Camões  
  Revista de Letras e Culturas Lusófonas  
 
 
  Número 1      ·       Abril-Junho de 1998  
 
 
 


Os Instrumentos Musicais e as Viagens dos Portugueses

João Pedro Caiado


Escravos africanos dançando ao som de tambores e instrumentos de cordas. Zacharias Wagener (1614-1668), Thier Buch, fl. 105. Dresden, Kupferstich-Kabinett.

A expansão portuguesa da época moderna e posteriormente a emigração para o Brasil, para África e para a Europa nos séculos XIX e XX, levaram os portugueses a contactar com as práticas musicais de outras culturas.

As primeiras fontes de que dispomos – descrições das viagens ao longo da costa ocidental africana, constituem, segundo Vitorino Magalhães Godinho, "testemunhos vividos da experiência e memórias pessoais dos feitos, utilizando também o testemunho oral e por vezes escrito (...) dos indígenas."

Os instrumentos usados pelas populações da costa ocidental africana são minuciosamente descritos e incluem violas, violetas de duas cordas e atabales, no Senegal, xilofones e violas no reino do Congo e as famosas orquestras de marimbas em Moçambique.

Para além dos instrumentos, os relatos dão-nos também informações curiosíssimas sobre as práticas musicais indígenas. No reino do Senegal, "as mulheres (...) são muito jucundas e alegres; cantam e bailam de bom grado principalmente as moças; mas não bailam senão à noute à claridade da lua; o seu bailar é muito diferente do nosso." Estas descrições são particularmente reveladoras do olhar de quem escreve. A musicalidade e sentido dramático dos músicos africanos originam o seguinte comentário, a propósito de uns tocadores de alaúde (relato de Pigafetta de 1591): "Ainda mais, cousa espantosa, através daquele instrumento exprimem os seus pensamentos e fazem-se entender tão claramente, que quase tudo o que podemos dizer com palavras o podem eles declarar com os dedos, tocando o instrumento."

A música africana segue os trilhos do comércio de escravos, e influencia outros territórios, dando origem a novas formas musicais, tal como a emigração portuguesa no século passado para o Brasil, e já no século XX para a Europa, recriou nas suas novas terras, os instrumentos e a música popular do seu país de origem.

 

 

 
 

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