Luxemburgo: Exposição "Handle with Care - Portuguese Projects"

Publicado em sexta, 19 outubro 2018 11:26

No âmbito da 5.ª edição do Festival DESIGN CITY LUXEMBOURG, o Camões - Centro Cultural Português (CCP) no Luxemburgo, apresenta de 19 de outubro a 3 de dezembro de 2018 a exposição "Handle with Care - Portuguese Projects", com obras de 12 designers e artistas portugueses, sob a curadoria de Guilherme Braga da Cruz.

 

 

A exposição “Handle With Care – Portuguese Projects” propõe, no espaço do CCP - Luxemburgo, a apresentação do trabalho realizado por um grupo de designers e artistas portugueses, entre os quais Ana Rita António, André Teoman, Carlos Mensil,  BrunoMMCarvalho, Eneida Tavares,  Jorge Carreira, Luis Nascimento, Martinho Pita, Miguel Rios, Samuel Reis, Rita Pereira e Vitor Agostinho.

O grupo expõe um conjunto de peças que têm em comum o vidro. O mesmo é tratado em diferentes formas, em alguns dos casos, numa aceção naturalista, como é o caso das garrafas “Cerne”, de Samuel Reis. A garrafa, símbolo de contentor de líquidos, especialmente água, representa o interior da árvore, o seu núcleo, onde outrora a seiva se diluiu, disseminou, e alimentou a estrutura arbórea, expandindo-a até aos finos ramos, e depois, até às delicadas folhas. O cerne, que dá nome às peças de Reis, representa já o vazio do tronco, que o designer preenche com a técnica de vidro soprado. Da superfície vítrea, outrora líquida e quente, resulta uma textura intrincada de veios sinuosos, provenientes do interior do tronco, marcas impressas diretamente da natureza. O brilho volta ao interior da árvore, e, com ele, ilumina a corrente sanguínea da vida. Numa conceção de design para a vida, progressivamente, afasta-se de uma visão do design industrialista, que não admitia o erro ou o acaso, e que desejava “controlar” os desígnios da natureza, “autodeterminada”, “autorreguladora”, agindo por si própria, independentemente dos desejos do Homem.

O fascínio por esse mistério “autoregulador” voltou, e imprime-se no objecto de design contemporâneo, deixando que a natureza dite a forma. Os moldes, que são, neste caso, os próprios troncos ocos, definem a “substância” aristotélica, ao esculpirem sobre a matéria quente do vidro, as formas da garrafa. Assim, e numa perspectiva “hilemórfica”, não pode haver forma sem matéria, nem matéria sem forma. As peças de Reis, assim como as peças de Luis Nascimento, Vitor Agostinho, Rita Pereira, Jorge Carreira, Martinho Pita, representam esta tensão entre matéria e forma. Não podem ser garrafas ou jarras, ou apresentarem as qualidades de garrafas e de jarras, se não tiverem sido previamente sulcadas pelos moldes que lhes dão essas propriedades de jarras e garrafas.

A menção à estética naturalista é evidenciada igualmente por André Teoman, no candeeiro de tecto “Pico”. Dentro de uma campânula, a forma preciosa de uma montanha colorida deixa-se eclodir e fulgir, e por detrás dela parece revelar-se uma mensagem de protecção à natureza, esta também frágil, por ser de vidro. Lembrando, para quem a frui e usufrui, que a natureza é ela também protegida por ténues camadas que, a qualquer momento, ameaçam quebrar e desintegrar-se.

Miguel Rios e Eneida Tavares, num sentido perfeitamente contemporâneo, lembram a conquista do design pelo direito à memória, ao autóctone. Ao que define os objectos naquilo que eles têm de local e singular. O design conquistou finalmente, à estética industrial, o direito à emoção, ao prazer, ao lúdico, e à história. Combinando “formas ancestrais com novos métodos”, já dizia Élisabeth Couturier.

Esta exposição desperta assim uma reflexão sobre o sempre complexo "flirt" existente entre arte e design, reunindo também artistas plásticos como Carlos Mensil e as suas obras “Chapa 5” que, com um acento humorístico faz emergir assuntos tão sérios como a arte conceptual, ostentando quadros que aludem ao vidro mas que não são mais do que a ideia de vidro. Num olhar mais atento o visitante constata que não passam de finas chapas de metal que, articuladas, dão a impressão de vidro quebrado. Os designers Ana Rita António e BrunoMMCarvalho intensificam esta propriedade do design em produzir trabalhos que se encontram na charneira entre as artes visuais e o design.

Camões, I.P.
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