Camões  
  Revista de Letras e Culturas Lusófonas  
 
 
  Número 2      ·       Julho-Setembro de 1998  
 
 
 
Ambiguidade e ironia em Lygia Fagundes Telles

Urbano Tavares Rodrigues


A voz de Lýgia Fagundes Telles murmura, quase nunca se exalta, acaba por sorrir de quase tudo.

Grande admirador de Lygia Fagundes Telles, Urbano Tavares Rodrigues seguiu de perto a evolução da sua obra e conviveu com a escritora durante as suas frequentes viagens ao Brasil, terra de exílio do seu irmão Miguel.

Em Histórias do Desencontro, livro que constituiu para o autor a revelação do seu talento, encontra-se já "em germe, o seu universo: um mostruário, mais interior que exterior, de vida em que se tocam, se repelem, se frustram, dita com a contenção dos maiores escritores, mormente dos contistas, a escolha o essencial e do lacunar, a importância do subtexto, as grandes obsessões da autora – a morte, a outra possível dimensão dos seres, o amor em fuga ou as tentações e traições e euforias envinagradas."

Na linguagem só aparentemente coloquial de Lygia Fagundes Telles e no seu olhar sobre as coisas perpassa sempre uma ironia de matizes afectivos e uma ambiguidade bem patente, por exemplo, no dissolver da oposição entre o bem e o mal característica das histórias de A Noite Escura mais eu.

Ambiguidade e ironia são aliás, dois traços marcantes da escrita de Lygia Fagundes Telles, desde o romance de adolescência, Ciranda de Pedra, passando por As Meninas, obra de uma juventude empenhada nas lutas dos anos sessenta, até ao deslumbramento de A Noite Escura mais eu, uma extraordinária reflexão sobre a morte. Neste livro de contos, a economia narrativa e estilística de Lygia Fagundes Telles - expressa na ironia, no não dito, no ecletismo dos processos de enunciação em que as personagens são frequentemente animais e até objectos inanimados - atinge, segundo Urbano Tavares Rodrigues, a perfeição.

 

 

 
     
 

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