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2. A colonização directa (1870-1960)

A expressão de um capitalismo arcaico

Após 1870, a Europa partilha entre si a maior parte da África, A colonização directa concretiza-se pela transposição de um aparelho de Estado metropolitano. Este «pacifica», cria um quadro regulamentar e realiza funções económicas de base. Apoia-se, no entanto, em certas instituições existentes e não pode ser analisado como a simples transposição de um corpo estrangeiro.

Contrariamente às teses que a interpretam como a expansão do capitalismo dominante, a colonização é antes de mais o resultado económico do recuo das nações europeias e das firmas retardatárias em espaços protegidos, face à concorrência internacional. Expressão de um capitalismo arcaico, a «economia de troca» liga as estruturas estrangeiras alteradas e as estruturas «indígenas», graças ao papel da administração e das sociedades de comércio [Pourcet, 1979].

O capital mercantil valoriza-se em detrimento do capital produtivo, o sistema colonial obedece muito mais a uma lógica de punção e de constituição de reservas, do que a objectivos de fomento e de acumulação.

Em todo o caso, a realidade colonial afastou-se da visão triunfalista dos militares e dos políticos (Ferry) que procuravam financiar as conquistas. Em vez do Eldorado, os investidores constatam que não existe mercado de trabalho e que se manifesta mesmo escassez de mão-de-obra («preguiça e indolência dos indígenas»); os mercados são ínfimos, a insegurança é grande (doenças, clima), e as vias de comunicação são quase inexistentes. Uma vez que, em relação aos seus objectivos, o aparelho de Estado colonial tinha tudo a criar, o princípio adoptado foi muito rapidamente o do auto financiamento (em 1901 para as colónias francesas).

Uma das prioridades era, uma vez assegurada a ordem, criar as infra-estruturas; «colonizar é transportar». Por falta de financiamentos exteriores elevados, estas grandes obras foram realizadas através de sistemas com uma grande intensidade de trabalho e com custos humanos muito elevados (cf. a construção do caminho-de-ferro do Congo ao Oceano).

A mobilização do excedente (diferença entre a produção e a parte necessária para reconstituir as condições da produção) foi assegurada pela força (impostos, trabalho forçado, culturas obrigatórias, expropriação fundiária). Os investimentos foram limitados, excepção feita para o início do período e no pós-Segunda Guerra Mundial [Marseille, 1984; Suret Canale, I. Tendo em conta a conquista, as repressões, o trabalho forçado e o recrutamento militar obrigatório, a população africana cresceu pouco até 1930: estimada em 100 milhões no final do século XIX, esta atingia 160 milhões em 1950.

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HUGON Phillipe (1999), Economia de África, Lisboa, Editora Vulgata.