Anemia

Transfusão de sangue

A transfusão de sangue em cirurgia programada. Um risco evitável. Que se pode fazer?

O sangue, líquido que circula nas nossas artérias e veias, não se pode fabricar. O corpo humano é o único capaz de o produzir.

É necessário, pois transportar oxigénio a todos os recantos do nosso organismo. Não nos damos conta disso, mas o nosso corpo consome energia constantemente. Quando caminhamos, quando conversamos e, inclusivamente, quando descansamos, o nosso organismo necessita de combustível para funcionar. O combustível do nosso corpo é o oxigénio que respiramos. Dos pulmões passa para o sangue e, daí, chega a todas as células do nosso corpo.

Os glóbulos vermelhos são transportadores do oxigénio. O oxigénio, por si próprio, não pode viajar no sangue, necessita de um meio de transporte que se chama glóbulo vermelho, eritrócito ou hemácia. Logo, os glóbulos vermelhos são os camiões cisterna que transportam o combustível do nosso corpo.

O nosso organismo é capaz de saber quando necessita de combustível? Quando detecta que a quantidade de oxigénio não é suficiente, o rim produz uma substância chamada eritropoetina, que viaja pelo sangue até uma parte dos ossos chamada medula óssea e ordena o fabrico de mais glóbulos vermelhos. Como resultado final chega mais oxigénio a todo o lado.

Pelo contrário, quando o nível de oxigénio é suficiente, o nosso organismo detecta-o e trava-se o fabrico de glóbulos vermelhos.

Quando o tanque de combustível está na reserva, quando há poucos glóbulos vermelhos, é possível que a quantidade de eritropoetina produzida pelo rim não seja suficiente para ordenar o fabrico da quantidade de glóbulos vermelhos requerida, tornando-se então necessário que o médico tome medidas para resolver a situação.

O que é anemia?

Quando temos poucos glóbulos vermelhos diz-se que temos anemia. Geralmente classifica-se em três grupos:

1. Anemias por perda de sangue

2. Anemias por diminuição ou produção defeituosa de glóbulos vermelhos

3. Anemias por aumento da destruição de glóbulos vermelhos

A mais frequente é a anemia ferropénica, ou por falta de ferro, caracterizada pela diminuição na produção de glóbulos vermelhos. Quando se sangra durante uma intervenção cirúrgica pode produzir-se uma anemia por perda de sangue, sendo necessário, inclusivamente, realizar uma transfusão. Isto sucede quando falta mais sangue que aquele que o nosso organismo consegue fabricar.

Como sabe o médico que temos anemia?

Antes de uma intervenção cirúrgica o médico solicita uma análise de sangue, a qual o informa sobre o estado de saúde do doente. Há dados das análises que indicam se se está anémico, tal como o nível de hemoglobina, o hematócrito e o número de glóbulos vermelhos.

A hemoglobina é uma substância que se encontra no sangue, que dá a cor vermelha aos glóbulos vermelhos e que contém o ferro do sangue. Ela é uma medida indirecta do número de glóbulos vermelhos que circulam no sangue.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que um homem está anémico quando o nível de hemoglobina é mais baixo que 14 gramas/dl. No caso das mulheres, considera-se que têm anemia quando, nas análises, aparece um nível de hemoglobina menor que 12 gramas/dl.

As intervenções cirúrgicas programadas são a causa diária de importantes consumos de sangue e hemoderivados. Certas intervenções (prótese do joelho ou da anca, cirurgia oncológica, operações ao coração, etc.) e, sobretudo, doentes previamente anémicos (hemoglobina pré-operatória inferior a 13 g/dl) são mais propensos a necessitar de importantes reposições de sangue durante ou após a intervenção. Aliás, é frequente suspender ou adiar intervenções cirúrgicas programadas por carência de abastecimento de sangue perante uma procura que aumenta de dia para dia.

A enorme vantagem das intervenções cirúrgicas programadas sobre as urgentes e os grandes traumatismos agudos, é permitirem uma óptima preparação do doente perante a agressão cirúrgica, de modo a minimizar-se ou anular o risco de exposição a sangue homólogo adoptando medidas específicas.

Que é uma transfusão de sangue?

Uma transfusão de sangue consiste em administrar sangue a um doente, cuja medula óssea não seja capaz de fabricar a quantidade de glóbulos vermelhos que essa pessoa precisa, ou de o fazer com a necessária velocidade. Após uma intervenção cirúrgica a medula óssea não é capaz de fabricar a quantidade de sangue que o doente perdeu durante a mesma pois, para isso, precisaria de 10 a 15 dias. Assim, em certas ocasiões, é necessário administrar sangue. O sangue não é inócuo para o doente. Por isso, a sua indicação e utilização são cuidadosa e pessoalmente avaliadas pelo médico em cada caso concreto e, se a transfusão não for imprescindível, evita-se a mesma.

Riscos

As transfusões de sangue salvam muitas vidas, mas não estão totalmente isentas de riscos.

O sangue não é inócuo para o doente. Por isso, a sua indicação e utilização são cuidadosa e pessoalmente avaliadas pelo médico em cada caso concreto e, se a transfusão não for imprescindível, evita-se a mesma.

Doenças infecciosas

Apesar das provas realizadas actualmente serem mais sensíveis e específicas, e se tenha reduzido muito o risco, não se eliminou totalmente a possibilidade de se contraírem certas doenças (doentes em período de incubação): hepatite B, hepatite C, sífilis, SIDA e outras.

Sensibilização

Apesar de ter feito as provas de compatibilidade, o doente pode sensibilizar-se a alguns antigéneos do doador. Isto não causa problemas imediatos, mas pode provocá-los em transfusões posteriores.

Outras reacções

As transfusões também podem provocar algumas reacções benignas, como febre, tremor ou prurido.

O risco é mínimo, mas não é nulo. Os centros de transfusão, bancos de sangue, e a Imunohemoterapia proporcionam ao seu médico sangue e hemoderivados da mais alta qualidade e máxima segurança.

Para isso, gastam mais de metade dos proventos na segurança transfusional, com a intenção de reduzir ao mínimo a possibilidade de complicações posteriores à transfusão.

Um alto grau de segurança da transfusão sanguínea constitui, hoje em dia, um feito científico-técnico de grande magnitude. Mas, apesar disso, a transfusão sem riscos está longe de ser alcançada.

Tipos de transfusão de sangue

O sangue para transfusão pode provir de um dador altruísta ou do próprio doente. Quando o sangue provém de um dador altruísta a transfusão é alogénica ou homóloga, quer dizer, o dador e o receptor ou o doente não são a mesma pessoa.

Quando o sangue se extrai do doente para depois se administrar ao próprio, a transfusão é autóloga, quer dizer o dador e o receptor são a mesma pessoa.

Tenho alguma alternativa à transfusão de sangue alogénica ou homóloga?

Sim

Há procedimentos para transfundir ao doente o seu próprio sangue, já que é a melhor e a mais inócua transfusão que se pode receber.

Também se pode administrar uma injecção de eritropoetina exactamente igual à produzida pelo rim, a qual viaja pelo sangue até à medula óssea, ordenando o fabrico de glóbulos vermelhos. Se o doente não está anémico, quer dizer, se o seu nível de hemoglobina está acima de 13 g/dl, mesmo que sangre durante a intervenção cirúrgica, será pouco provável que necessite de uma transfusão de sangue homóloga.

Que é uma auto-transfusão?

A auto-transfusão é uma técnica na qual o doente se converte em doador para si próprio, quer dizer transfunde-se ao doente o seu próprio sangue. Desta forma consegue-se uma transfusão mais segura, evitando as reacções por incompatibilidade e o contágio de infecções.

Quem beneficia de uma auto-transfusão?

A transfusão de sangue autóloga ou auto-transfusão é uma alternativa que não está ao alcance de todos os doentes. O indivíduo deve submeter-se a uma intervenção cirúrgica, que possa ser programada com 3 ou 4 semanas de antecedência, e gozar de boa saúde.

Que tipos de auto-transfusão me podem oferecer?

O tipo de auto-transfusão mais utilizado é a auto-transfusão de depósito prévio. O sangue extrai-se ao próprio doente antes do ingresso no hospital, armazena-se e utiliza-se durante ou depois da intervenção cirúrgica, caso seja necessário.

Há outras modalidades de auto-transfusão: Hemodiluição pré-operatória: consiste em extrair, antes da operação, uma parte do volume sanguíneo de um doente não anémico e substituir esse volume com expansores do plasma. Este sangue transfunde-se durante a operação, se for necessário.

Recuperação de sangue intra-operatória: consiste em recolher, com a ajuda de uma máquina, o sangue que se perde durante a intervenção na sala de operações e refundi-lo ao doente.

Como se realiza a auto-transfusão?

Em caso de auto-transfusão de depósito prévio (a mais utilizada), o sangue extrai-se ao próprio doente antes do ingresso no hospital. Antes da operação, após passar num exame médico e analítico, vão-se-lhe extraindo as unidades de sangue necessárias para a sua intervenção. Uma vez que o sangue não se pode guardar indefinidamente, estas doações devem efectuar-se durante as 3 ou 4 semanas que precedem a intervenção cirúrgica.

O sangue extraído armazena-se e, se na sala de operações ou depois, o doente necessitar de sangue, transfunde-se o seu próprio sangue.

http://www.janssen-cilag.pt/disease/detail.jhtml?itemname=anaemia&s=4 (08-02-2006)