Os bichinhos de estimação mudaram-se do quintal para dentro de casa. Esta proximidade com os humanos pode trazer consequências graves para a saúde.

Para quem vive nas grandes cidades, um simples passeio à porta de casa pode transformar-se numa verdadeira prova de obstáculos. Desde carros mal estacionados até ao número de buracos na calçada, tudo se torna num problema difícil de contornar na altura de andar a pé. Nos últimos anos, outra dificuldade é colocada aos munícipes: a sujidade causada pelos animais. A zona de Campo de Ourique, em Lisboa, é um dos locais da capital onde o problema dos dejectos caninos é mais preocupante.

Durante o dia, os motocães, equipamentos da Câmara Municipal de Lisboa, que recolhem os indesejados excrementos, aspiram nas ruas da capital uma média de 2300 dejectos. De acordo com o vereador do Departamento de Higiene Urbana e Resíduos Sólidos, António Monteiro, nalgumas zonas, “a sujidade provocada pelos animais é um problema difícil de resolver, pois está dependente da alteração dos comportamentos dos munícipe”.

Para além dos motocães, que efectuam cinco circuitos diferentes ao longo das ruas e jardins, multiplicam-se os dispensadores que contêm sacos para que se possa recolher os resíduos caninos e foi já criada uma casa de banho para os animais. “A sujidade provocada pelos excrementos dá uma má imagem da cidade e, sobretudo, pode ter várias implicações para a saúde pública”, refere vereador.

A mesma preocupação expressa Luís de Carvalho, especialista em doenças parasitárias da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa. “Fazer uma simples festa a uma animal pode ser um gesto perigoso, principalmente para as crianças, devido aos ovos que se alojam no pêlo e às pulgas e carraças que se fixam à pele”, alerta o professor.

Nos últimos 25 anos, o número de animais domésticos aumentou substancialmente nas cidades e estes passaram a constituir-se como mais um membro da família. Esta maior proximidade com os cães e gatos faz com que muitas pessoas possam ser infectadas por diferentes parasitas. “Nos ecossistemas urbanos é frequente o problema da contaminação ambiental por dejectos de pequenos animais. Os resíduos poluem os espaços e veiculam agentes prejudiciais para outros carnívoros e até o próprio Homem”, acrescenta Luís Carvalho.

Nos parques infantis e nos jardins, as crianças tornam-se nos alvos mais vulneráveis. Basta o contacto com a relva e areia, que minutos antes os animais sujaram, e o acto de levarem as mãos à boca para que sejam ingeridos ovos de parasitas ou as larvas serem transmitidas através da pele ou via oral.

“Não se pretende criar um alarmismo à volta deste assunto, mas as pessoas têm de perceber que lidam diariamente com perigos reais. Há, de facto, um problema de saúde pública, mas não existe nenhuma acção concertada para combatê-lo”, sublinha o professor.

Entre as doenças transmitidas pelos animais, as mais preocupantes são as que têm origem em parasitas intestinais. Porém, no pêlo dos cães e gatos alojam-se outro tipo de ameaças mais conhecidas do Homem, como as pulgas e carraças. A febre alta e o inchaço na cabeça e na cara fizeram com que Paula Faria, de 22 anos, fosse aio médico confirmar o que desde logo suspeitava: tinha febre da carraça. A proximidade dos animais que tem em casa foi provavelmente a responsável pelo surgimento desta patologia. “ Já tinha ouvido falar da febre da carraça e conhecia os seus sintomas, por isso resolvi ir logo ao médico. Tive de esperar um mês para que todos os sinais da doença desaparecessem.”

Habitualmente julga-se que este tipo de parasitas não tem consequências para a saúde do Homem, mas uma simples pulga pode causar dermatite alérgica e anemia. Por sua vez, os mosquitos, aparentemente inofensivos, são também potenciais transmissores de várias patologias.

Para Luís Carvalho, o aumento do número de doenças parasitárias deve-se à falta de regras. “Muitas pessoas pensam que desparasitar é o mesmo que vacinar e, nos últimos tempos, as pessoas descuram quer esse acompanhamento veterinário, quer as regras básicas de higiene.”

Um estudo espanhol revelou que 23 por cento dos proprietários de animais domésticos não sabe o que é um parasita intestinal, enquanto metade desconhece que esses podem ser a causa de doenças nos humanos. Para além destes dados, o inquérito evidenciou que 60 por cento das pessoas não põe em prática um plano regular de desparasitação aconselhado pelo veterinário.

António Marques Valido, médico pediatra da Maternidade Alfredo da Costa, considera que os dejectos dos animais deixados nas ruas são um perigo iminente. “ Apesar dos equipamentos camarários se terem multiplicado, não me parece que a maioria das pessoas apanhe os excrementos. Noutros países, a censura é maior do que em Portugal”, sublinha. Para o pediatra, os sintomas das parasitoses não são tão conhecidas pelos médicos como pelos veterinários e, muitas vezes, o diagnóstico não se torna fácil.

Rosa Nicau, que todos os dias passeia com o seu cão nos jardins, acredita que é fundamental haver normas de higiene: “Se cada pessoa recolhesse os dejectos do seu animal e o levasse regularmente ao veterinário, estes problemas seriam minimizados.” Mais do que prevenir, torna-se premente solucionar este problema que se esconde em cada rua, jardim, parque infantil e praia.

PRINCIPAIS DOENÇAS

Os parasitas provocam muitas patologias no Homem. A gravidade depende da forma como foi transmitida a infecção e o grau de infestação.

Toxocarose

Nesta patologia, os parasitas do cão ou gato, conhecidos vulgarmente por lombrigas, são transmitidos ao Homem através do contacto das mãos sujas com a boca. Apesar das lombrigas, nos animais, atingirem a sua maturidade sexual no intestino, no Homem isso não acontece e as larvas acabem por migrar para outros órgãos. A doença provoca problemas respiratórios, aumento do fígado e alterações oculares que podem levar, em casos extremos, à cegueira. Muitas vezes, os sintomas da toxocarose podem confundir-se com uma gripe ou hepatite, o que dificulta na altura de fazer o diagnóstico.

Equinococose-hidatidose

Esta doença endémica é conhecida por quisto hidático. O cão transmite a infecção para o exterior através dos ovos microscópicos nas fezes, que depois o Homem pode ingerir ao fazer festas ao animal ou estando em contacto com a relva contaminada. Esta enfermidade pode ser fatal em muitos casos. Os agentes patogénicos alojam-se no fígado, nos pulmões e mesmo no cérebro.

Síndroma da larva migrante cutânea

No Brasil, o parasita que provoca esta patologia é conhecido como “Bicho Geográfico”, devido ao traçado que provoca na pele dos humanos. A larva vai escavando túneis, criando um mapa na pele.

Raiva

Os animais selvagens são o reservatório primário da doença, mas são os de estimação (como cães e gatos) que constituem a principal fonte de transmissão para o Homem – através da saliva. Para ser inoculado, basta que um corte, ferida ou queimadura na pele entrem em contacto com a saliva do raivoso. O vírus atinge então o sistema nervoso central. Tanto no Homem como nos animais, quando os sintomas se manifestam, já não há cura possível – a morte é certa.

Toxoplasmose

É um grande problema para as mulheres grávidas, pois pode provocar abortos e malformações no feto. O protozoário responsável pela doença pode ser apanhado comendo carne mal passada ou através do contacto com fezes de gatos infectados.

Leptospirose

É uma doença causada pela bactéria leptospira que afecta a maioria dos animais, inclusive o Homem. É transmitida através da urina, água e alimentos contaminados, da penetração da pele lesada e da ingestão. O cão é um dos animais que transmite esta doença.

Dermatofitose (“tinha”)

Provocada por um parasita cutâneo, é mais comum nos gatos do que nos cães. A doença manifesta-se através de lesões na pele circulares, que não dão muita comichão. Pode até passar despercebida, pois há animais portadores da doença que não apresentam qualquer sintoma.

Doença do arranhão do gato

É uma doença que os gatos transmitem às pessoas através de arranhões, mordidelas e pulgas infectadas. Mais comum em crianças do que em adultos, esta patologia provoca febre, inchaço nos nódulos linfáticos e pode danificar órgãos importantes. Pode ser grave se a pessoa estiver imunodeprimida.

AS PORTAS DE ENTRADA

Conheça os meios que os parasitas utilizam para contaminar o organismo do Homem

Ingestão

É a principal forma de contaminação do Homem. Devido ao estreito contacto com cães e gatos, e com o meio ambiente ou alimentos contaminados, ingere ovos ou larvas infestantes.

Brincadeira

Os adultos devem ter cuidados redobrados com as crianças. Por norma, elas têm o hábito de levar tudo à boca, o que se torna particularmente perigoso quando brincam em areais ou relvados com fezes de cães ou gatos.

Pele

As larvas de ancilostomídeos podem infestar o Homem penetrando na pele (via percutânea).

RESPONSABILIZAR OS MUNÍCIPES

Conheça as sanções por não apanhar os cocós do cão

Está previsto pela legislação portuguesa que os munícipes que acompanham os animais (à excepção dos cães-guia que “conduzem” os invisuais”) são responsáveis pela limpeza e remoção dos dejectos nos espaços públicos. O não cumprimento deste dever pode ser punido com uma multa que pode ir dos 36,56 aos 548,40 euros.

Em Lisboa, no ano passado, foram efectuados 14 processos de contra-ordenação, o que resultou num total de 407 euros, menos 730 euros do que em 2002.

http://webserver.cm-lisboa.pt/servicos/dmis/dhurs/noticias/recortes.asp?id=23 (03-02-2006)