Camões  
  Revista de Letras e Culturas Lusófonas  
 
 
  Número 8      ·       Janeiro-Março de 2000  
 
 
 
Bravos homens de outrora

Vera Lucia Bottrel Tostes

«Parece que guardava o claro céu
A Manuel, e seus merecimentos,
Esta empresa tão árdua, que o moveu
A subidos e ilustres movimentos;
Manuel, que a João sucedeu
No reino e nos altivos pensamentos,
Logo como tomou do reino o cargo,
Tomou mais a conquista do mar largo»

Camões, Canto I -V

Quando, nos séculos XV e XVI, os portugueses lançaram-se à conquista do "mar largo" desconhecido, protagonizaram uma das maiores odisseias do milénio. Celebre-se então os feitos heróicos daqueles que praticamente conquistaram o mundo, vencendo oceanos em embarcações movidas a velas. Bravos homens de outrora que superaram os medos e as próprias limitações.

Celebrar fatos memoráveis tem sido uma prática do homem desde a Antiguidade Clássica. Na sociedade moderna, entende-se comemorar como um estímulo tanto para a memória quanto para os sentidos, abrindo caminhos para o conhecimento, reforçando laços sociais e congregando indivíduos.

Assim, é possível, 500 anos depois, rememorar o heroísmo português e perceber que foram necessários cinco séculos para que o homem, mais uma vez, se lançasse ao desconhecido. O mar e o espaço - cada um no seu tempo - foram os desafios que motivaram o desenvolvimento tecnológico. No século XX o homem conquistou o espaço e a lua, a bordo de foguetes espaciais. O olhar para trás cria o espanto de compreender, hoje, a precariedade instrumental das conquistas daquele tempo - o achamento do Brasil entre elas.

Uma forma de comemorar um feito histórico é prestar homenagem aos homens que o realizaram. Dentre os 1.500 que compunham a esquadra de Pedro Álvares Cabral e que, na manhã de 9 de março de 1500 deixaram Portugal rumo a Calecute, na Índia, poucos deixaram seus nomes na história. Através de notas genealógicas e do brasonário prestamos homenagem a todos os seus capitães e ao escrivão da viagem, que deu origem ao "achamento" da Terra de Vera Cruz - Brasil.

As fontes impressas são divergentes quanto ao número de capitães. Pero Vaz de Caminha, em sua carta a D. Manuel, cita sete, entre eles o capitão-mor Pedro Álvares Cabral, Nicolau Coelho, Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Aires Gomes (Aires Gomes da Silva), Bartolomeu Dias e Vasco de Ataíde, cujo navio se perdeu dos demais próximo às ilhas de Cabo Verde. Além destes, são apontados por outras fontes, nos comandos das embarcações: Diogo Dias, Simão de Pina, Luís Pires, Gaspar de Lemos, Pero de Ataíde e Nuno Leitão da Cunha.

A esses capitães, agregamos o escrivão Pero Vaz de Caminha, que, ao escrever para o Rei relatando o achamento da nova terra, deixou para a história do Brasil o seu primeiro registro; ou, como denominou o historiador Capristano de Abreu, o "diploma natalício lavrado à beira do berço de uma nacionalidade futura [Abreu, 1929: p. 53].

Há indícios de que os motivos que levaram à escolha desses homens notáveis foram a nobreza de sangue e os feitos realizados em outras navegações. Essa combinação conferiu à expedição o carácter especial da armada, como mostra a carta em que Pedro Álvares é nomeado seu capitão: "[...] fazemos saber a vós capitães fidalgos cavaleiros, escudeiros, mestres e pilotos marinheiros e companhia e oficiais e todas as outras pessoas que aqui enviamos na frota e armada que vai para a Índia, que nós, pela muita confiança que temos em Pedro Alvares de Gouveia fidalgo de nossa casa e por conhecermos dele que nisto e em toda outra coisa que lhe encarregamos nos saberá muito bem servir e nos dará de sua muito boa conta e recado lhe damos e encarregamos a capitania mor de toda a dita frota e armada" [Carta Régia de nomeação de Pedro Álvares de Gouveia para capitão-mor da armada a enviar à Índia. Citado por Magalhães, 1999: p. 37]

Os navegadores portugueses que integraram a esquadra de Cabral traziam como armas as de suas famílias e linhagens, transmitidas por herança aos descendentes, sem diferenças que indicassem introdução de novos ramos ou de novas gerações. Somente Nicolau Coelho passou a usar armas diferenciadas das de família, além de Bartolomeu Dias, que recebeu armas novas, outorgadas pelo rei, em recompensa a serviços prestados, sem necessidade de comprovação de ascendência nobre.

 

De púrpura celestial
sobre prata muito luzente
a geração muito valente
que delas se diz Cabral
traz sem ouro deferente.

João Rodrigues de Sá [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Pedro Álvares Cabral. De prata com duas cabras passantes de púrpura, uma sobre a outra. Timbre: a cabra do escudo

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares nasceu em Belmonte, em 1467 ou 1468, filho de Isabel Gouveia e Fernão Cabral. Ainda menino, com o pai, desenvolveu aptidões marinheiras, tradicionais na família. Na corte de D. João II (1481-1495), onde entrou como moço fidalgo, aperfeiçoou-se em cosmografia e marinharia. No reinado de D. Manuel I (1495-1521) foi agraciado com o foro de fidalgo do conselho, o hábito da Ordem de Cristo e uma tença, pensão em dinheiro anual. Casou-se com D. Isabel de Castro, alargando assim sua fortuna pessoal, até então dividida com os dez irmãos.

Como não era o primogénito, foi apenas a 15 de fevereiro de 1500 - quando recebeu de D. Manuel a carta de nomeação para capitão-mor da armada que partiria para a Índia - que Pedro Alvares Gouveia adoptou o sobrenome paterno: Cabral.

A nobreza dos Cabral, com base na lealdade, remonta até seu terceiro avó, Álvaro Gil Cabral, alcaide-mor do castelo da Guarda, no reinado de D. Fernando (1367-1383) e de D. João I de Avis (1385-1433), quando recebeu por mercê as alcaidarias dos castelos da Guarda e Belmonte, com hereditariedade à sua descendência. Dessas terras fronteiras da Espanha, terras de pastoragem, nasceram os símbolos das cabras passantes dos Cabral.

Escolhido por D. Manuel para comandar a armada com destino a Calecute, na Índia, Pedro Álvares Cabral embarcou a 9 de março de 1500 na nau capitânea. Além de desempenhar com competência as funções determinadas pelo rei junto ao Samorim de reerguer a imagem de Portugal, instalar um entreposto comercial e retornar com grande quantidade de mercadorias, foi ele o capitão-mor que chegou ao Brasil, em 22 de Abril de 1500, abrindo para Portugal um novo horizonte de conquistas territoriais.

Não obstante o facto de, das treze embarcações da armada, regressarem somente seis a Portugal, foi posteriormente convidado para nova empreitada marítima, mas não aceitou o convite. Sua vida transcorreu sem novas aventuras, vindo a falecer em 1520, em Santarém, sendo enterrado na Igreja da Graça.

Este homem, lembrado pelos brasileiros como aquele que "descobriu" o Brasil, não recebeu do rei as mesmas honrarias outorgadas a Vasco da Gama. No entanto, no Brasil, é ele o grande homenageado a 22 de abril de cada ano.

 

Estes deixaram Castela
por seguir a Portugal
de que lhe não veio mal
posto que deixaram nela
Berlangue e outra que tal.

João Rodrigues de Sá [Zuquete, 1961

Brasão de armas de Sancho de Tovar. Azul com banda de ouro, abocada por duas cabeças de leão de ouro. Timbre: Leão azul sainte, armado e linguado de ouro.

Sancho de Tovar

O substituto de Cabral na armada pertencia a família espanhola, que passou a Portugal com seu pai Martim Fernandes de Tovar, onde se casou com D. Leonor de Vilhena. Por ter tomado o partido do rei português Afonso V (1438-1481) contra os reis de Castela, Fernando e Isabel (1474-1504), Martim Fernandes de Tovar foi degolado quando regressou a Castela em 1500, apesar da paz que então havia entre os dois países. Por vingança, seu filho, Sancho de Tovar, matou o corregedor responsável pela execução e voltou a Portugal, perdendo o direito ao senhorio de Cevico.

D. Manuel, por motivos políticos, deu acolhida a Sancho de Tovar e, reconhecendo suas habilidades de marinheiro, integrou-o à esquadra de Cabral. Sua participação durante a viagem foi intensa. Não apenas desembarcou na terra de Santa Cruz, como os demais, mas também levou dois dos nativos para seu navio, na condição de hóspedes, segundo cita a carta de Caminha.

Por ocasião do regresso a Portugal, após a estada na Índia, Tovar foi o responsável pela chegada à ilha de Sofala, então famosa por suas minas de ouro. Nessa ocasião deu-se a destruição de seu navio, carregado de especiarias que, tendo encalhado sem possibilidade de salvação, foi incendiado a mando de Cabral. Quando regressou a Lisboa, deixou de receber a atenção de D. Manuel, uma vez que os motivos políticos que levaram o rei a distingui-lo haviam desaparecido.

 

Aspa trazem colorada
os que tiveram Miranda
e aquela nobre Aranda
sobre ouro atravessada
com flores de lis em banda.

D. João Ribeiro Caio [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Simão de Miranda. De ouro com aspa de vermelho, acompanhada de quatro flores-de-lis de verde. Timbre: flor-de-lis do escudo

Simão de Miranda

Simão de Miranda de Azevedo pertencia a uma das nobres famílias portuguesas, de importantes serviços de lealdade a D. João I (1385-1433).

Filho de Diogo de Azevedo e neto de Martim Afonso da Charneca - arcebispo de Braga, que foi embaixador em França, de onde regressou com D. Mécia Gonçalves de Miranda, com quem teve dois filhos, que herdaram o nome materno.

Simão de Miranda pertencia a uma família de ricos-homens com morgadios.

Simão de Miranda casou-se com D. Joana Correa, filha de Aires Correa, integrante da armada de Cabral como feitor geral.

Após 1500 fez nova viagem à Índia em 1512, desta vez na armada de Jorge de Melo, comandando uma nau. Morreu em Sofala, em 1515.

 

Esta ilustre e fatal
A Quinta da Silva mãa
que perto de Braga está
A Hespanha e Portugal
Catorze títulos dá.

Manuel de Sousa da Silva [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Aires Gomes da Silva. De prata, com um leão de púrpura e linguado de azul. Timbre: leão do escudo, sainte.

Aires Gomes da Silva

Aires Gomes da Silva nasceu em uma das famílias mais consideradas da Península, tendo origem nos reis de Leão. O sobrenome se firma a partir da descendência de D. Paio Guterres da Silva, rico-homem, governador de muitas terras no reinado de D. Afonso VI de Leão (1065-1109).

No tempo de D. Fernando (1367-1383) e D. João I (1385-1433), Gonçalo Gomes da Silva e João Gomes da Silva, respectivamente bisavó e avó de Aires Gomes da Silva, receberam citações honrosas por seus feitos e bravura. Desde então, a linhagem nunca deixou de figurar entre honras e cargos de distinção.

Filho de Pero da Silva - por sua vez bastardo de João da Silva, alferes-mor de D. João I, Aires Gomes da Silva esteve no Brasil e, como Cabral e Simão de Miranda, embarcou um índio como pagem.

Em 24 de maio de 1500, a caminho do Cabo da Boa Esperança, sua embarcação naufragou, juntamente com outras três, como resultado de violenta tempestade.

 

Junto do Douto e Sinfães
Coelha quinta honrada
Foi a primeira morada
dos Coelhos mui leais
Nessa idade passada.

Manuel de Sousa da Silva [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Nicolau Coelho. Vermelho, com um leão de ouro, armado e linguado de azul, ladeado de duas colunas de ouro assentes num contrachefe cortado de verde e faixado ondado de prata e de azul; cada coluna rematada por um escudete de azul carregado de cinco besantes de prata postos em sautor. Timbre: o leão do escudo, sainte.

Nicolau Coelho

Nicolau Coelho vem de família descendente de D. Soeiro Viegas Coelho, casado com D. Mor Mendes, filha de D. Mem Moniz de Gandarei, o primeiro a entrar em Santarém após a vitória de D. Afonso Henriques (1112-1139) sobre os mouros. Com descendências importantes para a história do Brasil, como por exemplo Duarte Coelho, donatário da capitania de Pernambuco e fundador, em 1535, da vila de Olinda.

As armas dos Coelho, tanto em Portugal como em Espanha, são: "de ouro, leão de púrpura, armado e lampassado de vermelho e carregado de três faixas xadrezadas de azul e de ouro; bordadura de azul, carregada de cinco coelhos de prata, manchados de negro." Nicolau Coelho e seus descendentes, de acordo com a concessão feita por D. Manuel, usam armas próprias.

Experiente em navegação, acompanhou Vasco da Gama em 1497, na primeira viagem deste à Índia, como comandante da nau Bérrio. Retornou antes dos demais dessa viagem, levando as boas novas sobre a descoberta a D. Manuel, que o cumulou de honrarias. Em carta de fevereiro de 1500, o rei concedeu-lhe alta pensão anual, propriedades para ele e seus descendentes, bem como distinções heráldicas.

Após seis meses do retorno, embarcou novamente, desta vez na esquadra de Cabral, mal refeito dos sustos e cansaços da viagem anterior. Novamente teve atuação destacada. Desembarcou na terra de Vera Cruz no primeiro batel, estabeleceu contato com os habitantes e participou da primeira visita realizada pelos indígenas à nau capitânea. Após a viagem à Índia e o novo retorno a Lisboa, já em 1503 esteve no comando de uma nau da armada de Afonso e Francisco Albuquerque a Faisal. Desta vez, não teve tanta sorte. A nau afundou na viagem de regresso, levando-o com ela.

 

E da primeira armada que passagem
Fizer por estas ondas insuffridas,
Eu farey dimproviso o tal castigo
Que seja môr o dano que o perigo.
Aqui espero tirar, se não me engano
De quem me descobrio suma vingança.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto V.

Brasão de armas de Bartolomeu Dias. Azul com cinco besantes de prata postos em sautor. Timbre: dois besantes do escudo sobre hastes em aspas, de azul.

Bartolomeu Dias

O sobrenome Dias tem origem calcada em muitas descendências, formando diversos ramos colaterais, alguns deles oriundos de Espanha, com o sobrenome Diez. Pesquisas realizadas até o presente não conseguiram comprovar qualquer ascendência nobre a Bartolomeu Dias, mas as mercês e armas outorgadas a ele passaram a seus descendentes.

O principal navegador da esquadra de Cabral era um marinheiro experiente, tendo sido o primeiro a chegar ao Cabo das Tormentas, como o denominou em 1488, ligando seu nome a um dos mais importantes acontecimentos da história das navegações. Não transpôs o Cabo em razão do motim dos tripulantes, que levou os demais superiores da embarcação a optarem pelo retorno.

Acompanhou a construção dos navios e integrou a esquadra de Vasco da Gama em 1499. O sucesso da descoberta do caminho marítimo para a Índia levou o rei D. João II a rebatizar o Cabo das Tormentas, chamando-o de Cabo da Boa Esperança.

A carta de Pero Vaz de Caminha faz diversas referências ao navegador, apontando para a confiança que o capitão-mor tinha em Bartolomeu Dias. Quando a armada de Cabral navegava em direção ao Cabo, após sua estada no Brasil, um forte temporal causou o naufrágio de quatro naus, estando entre elas a de Bartolomeu Dias.

 

Diogo Dias

Irmão de Bartolomeu Dias, também fez parte dos poucos navegadores experientes que compunham a armada de Cabral. Acompanhou o irmão na viagem do descobrimento do Cabo da Boa Esperança e, posteriormente, seguiu na nau São Gabriel, como escrivão, durante a viagem de Vasco da Gama à Índia. Já em Calecute, foi feito prisioneiro e com dificuldade conseguiu escapar.

Integrante da esquadra de Cabral como capitão de um dos navios, também teve problemas com a tempestade de 24 de maio. Sua embarcação se perdeu das outras durante a tormenta, e Diogo Dias acabou por ser o primeiro capitão português a viajar pelo mar Vermelho. Seu retorno a Lisboa foi bastante difícil, uma vez que a tripulação estava reduzida a apenas sete homens.

 

De Pero Pyna declina
esta linhagem muito digna
de grão louvor, e pregão,
veio ca ter d'Aragão,
e dai vem os de Pyna.

João Rodrigues de Sá [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Simão de Pina. Vermelho, com banda de ouro, carregada de um leão azul e acompanhada de dois pinheiros de verde, arrancadas de prata e frutadas de ouro. Timbre: uma cabeça de leão de ouro, saindo-lhe da boca um ramo de pinheiro do escudo.

Simão de Pina

Simão de Pina é de família antiga, originária do Reino de Aragão, que chegou a Portugal em 1282.

Multiplicou-se com os séculos, tendo descendentes no sul e na Guarda, com brasões diferenciados.

É filho de Diogo de Pina e neto de Vasco Anes de Pina, a quem D. João I deu a alcaidaria de Castelo de Vide, em reconhecimento por serviços prestados.

Integrou a esquadra de Cabral, tendo naufragado a 24 de maio, a caminho da Índia, como resultado da violenta tempestade que se abateu sobre as embarcações.

 

 

Pero de Ataíde

O sobrenome Ataíde vem de antiga família, proveniente de São Pedro de Ataíde, onde provavelmente teve origem o nome. Apesar das indicações que Pero de Ataíde tenha ascendência nobre, a confirmação não é possível.

Dos treze que faziam parte da esquadra de Cabral, é um dos poucos comandantes dos quais se sabe o nome do navio - São Pedro. Segundo os historiadores, um navio pequeno de 70 toneladas que, no entanto, protagonizou interessante episódio durante a estada na Índia. Conta-se que o Samorim de Calecute (com curioso senso ético) costumava apoderar-se do que não lhe permitiam comprar. Estando Cabral e seus comandados em Calecute, pediu-lhe o Samorim - possivelmente acreditando estar pedindo algo muito difícil - que os portugueses aprisionassem uma nau que transportava cinco elefantes, pelos quais havia oferecido bom preço, sem sucesso. Cabral concordou e encarregou Pero de Ataíde da missão. No confronto com a nau dos elefantes, tripulada por mais de 300 homens armados com flechas, a sua tripulação de 60 ou 70 homens muitíssimo bem armados, levou vantagem. Bastaram alguns tiros e o "inimigo" rendeu-se.

Em 1502 voltou à Índia, onde permaneceu até 1503, tendo-se perdido no regresso. Salvo com alguns tripulantes, foi para Moçambique, onde morreu.

 

De Santa Cruz no conselho
Está a Quinta do Pinheiro
de Ataíde verdadeiro
Solar no Portugal velho
grande neste pardieiro.

Manuel de Sousa da Silva [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Vasco de Ataíde. Azul com quatro bandas de prata. Timbre: leopardo com quatro bandas de prata.

Vasco de Ataíde

A família Ataíde é uma das mais distintas de Portugal e deu origem a importantes gerações.

Sabe-se bem pouco sobre Vasco de Ataíde e não há informações conhecidas sobre a sua família. Existem, inclusive, controvérsias quanto ao seu destino.

Alguns historiadores consideram que seu navio foi um dos quatro que naufragaram durante a tempestade de 24 de maio. No entanto citamos Caminha sobre o assunto: "Na noite seguinte segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais".

A noite a que Caminha se refere é a de 23 de março de 1500, um dia depois da esquadra ter passado pelas ilhas de Cabo Verde.

 

Cinco cunhas testemunhas
sobre campo ouro banha
são de vir de terra estranha
o nobre sangue dos Cunhas
a selo mais em Espanha.

João Rodrigues de Sá [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Nuno Leitão da Cunha. De ouro, com nove cunhas de azul, postas 3, 3 e 3. Timbre: grifo sainte de ouro, semeado de cunhas de azul, com asas de um no outro.

Nuno Leitão da Cunha

Família antiga que provém de D. Paio Guterrez da Silva, com terras desde o século XI no reinado de D. Afonso VI (1065-1109).

Não são encontradas informações sobre suas origens diretas, embora alguns livros ilustrem com as armas assemelhadas às da família Cunha os verbetes sobre o capitão.

O sobrenome origina-se no senhorio da quinta de Cunha-a-Velha.

Sabe-se também muito pouco a respeito do comandante Nuno Leitão da Cunha.

Após a chegada à Índia, durante o assalto sofrido pela feitoria de Calecute, consta que salvou a vida de António Correia, menino de 12 anos, filho de Aires Correia, feitor, e que mais tarde praticaria grandes feitos na Índia.

 

 

Lemos e a geração
cujas estas armas são,
de Galícia antigamente
a Portugal esta gente
veio com justa razão.

João Rodrigues de Sá [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Gaspar de Lemos. Vermelho, com cinco cadernas de crescente de ouro, postas em sautor. Timbre: uma águia de vermelho, armada de ouro carregando do peito a caderna do escudo e assentada sobre ninho verde.

Gaspar de Lemos

Família originária dos reis de Leão, no reinado de D. Afonso IV (1325-1357) de Portugal.

Seus integrantes receberam muitas terras e constituíram morgados com D. João I.

Embora as fontes não citem as origens de Gaspar de Lemos, alguns livros utilizam as armas da família Lemos para ilustrar verbetes sobre ele.

Como comandante do navio que transportava mantimentos, foi designado por Cabral para retornar a Portugal, após curta estada em terras de Vera Cruz, levando para D. Manuel as notícias sobre o descobrimento.

 

 

 

 

Brasão de armas de Luís Pires. Vermelho, com cruz de ouro, cantonada de quatro flores-de-lis do mesmo; contrachefe ondado de prata e de azul; bordadura de ouro, carregada de oito aspas de vermelho. Timbre: uma aspa de ouro, com uma flor-de-lis de vermelho entre as extremidades superiores.

Luís Pires

Pires ou Peres, como a família se radicou em Portugal, dando origem a muitos ramificações.

As informações quanto a sua linhagem são poucas, assim como as referentes à sua atuação na armada.

Alguns historiadores consideram que naufragou com a tempestade de 24 de maio.

 

 

 

Os Caminhas, de Caminha,
Devem certo proceder,
Para o Porto vem viver
Donde foram mui azinha
A Villa Viçosa ter.

Manuel de Sousa da Silva [Zuquete, 1961]

Brasão de armas de Pêro Vaz de Caminha. Vermelho, com três trancas de prata, ferradas de ouro, postas em banda e alinhadas em barra, cada tranca guarnecida de uma aldraba do mesmo, pelo qual está ligada a do alto à do meio, a do meio à de baixo e esta ao ângulo direito da porta. Timbre: um braço vestido de azul, empunhando uma tranca do escudo.

Pero Vaz de Caminha

O escrivão da armada responsável pela carta que comunicou a D. Manuel o achamento do Brasil descende de família de origem antiga.

D. Nodinho, que viveu no tempo de D. Fernando, é possível que tenha sido um dos primeiros povoadores da terra de Neiva, onde vivia. Seu sucessor foi Paio Nodins, que viveu durante o reinado de D. Afonso VI, sendo seu filho Paio Pais Caminha.

Filho de Vasco Fernandes de Caminha, cavalheiro da casa do duque de Guimarães, Pero Vaz foi cavaleiro das casas de Afonso V, D. João II e D. Manuel. Tanto o pai quanto o filho, para melhor desempenhar as atribuições concernentes aos cargos que exerciam, precisavam exercitar a prática e desenvolver o conhecimento da escrita, uma vez que não eram modestos funcionários, mas homens que se distinguiram por seus ofícios a serviço de reis. Segundo cronistas e historiadores, D. Manuel - que nomeou Caminha para o cargo de Mestre da Balança da Moeda na cidade do Porto, onde nasceu - dedicava-lhe grande afeição.

Pero Vaz possuía bens em sua cidade natal. Casou-se com D. Catarina Vaz e teve pelo menos uma filha, Isabel. Faleceu em Calecute, em dezembro de 1500, durante assalto dos mouros à feitoria portuguesa.

No tempo de D. Manuel (1495-1521), quando foram designados os capitães da armada que chegaram ao Brasil em 22 de abril de 1500, a nobreza portuguesa já registrava uma ordem que datava do século XII.

A primeira nobreza portuguesa formou-se a partir do reinado de D. Afonso VI (1072-1109), de Leão, com homens descendentes de fidalgos leoneses que se estabeleceram ao norte de Portugal, em especial entre o Douro e o Minho. Nessa região situavam-se os solares e os homens mais poderosos do reino.

Constituíram uma nobreza formada por "ricos-homens", senhores poderosos que uniam fidalguia de nascimento à autoridade e ao prestígio de cargos públicos, seguidos na hierarquia, em ordem decrescente, pelos "infações", "cavaleiros" e "escudeiros". Os "infações" - denominação de origem espanhola - correspondiam a filhos de alguém". A designação se aplicava a todos os funcionários superiores, tendo o termo dado origem à palavra "fidalgo", que no século XIV generalizou-se e passou a nomear todos os nobres de linhagem, designando a mais alta categoria da nobreza, sem dependência de cargo público.

No reinado de D. Manuel foram estabelecidas regras que definiriam o uso dos graus de nobreza, bem como o uso das armas heráldicas, evitando abusos na adoção de ambos e estabelecendo os direitos da nobreza. Os nobres ficaram sujeitos ao rei e foram organizados em duas ordens, cada uma com três graus: os "ricos -homens", que começavam como "moço fidalgo", passavam a "fidalgo-escudeiro" e chegavam a "fidalgo-cavaleiro", na primeira ordem. Na segunda encontravam-se os "moços de câmara", "escudeiros -fidalgo" e "cavaleiros-fidalgo".

A nobreza tomou caráter palaciano e, para receber novos graus, o agraciado precisava comprovar gerações de serviços prestados ao rei.

Os nobres integrantes da esquadra de Cabral obedeciam a essa característica, uma vez que na maioria descendiam de famílias oriundas de Leão e Castela, radicadas em Portugal com gerações de serviços ao rei. As poucas exceções - como Bartolomeu Dias, que recebeu grau e armas deixados para sua descendência - demonstram a importância atribuída ao feitos nesse período dos descobrimentos.

As armas heráldicas igualmente organizadas no reinado de D. Manuel, quando houve a regulamentação do direito de uso e das funções da Corporação dos Reis de Armas, contida na carta de Ordenação Manuelina (1520, título 37), que especifica, "as armas dos nobres e fidalgos nos nossos reinos devem andar em todas as certidões por serem sinais da nobreza e linhagem de cada um" [Tostes, 1996: p. 99].

Os navegadores portugueses traziam como armas as de suas famílias e linhagens. Poucos receberam armas diferenciadas, como Nicolau Coelho, que teve as armas da família alteradas, ou Bartolomeu Dias, que recebeu novas.

Apesar dos séculos XV e XVI terem sido ricos em atos de bravura e feitos heróicos, os relativos aos Descobrimentos não representaram um acréscimo aos símbolos, atributos e novas armas no brasonário português. Nesses séculos poucas foram concedidas, e nem todas as mercês heráldicas foram registradas no livro hoje conhecido dos personagens ligados à expansão marítima. O mesmo, pode-se dizer, não ocorreu com os envolvidos nos combates, sobretudo por ocasião da ocupação do norte da África, encontrando-se maior número de brasões com atributos próprios, como a "cabeça de mouro".

A heráldica dos Descobrimentos fica restrita aos símbolos herdados de família, ligadas às localidades de origem, como a de Nuno Leitão da Cunha com nove cunhas simbolizando o senhorio de Cunha-a-Velha, ou aos "falantes", como as cabras, dos Cabral, sem sugerir ou representar os desafios encontrados no mar e sua conquista. O brasão de Nicolau Coelho que tem o contra-chefe ondado em prata e azul podendo simbolizar o mar conquistado constitui a única exceção. O brasonário da armada comandada por Pedro Álvares Cabral é um retrato de sua época, com fidalgos, cavaleiros e escudeiros que nos brasões deixaram a marca familiar.

Aqui prestamos a merecida homenagem a todos, através dos notáveis nobres integrantes da Armada de Cabral. Homens que contribuíram para o conhecimento, diminuíram distâncias e iniciaram a extraordinária façanha desenvolvida nos séculos seguintes - a construção do Brasil.

 

Bibliografia

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GUEDES, Max Justo: O Descobrimento do Brasil. Coleção: Documenta Histórica, Lisboa, 1997.

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TOSTES, Vera Lúcia Bottrel: Títulos e Brasões - Sinais da Nobreza, JC Editora, Rio de Janeiro, 1996.

ZUQUETE, Afonso Eduarddo Martins de: Armorial Lusitano: Genealogia e Heráldica, Ed. Enciclopédia, 1961.

 

 

 
 

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