Tornar a cultura portuguesa necessária aos espanhóis

A grande questão da cultura portuguesa em Espanha é a do seu aprofundamento sistemático – diz em entrevista João de Melo, conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, em vésperas do início da VII Mostra Portuguesa em Espanha.

– O que distingue e aproxima a VII Mostra das edições de anos anteriores?

– Distingue-se pela incorporação de novos conteúdos e por algumas áreas ou disciplinas artísticas que ainda não tínhamos podido inserir em anteriores edições (a dança, o teatro, a moda, por exemplo). […] Foi preciso imaginar muito, negociar duro e cometer a ousadia de afrontar a crise: tivemos menos orçamento, aconteceram percalços com salas que fecharam ou foram para obras, houve exposições que ‘caíram’ por falta de comparência de potenciais patrocinadores, etc. A experiência acumulada e a união de toda a equipa da ‘Mostra’ […] fizeram, no entanto, com que esta edição acabe por rivalizar com outras, mais folgadas em termos financeiros. […]

– O que considera ‘imperdível’ na Mostra deste ano?

– ‘Imperdível’ parece-me um termo algo equívoco, porque designa logo o seu oposto, que é ‘dispensável’. Não quero cometer injustiças. A ‘Mostra’ é um todo unido pela multidisciplinaridade […] Mas creio dever sublinhar a grande exposição, em Madrid, de esculturas de Canto da Maia (‘escultor do silêncio’, na feliz expressão de Paulo Henriques, comissário da mesma), a de azulejos portugueses em Cáceres e a de Leonel Moura no festival In-Sonora. […] Falo-lhe também de Literatura: o lançamento da grande Antología general de la poesía portuguesa, Alma Minha Gentil, em edição bilingue, com mais de 1200 páginas, e que abarca algum do cânone que vem das origens medievais aos nossos dias. […] Dediquei algum do meu tempo à publicação de antologias literárias, nossas, em Espanha (a Antologia do Conto Português, de minha autoria, Alta Velocidad, de jovens contistas, e proximamente outra dedicada ao conto feminino). […]

– A VII Mostra parece seguir um modelo consolidado. Não há o risco da perda de novidade diminuir o impacto do evento?

– O que sei é que ela nasceu do nada e chegou até aqui, com o modelo e as dimensões actuais por obra e graça do trabalho que se desenvolve nesta embaixada. […] A Espanha decidiu entretanto criar (um pouco à nossa imagem e semelhança) a sua própria ‘Mostra’ este ano em Portugal. Talvez se possa evoluir para uma maior cooperação, ou para formas de convergência entre as duas iniciativas dos dois países. A nossa continuará a expandir-se a outras regiões de Espanha […]. Foram muitos (diria mesmo muitíssimos) os músicos, artistas, escritores, poetas e outros convidados que vieram a Espanha a nosso convite. Outros virão. […] Mas tudo está sempre por fazer e por dizer de novo. De resto, a ‘Mostra’ está muito longe de constituir o nosso único acontecimento cultural, aqui. É apenas o maior e o mais importante. Temos um plano anual de actividades; integramos festivais espanhóis importantes: a PhotoEspaña, o ARCO, a ArtMadrid e a Estampa, a Escena Laboral, a Escena Contemporánea; e há ainda as traduções, os lançamentos, as feiras do livro (como a bienal Liber, por exemplo), o Festival de Otoño, os festivais de cinema, os ciclos de ficção, documentários e curtas-metragens. Portugal foi já ‘país convidado’ de quase todos, e de outros.

- Como está a visibilidade da literatura portuguesa em Espanha? Tirando Saramago e Lobo Antunes, até parece que as artes plásticas portuguesas têm por vezes mais destaque do que a literatura…

– Talvez sim, talvez não. Se se consultar a página web da Embaixada, tem-se uma ideia do panorama de traduções dos poetas e escritores portugueses em Espanha (onde aos nomes por si citados haveria a acrescentar, pelo menos, os de Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira, Lídia Jorge, Manuel Alegre, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares). Razoável fortuna têm-na alguns dos nossos poetas, como Eugénio de Andrade (com quase toda a obra traduzida), Sophia de Mello Breyner (ganhou o prémio Reina Sofia e tem três antologias aqui editadas), António Ramos Rosa, Nuno Júdice e muitos outros. A editorial Hiperión fez uma autêntica ‘colecção’ de poetas portugueses, desde os chamados clássicos modernos aos contemporâneos, que são também publicados por editoras como a Pré-Textos, Calambur, Olifante, Visor, Sequitur, Linteo, etc. Tenho defendido a necessidade de celebrar convénios com editoras generalistas, de dimensão média, capazes de repor a literatura portuguesa no mapa editorial de Espanha. O mesmo devia fazer-se com galerias de artes e salas de exposição. Sem contar com uma política cultural externa que pusesse em parceria de projectos e em alternância de exposições as fundações e os museus portugueses e espanhóis. No domínio das artes plásticas, sim, as coisas movem-se (ou moviam-se melhor, antes da crise). […] A grande questão da nossa cultura em Espanha não é bem a do conhecimento, mas a do seu aprofundamento sistemático. Aqui conhecem-na à superfície, mas não na essência nem na sua história. Isto vale para a literatura e para as artes plásticas, como para a música e o cinema. Ela precisa de tornar-se necessária aos espanhóis e aos europeus em geral.

 

Encarte Camões no JL n.º 144

Suplemento da edição n.º 1019, de 21 de outubro a 3 de novembro de 2009, do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias

 

 

 

Camões, I.P.
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