À espera do projecto pan-africano

Estimulando a criação dos mestrados de Interpretação de Conferências e de Tradução pela Universidade Pedagógica de Maputo (UPM) esteve todo o processo que levou à realização em Nairobi, em Fevereiro passado, de uma conferência pan-africana intergovernamental, sob os auspícios das Nações Unidas, relativa à formação de linguistas em África, refere Garry Mullender, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL).

Da reunião, em que o Instituto Camões (IC) participou, saiu um apelo à criação de ‘centros de excelência’ nessas áreas em África e, «nomeadamente, de uma rede de universidades que ofereça um African Master\'s in Conference Interpreting, à semelhança do que acontece na Europa», adianta Mullender.

O projecto da UPM responde a esse apelo e aguarda agora «os resultados de um estudo de viabilidade do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que poderá também contribuir com fundos», acrescenta o professor da FLUL.

Como pano de fundo do processo esteve, segundo afirma, «a consciência das Nações Unidas da falta de linguistas profissionais, formados ao mais alto nível de exigência em África, o que dificulta a comunicação entre povos e o funcionamento de organismos multilaterais, tais como a União Africana e o BAD, entre outros».

A UNON (United Nations Office at Nairobi [Delegação das Nações Unidas em Nairobi]) encomendou então um relatório ao ex-director-geral do Directorado de Interpretação da Comissão Europeia, Noel Muylle, sobre a formação de tradutores e intérpretes em África, o qual recomendou a realização da conferência pan-africana.

Inicialmente reservada às línguas oficiais do sistema das Nações Unidas, de que o português não faz parte, a extensão à língua portuguesa da rede de centros de formação foi defendida na reunião pelos representantes de Portugal – o Embaixador no Quénia, Luís João de Sousa Lorvão, e, em representação do IC, os professores Palmira Marrafa e Garry Mullender, a primeira coordenadora de licenciatura e mestrado da área de Tradução na FLUL e o segundo responsável pelo curso de Interpretação de Conferência na mesma faculdade. Palmira Marrafa é também coordenadora do curso à distância sobre Tradução e Tecnologias de Informação Linguística e Garry Mullander do de Técnicas Avançadas de Interpretação Simultânea, ministrados através da plataforma digital do IC.

Os representantes portugueses advogaram com veemência que o projecto de formação de tradutores e intérpretes em instituições universitárias africanas não deveria ter como base o complexo modelo de línguas da ONU, como constava do documento de balanço e recomendações, elaborado antes da reunião de Nairobi por Noel Muylle, com experiência na criação de programas similares na Europa, «mas num que tivesse em conta as necessidades linguísticas de África».

Na declaração saída da reunião, ficou estabelecido que «um multilinguismo amplo reflectindo todas as línguas usadas pelas organizações internacionais em solo africano deve estar no centro de consideração» da futura rede, gerida pelo Banco Africano de Desenvolvimento, mas tornava a sua concretização dependente da feitura por esta instituição africana de um estudo de viabilidade, cujo estado, para já, se desconhece. Numa reunião do comité de coordenação do Projecto Pan-africano de formação de Tradutores e Intérpretes, realizada em Julho passado em Tunes, o chefe de Unidade dos Serviços Linguísticos do BAD, Valentin Ndi Mbarga, defendeu igualmente que línguas europeias de formação deveriam ser o inglês, o francês e o português, no que foi secundado pelo director-geral de Interpretação da Comissão Europeia, Marco Benedetti.

No entanto, a declaração da reunião na capital queniana aceitava que, «como um primeiro passo», fosse criado um «projecto-piloto para a formação de intérpretes de conferência, no espírito do multilinguismo», na Universidade de Nairobi, em Setembro de 2009, com o apoio da União Europeia, o que ainda não aconteceu, até porque se trata de um projecto a ser construído a partir do ‘zero’. O documento foi também omisso quanto às línguas a utilizar na formação em Nairobi.

No dizer dos organizadores da conferência do Quénia, a «mediação linguística» é «necessária para aumentar a compreensão e cooperação» e essa «tarefa difícil encontra-se nas mãos do tradutor e do intérprete, que é treinado para levar a cabo a mediação intercultural e a negociação no contexto do diálogo».

O objectivo é «criar, passo a passo, centros de excelência de formação em África, com a ajuda de universidades e doadores, bem como dos serviços de conferência das organizações internacionais. Estes centros oferecerão programas de pós-graduação (mestrados) de Tradução e Interpretação a par com aqueles conferidos por instituições em todo o mundo», segundo o relatório preparatório da conferência de Nairobi.

A ideia é começar com um pequeno grupo de universidades das quatro regiões principais de África (Norte, Sul, Leste e Oeste) e, depois, estender a rede a outras universidades interessadas.

 

 

Centro de Língua Portuguesa em Bamako

Um Centro de Língua Portuguesa (CLP) vai ser criado em Bamako, nos termos de um protocolo válido por três anos, assinado entre o Instituto Camões (IC) e o consulado honorário de Portugal no Mali, cargo actualmente ocupado pelo investigador e antigo ministro maliano do Desporto, Cultura e Juventude Diadié Yacouba Dagnoko.

O CLP terá a sua sede no Centro de Cultura Amadou Hampaté Bâ – do nome de um reputado escritor e etnológo maliano – de que é director o cônsul honorário de Portugal e contará com um docente de língua portuguesa, Antónia Reis, licenciada em Línguas e Literaturas e intérprete e tradutora para várias instituições da União Europeia.

Com a abertura do CLP, o Consulado Honorário de Portugal pretende «dar início aos seus esforços de valorização do estatuto da língua portuguesa e das culturas lusófonas, através do desenvolvimento de Cursos de Língua Portuguesa e de actividades de divulgação da Cultura Portuguesa e das dos restantes membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa».

O IC irá apoiar o CLP de Bamako com a contratação da docente de língua portuguesa. Disponibilizará ainda cursos de formação à distância em Português Língua Estrangeira e em Intercompreensão Linguística, através da sua plataforma virtual, e concederá apoio bibliográfico e audiovisual, bem como material informático.

 

 

Encarte Camões no JL n.º 146

Suplemento da edição n.º 1023, de 16 a 29 de dezembro de 2009, do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias

 

 

 

Camões, I.P.
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