Número 13   ·    08 de Setembro de 1999

Artes Plásticas de Moçambique

no Instituto Camões Um novo capítulo nas "Pontes" da Lusofonia


A complementar esta mostra serão lançados três catálogos elaborados para explicitar o trabalho dos autores presentes. Nesta ocasião serão ainda editadas três novas colecções próprias do Instituto Camões - Lusófona, Diáspora e Insularidades - mediante as quais se pretende reforçar o diálogo da Lusofonia

As Arte(s) de Moçambique estão em evidência em Lisboa até ao final de Outubro. A nova casa do Instituto Camões, na praça Marquês de Pombal, recebe a nata das artes plásticas moçambicanas, da pintura de Malangatana às xilogravuras inéditas de Matias Ntundo. "Outras Plasticidades" é o segundo capítulo do projecto "Pontes Lusófonas", a pedra de toque da Lusofonia. "Do Adobe ao Aço Inox, Ideias e Projectos: 1962-1998", retrospectiva da obra do arquitecto José Forjaz, termina esta mostra singular.

O programa de Pontes Lusófonas, um dos pilares culturais entre Portugal e os países de língua oficial portuguesa nascido no ano passado sob a égide do Instituto Camões, traz este ano a Portugal as riquezas plásticas da arte moçambicana. Até ao próximo dia 30 de Outubro poderão ser apreciados na nova casa do Instituto Camões, em pleno centro da cidade de Lisboa, os trabalhos contemporâneos de artistas caros à cultura de Moçambique.

A mostra começa com Malangatana, autor consagrado, de que se expõe um momento incógnito da sua profícua obra. A profusão cromática do artista ocupa um andar inteiro, numa exposição intitulada «Malangatana: de Matalana a Matalana". Ricardo Rangel, Muando, Valingue, Ndlozy, Ídasse, Matias Ntundu, são o outro punhado de apelidos sonantes que nos visita como enamorado pretexto da Lusofonia, reservando-lhes fracções individuais do edifício naquela que será parte das "Outras Plasticidades", que, tal como o nome sugere não se limita a uma única forma de expressão artística. 

O elemento comum é estarmos na presença de artistas de criação vigorosa fecunda desse intrigante binómio africano de magia/mitologia. Por outro lado, como um teorema de unidade nacional há em todas as obras a intenção provocativa, aludindo-se diversas vezes à "transgressão" quando em presença de movimentos estéticos formalistas. No todo aqui exposto, haverá, decerto, uma atitude própria "de África, de Moçambique", mas essa acha-se mais depressa no convívio informal da(s) entrevista(s) do que em qualquer composição do(s) artista(s).

Ídasse, 44 anos, pintor fascinado pela matéria "imoldável" do oculto, encara a arte contemporânea moçambicana como um "padrão de liberdade e recusa de ideologias". Esclarece, em rodapé, e com vontade de insistir: "Para um moçambicano a aprendizagem vem de si, da sua luta interna e não de escolas e correntes criativas. Dou por mim a pensar que não sei responder onde aprendi a pintar; talvez na barriga da mãe com a tela na placenta, as tintas amnióticas e o pincel puxado do intestino". Não se estranha, pois, que os desenhos de ídasse alcancem um tremendo (e atormentado) grau de confrontação interior, sendo fácil ouvir-lhe este lamento: "o Homem é como o chão: firme ou falso. 

Com os traços de uma face posso ligá-lo a um pescoço em forma de casa e tornar o riso numa vulgar satisfação materialista" Gosta de histrionizar a estupidez humana, as meias verdades dos tabus, "acender a luzinha desatarraxada ao fundo túnel", a que, diz "nos tira do estado de imbecilidade crónica e nos devolve à inteligência, à razão de estar vivo". O desfasamento entre o Criador e "a cria" faz do Homem um ser «venereamente contraditório", ou seja, "mata e salva, esbulha e semeia, invade e referenda a liberdade na mesma medida" A "cria" é assim um elemento de verdades "ficcionadas", que na sua atitude com o semelhante não empatiza, comunica. 

Tombado pelas balas ou dançante, tomado de raivas ou de costas caídas o Homem de Ídasse passa, contudo, por ser "livre". É, por conseguinte, "um pássaro", que veio até Lisboa mostrar como as fronteiras são "invenções capitalistas". Entre Moçambique e Portugal, afinam agora todos os artistas pela mesma bitola - alguns chegando mesmo ao grito - "nunca houve lugar a fronteiras postiças".

Esculpir o erotismo

E sob esse lavrado protesto voltamos às suas obras, onde iremos impregnar novamente de deleite os sentidos. Eis a vez de tocar (literalmente) a madeira esculpida por Ndlozy, cujos 29 anos não impedem o Olimpo, dentro e fora de Moçambique. Trata-se de um conjunto de peças emblemáticas do tão afamado "calor africano", quer pelos seus tons ocre, escarlate e laranja, quer pela sensualidade mostrada em ousado protagonismo. Valingue, escultor entusiasta do pau-preto, comunga do erotismo anterior, traço, aliás, comum à generalidade da cultura africana. 

Muando, outro escultor de ascensão meteórica, conta apenas 25 anos e é já uma das referencias no país, com especial relevo para os motivos naturalistas/fálicos escolhidos. Reinata, mulher tatuada no corpo e na vida, deslumbra-se com os seres que assumem formas de bordados infinitos de gestos e posturas. 

José Forjaz, arquitecto de obra vasta, cria no espaço da Lusofonia um lugar espacial, no mínimo, invulgar, cenário que poderá vislumbrar na exposição "Do adobe ao Aço Inox, Ideias e Projectos: 1962-1998". Depois há as fotografias de Ricardo Rangel, uma retrospectiva de vários anos a apreender o lugar do comum que vai do quotidiano de bairro em Maputo às particularidades das aldeias perdidas no interior do país. Sem recorrer a truques de laboratório, no registo primevo do preto e branco, Rangel traz a lume uma série de frescos tradicionais de Moçambique, uma viagem de instantâneos de latos sentidos. 

Matias Ntundu, artista que vive retirado no Planalto de Mueda, em isolamento profundo, trouxe até ao Instituto Camões, porventura, as peças mais originais do todo. Trata-se de um conjunto heterogéneo de xilogravuras que representam a ancestralidade moçambicana, os primórdios de onde brotou a arte local e que, como se depreendera, neste contexto, ultrapassa (pela envergadura) os limites fronteiriços, unindo-se a Portugal (umbilicalmente) e ao mundo. Uma manifestação arrojada que, tal como as demais obras em exibição, nos leva a deambular apenas movidos a combustível: "prazer de descoberta". 

Ora, num encontro com a Arte, seja ele por atalhos (conselhos de jornal) ou linhas rectas (por exemplo, uma velha raiz atávica em Moçambique) há êxtases precoces que se desvanecem no passar do tempo, dando origem a simples memórias visuais que repetimos aos amigos por aceitação passiva do que é belo e não podemos contrariar. 

A sina desta mostra, tão abençoada de poesia como um amor romanesco, será que, ao fecho das 20 horas, pelas escadinhas fora, a veremos pelo ombro, cabisbaixos, em chorosa despedida.

 

Tiago Salazar