Canadá: ‘Passear’ pela literatura portuguesa em Montréal

Um ‘passeio’ por autores portugueses está literalmente a animar o Festival Internacional de Literatura de Montréal, que decorre desde 18 de Setembro e se prolonga até 27, aproveitando o percurso criado numa das principais avenidas desta cidade do Quebeque (Canadá) pela existência de um conjunto de bancos de rua dedicados a escritores de Portugal.

A paragem em cada um dos doze bancos – decorados com azulejos criados por artistas plásticos de Montréal de origem portuguesa – é o pretexto para falar dos autores portugueses aí evocados, que vão do século XIV ao presente, ou seja, de Dom Dinis a Gil Vicente, Luís de Camões, António Vieira, Bocage, Antero de Quental, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Saramago e António Lobo Antunes.

A realização de três passeios literários pelos 12 bancos em granito – peças de mobiliário urbano ao longo de quase um quilómetro do Boulevard de Saint Laurent, inauguradas a 25 de Abril passado, numa iniciativa da Câmara de Montréal – constitui a contribuição do Instituto Camões (IC) para a participação no Festival Internacional de Literatura (FIL) do European Book Club, uma organização que congrega institutos nacionais de cultura de países da União Europeia, segundo Luís Aguilar, leitor do IC na Universidade de Montréal.

Em cada banco, a paragem é de cerca de dez minutos e a apresentação dos autores portugueses feita por Vitália Rodrigues, assistente de Luís Aguilar no programa mineur de Língua Portuguesa e Literaturas Lusófonas, estando a logística assegurada pela empresa ‘Amarrages Sans Frontières’, que se dedica a dar a conhecer a quem visita a cidade a multiplicidade de comunidades que aí habitam.

Montréal é por excelência «a capital do culturalismo», na expressão de Luís Aguilar. E o Boulevard de Saint Laurent, com os seus 11,25 quilómetros que correm de norte para sul, outrora símbolo da divisão entre as populações de língua inglesa (a oeste) e de língua francesa (a leste), foi o ponto de referência escolhido por muitas comunidades para se fixarem. Ao longo da via, aí se instalaram em bairros próprios judeus, chineses e italianos e, desde há 50 anos, portugueses, gregos, árabes e outros.

Foi nesta avenida, no troço do ‘bairro português’, que a edilidade de Montréal quis assinalar com uma «assinatura» – os bancos de rua – a presença da comunidade lusa, numa iniciativa da vereadora de origem portuguesa Isabel dos Santos, autarca pelo bairro do Plateau-Montréal, onde se inclui a zona mais portuguesa na cidade, e que foi responsável pela coordenação do projecto.

A opção pelos bancos dedicados aos escritores portugueses para assinalar a imigração lusa na cidade «não foi pacífica», diz Luís Aguilar, que participou enquanto representante do IC na comissão que fez a escolha e que depois foi «grandemente responsável» pela selecção das frases dos escritores inscritas nos bancos em traduções feitas por autores do Quebeque. Havia quem preferisse um galo de Barcelos ou um Arco, mas no fim prevaleceu a ideia de uma «intervenção discreta», a terceira na cidade depois da chinesa e da italiana, diz o docente português.

Na escolha dos textos houve a preocupação de evitar frases de afirmação nacional, antes seguindo um «critério de abertura e humanismo que caracteriza a literatura portuguesa», refere Luís Aguilar. O acolhimento dos autores e dos textos foi ‘testado’ previamente, através, nomeadamente, da sua inclusão em provas de exame na Universidade de Montréal. A frase que «mais impacto teve», inclusive entre os jovens, segundo Luís Aguilar, pertenceu a José Saramago, quando este escreveu que «uma língua que não se defende, morre», incluída num texto do Nobel da Literatura publicado em 2000 no Jornal de Letras.

No Quebeque francófono no meio de um mar inglês, é uma frase portuguesa que ganha um sentido muito próprio.

 

Encarte Camões no JL n.º 143

Suplemento da edição n.º 1017, de 23 de setembro a 6 de outubro de 2009, do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias

 

 

 

Camões, I.P.
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