha, de Cervantes, uma leitura da Peregrinação que ainda hoje tem seguidores, mesmo no estrangeiro, mas da qual Ana Paula Laborinho se parece distanciar, quando diz que os «pressupostos» das duas obras são «muito diferentes», a começar pelo facto de o clássico espanhol ser «claramente uma ficção» e estar centrado na Europa. «O princípio dele [Fernão Mendes Pinto] é o princípio do realismo. Constantemente, insiste nessa questão da veracidade, do ‘claramente visto’, que aliás é um tópico também que aparece em Camões. ‘Claramente visto’…». Não se estranhe pois que, em relação ao sudeste asiático, por exemplo, os especialistas daquela região reconheçam hoje que as informações apresentadas por Fernão Mendes Pinto – como é o caso da tomada de Ayuthia, capital do reino do Sião, pelos birmaneses –, «coincidam com as informações que existem nas crónicas locais», mesmo quando ele se engana nas datas exactas, afirma Ana Paula Laborinho. Apenas o reino do Calaminhão, abundantemente referido na Peregrinação, resiste à identificação.

Todavia, isto não significa que Fernão Mendes Pinto se assuma como um cronista. As acusações de fantasia têm «muito a ver com o facto de quererem que ele seja alguma coisa que ele nunca quis ser. […] Nunca se assumiu como aquele que colige fontes. Por isso, ele conta a sua história e é preciso partir desse princípio – a autobiografia contém um princípio ficcional quase inerente –, mas ele nunca se assumiu como cronista».

Esta questão acaba por estar no cerne da polémica sobre a Peregrinação, que «não é à partida um texto literário no sentido em que nós o podemos entender de obra estética, intencionalmente ficcional, mas [que] pelas suas características e pela extraordinária concepção que lhe preside acaba por se tornar numa das obras mais importantes da literatura portuguesa e do modo de escrever ficcionalmente em português», sem lhe retirar o «incomensurável valor» como fonte histórica, considera Ana Paula Laborinho.

Posicionando-se a partir da crítica literária, a professora universitária defende que a Peregrinação está construída de acordo «com aquilo que muitas vezes, hoje em dia, vemos que são também os processos ficcionais contemporâneos». Numa obra que não apresenta fontes, é o que se observa na narração como «experiências pessoais» do autor de acontecimentos que não sabemos se são dele ou não, «mas que vamos encontrar descritos ou narrados por outros autores» e até com fontes.

Para esta opção de Fernão Mendes Pinto, Ana Paula Laborinho não encontra, nem aliás procura, justificação – a «questão da verdade […] hoje em dia já interessa menos, interessará aos historiadores». Apenas a explicação de que, diferentemente dos relatos de viagens, escritos ao correr dos acontecimentos, a Peregrinação foi redigida após os 21 anos vividos no Oriente por Fernão Mendes Pinto, quando regressa a Portugal e se isola na sua quinta de Palença, no Seixal, à espera de uma tença do rei. Fernão Mendes Pinto, diz, escreve depois de um «processo de maturação». «E isto faz muita diferença, porque há uma distância em relação àquilo que viveu, talvez o preenchimento de lacunas da sua memória com outros elementos que servem para dar uma coerência a essas memórias, mas que não lhe pertencerão». É «esta distância entre […] o tempo vivido e o tempo da escrita que justificam ou que podem explicar, do ponto de vista da organização do texto, muitas destas alterações».

Na análise de Ana Paula Laborinho, Fernão Mendes Pinto «usa processos que mais tarde vamos encontrar no realismo do séc. XIX». E dá vários exemplos de como ele integra na primeira pessoa histórias que pertencem a outras pessoas, como é o caso da subida do rio na China como cativo, que «é muito decalcada» das cartas dos cativos de Cantão, a famosa embaixada de Tomé Pires, a descrição das cidades chinesas aproveitando Gaspar da Cruz, ou ainda como introduz de forma ficcional, através de um «mecanismo narrativo extraordinário», o episódio na China do embaixador de Malaca, que manda pôr na sua lápide ‘aqui jaz aquele que foi vítima do leão dos mares, Afonso de Albuquerque’, uma referência extraída de Fernão Lopes de Castanheda e de outros cronistas.

Outro dos processos narrativos usados por Fernão Mendes Pinto que faz a sua «grande modernidade», no dizer de Ana Paula Laborinho, é a inserção de diálogos, que embora inventados dão realismo. Ele «põe as personagens a falar, mas adequando cada discurso […] à sua caracterização. […] As personagens orientais […] falam e o tipo de metáforas e o tipo de discursividade – ele chamava-lhe até o discurso oriental – é adequado à personagem.» A investigadora universitária considera «notável» que Fernão Mendes Pinto comece muitas vezes a descrição e depois diga: ‘como escureceu, não posso contar mais nada porque já não vi’, ou pelo contrário, ‘começou a clarear e eu comecei a distinguir as formas’, e parte para a descrição. «Tem esta preocupação de realismo, de processos realistas dentro deste relato, que, de facto, não encontramos em mais nenhum relato da época.»

«Buraco Negro»

Onde é que Fernão Mendes Pinto aprendeu esta forma de escrita, dominada pela procura da veracidade e do pormenor, é uma questão para a qual Ana Paula Laborinho tem «uma teoria», que elaborou a partir da comparação da Peregrinação com as cartas que ele escreveu no curto período (menos de dois anos) em que no Oriente foi membro da Companhia de Jesus (CJ). Segundo a professora da FLL, os irmãos da CJ, organizados hierarquicamente como uma companhia militar, tinham a obrigação de anualmente efectuar um «exame de consciência», em que plasmavam por escrito as suas experiências e reflexões. Esses textos, relatórios minuciosos, adquiriam a forma de cartas (carta anua) que circulavam na hierarquia e que eram publicadas.

Fernão Mendes Pinto escreveu duas cartas, tendo a primeira, relativa a 1554 e que «é o primeiro documento escrito a partir de Macau e em que se refere Macau», sido publicada em Lisboa, em 1555, e uma tradução publicada em Roma. A segunda carta, quando chegou a Lisboa, já ele tinha abandonado a CJ e não foi publicada. «Isso [as cartas], depois alargado, é o que nós temos na Peregrinação. Claro com as suas características próprias» e «únicas», diz Ana Paula Laborinho.

A carta publicada tornou-o «famoso», no dizer da investigadora, porque o texto «surpreendeu» já então os seus leitores. Tinha formas pouco vulgares, como quando dizia que, exemplifica Ana Paula Laborinho, ‘para escrever tudo o que vivi era preciso que o papel fosse céu e a tinta fosse mar’. «Já dizia estas coisas que já tinham os sintomas» da sua «capacidade inata de escrita».

A ligação de Fernão Mendes Pinto à CJ, mesmo antes de por ela ter passado, a sua relação com o santo católico Francisco Xavier, cuja missão no Japão financia do seu bolso e cujo enterramento do corpo incorrupto em Goa testemunha – «o que aliás lhe provoca uma grande emoção e o que faz com que ele de alguma maneira decida juntar-se à CJ» – explicam, no entender de Ana Paula Laborinho, uma das linhas de leitura da Peregrinação. É que «este texto insere-se, tanto quanto podemos apurar pelas suas condições de publicação, numa estratégia da CJ para a beatificação do S. Francisco Xavier», diz.

Mesmo assim, subsiste «um dos mistérios do texto da Peregrinação», na expressão da docente universitária: o facto de que «não aparece neste texto uma única palavra sobre a passagem pela CJ», pese embora o relato minucioso de Fernão Mendes Pinto sobre os seus 21 anos de vida no Oriente. A informação existente sobre essa passagem provém das cartas dos companheiros e de Francisco Xavier.

A passagem pela CJ e as razões da saída – um acto relativamente vulgar na época – são pois uma espécie de «buraco negro». Certo é que alguns irmãos proscrevem-no, acrescenta Ana Paula Laborinho. O nome dele aparece «muito riscado na lista dos irmãos da Companhia» e um seu companheiro na missão do Japão, João Rodrigues, um homem importante e muito conhecido na missão, que seria japonês, refere-se à Peregrinação como ‘o livro das patranhas’. Chama-lhe também ‘o livro dos fingimentos’, uma designação que tem o favor de Ana Paula Laborinho que a usa na exposição, «porque é um livro de fingimentos no seu sentido ficcional».

Outra leitura da obra de Fernão Mendes Pinto foi feita por Eduardo Lourenço, quando o ensaísta classifica a Peregrinação como «o penitencial». Ana Paula Laborinho insere a obra num literatura espiritual, um «livro penitencial», «em que ele pecador vai apresentar todas as razões para ter sido castigado pelos seus pecados, os seus pecados da cobiça, em primeiro lugar, […] de se ter preocupado muito mais com as questões materiais do que com as questões espirituais».

«O que depois é muito interessante na obra é que ele passa de um penitencial individual, de um ‘eu pecador me confesso’, para […] um penitencial dos portugueses, ‘nós portugueses nos confessamos’, e ainda vai alargar isto já no final a um penitencial da Humanidade: ‘nós, esta Humanidade, ocidentais, orientais, nos confessamos por todos os pecados’». No entender de Ana Paula Laborinho «isto é de facto extraordinário», porque implica que se ultrapassou a dicotomia «os bons europeus e os maus asiáticos», para «a Humanidade tem bons e maus». «É de facto já uma compreensão muito avançada e tem sido muito isso que tem sido valorizado», remata.

Há uma terceira leitura, que decorre do percurso da Peregrinação, após a sua publicação póstuma em 1614. Quando é divulgada na Europa, torna-se num sucesso, com 17 edições no séc. XVII, em todas as principais línguas, incluindo o castelhano, o alemão, o baixo alemão (holandês), o inglês, o francês. Com estas traduções, a obra «começa a pouco e pouco – e nós vemos isso nos prefácios, nos títulos – a ser lida como texto maravilhoso, como história maravilhosa», diz a professora universitária. Dá-se uma «deslocação de sentido e […] vai-se perdendo ao longo do tempo o sentido penitencial, começa a desenvolver-se o sentido maravilhoso», muito incentivado pelas gravuras extraordinárias que se juntavam às edições. «A parte do tal penitencial e até a leitura espiritual perde-se», sobretudo nos países protestantes. Na Alemanha, Países Baixos e Inglaterra retiram toda a parte relativa a Francisco Xavier. O prefaciador da edição inglesa, relata a investigadora, argumenta mesmo que não estava provada e que era certamente inventada. Ora, diz Ana Paula Laborinho, «é a única que está provada».

Pelo contrário num país católico como a França, a Peregrinação é publicada no séc. XVIII na ‘Biblioteca cristã para educação das meninas’, «aí para sublinhar o carácter penitencial» da obra.

Este sucesso da Peregrinação contrasta com o esquecimento a que foi votada em Portugal, onde só começa a ser reeditada «paulatinamente» no séc. XIX, segundo Ana Paula Laborinho. A partir do início do séc. XX surgem várias edições até culminar com a edição de António José Saraiva, que a professora da FLL classifica como «um marco».

Por último, há uma linha de leitura, no pós-II Guerra Mundial, que «defende ou traça o retrato de Fernão Mendes Pinto como judeu» refere a investigadora. Isso explicaria, diz, «toda a perseguição que a CJ lhe faz e toda a crítica que ele sofre por parte da CJ», uma interpretação a que Ana Paula Laborinho contrapõe a «parte significativa da CJ que vai manter-se sempre muito próxima de Fernão Mendes Pinto».

Seja como for, «isto só mostra a riqueza enorme» de uma obra que «permite todas estas leituras», leituras essas que apresentam justificações a ter em conta, considera Ana Paula Laborinho. Agora é a vez dos futuros visitantes da exposição fazerem as suas leituras.

 

 

 

Camões, I.P.
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