Maputo: Tertúlias Itinerantes de regresso ao Camões – Centro Cultural Português 

Data
27-09-2023 - 29-11-2023
Localização
Centro Cultural Português em Maputo
Tópicos neste artigo:

Descrição

As Tertúlias Itinerantes, que promoveram o debate sobre interculturalidade no mundo de língua portuguesa, em Maputo, entre agosto de 2016 e março de 2020, estão de regresso à capital moçambicana no dia 27 de setembro de 2023, voltando o Camões - Centro Cultural Português em Maputo a ser um dos espaços de acolhimento destas Tertúlias.

Interrompidas pela pandemia do Covid-19, as Tertúlias Itinerantes apresentaram, durante quase cinco anos, um cartaz de conversas mensais, animadas por especialistas moçambicanos, portugueses, brasileiros e italianos. Partilhando com as suas audiências conhecimento e experiência sobre temas relacionados com a complexa convivência no interior da comunidade cultural de língua portuguesa, estes especialistas abordaram questões como a coexistência entre o português e as línguas nacionais em Moçambique, a tensão entre as culturas locais e a cultura global, ou a decolonialidade nas relações interculturais neste espaço geocultural.

Com o fim da pandemia, poderemos contar com o regresso desta iniciativa já a partir de setembro de 2023, em vários espaços culturais de Maputo, pela mão dos seus habituais promotores: Eduardo Lichuge, Lurdes Macedo, Mário Forjaz Secca e Sara Jona Laisse.

O programa deste regresso das Tertúlias Itinerantes começa a 27 de setembro de 2023, às 18h00, no Camões - Centro Cultural Português em Maputo, onde Eugénio Santana lançará o debate sobre Xico Nhoca e Nhoca Jr. e os olhares destes personagens sobre o passado e o presente. A moderação desta tertúlia estará a cargo de Sarita Monjane Henrikson.

Em outubro, no dia 25, também às 18h00, Matilde Muocha partilhará o seu ponto de vista sobre as "Indústrias culturais e criativas em Moçambique: utopia e realidade", no Centro Cultural Guimarães Rosa. Mário Forjaz Secca fará a moderação desta tertúlia.

O cartaz deste regresso fica completo com a sua última tertúlia, a 29 de novembro, no horário habitual das 18h00, com Augusto Jone, que nos falará sobre "O ensino bilingue e a formação multicultural de professores em Moçambique". Esta última tertúlia, que decorrerá na Casa do Professor, será moderada por Aissa Mithá Isaak.

 

Sobre a 1.ª sessão no Camões - CCP Maputo:

A literatura sobre a interculturalidade tem tendência de focar na relação entre povos prestando pouca atenção aos discursos, representações e práticas dentro do mesmo povo. Por isso, a partir do diálogo intercultural e intracultural procuramos compreender a construção de identidade moçambicana através de caricaturas do Xixonhoca e Nhoc Jr. Filho do Xico e quão disputado é a sua afirmação. Por um lado, entre 1975-1992, deu-se a construção da identidade nacional a partir da criação de caricatura do Xiconhoca na I República - monopartidário que, em oposição ao Homem-Novo, imponha o que não se deveria dizer, ser e fazer. Por outro, a partir de 1994, na “II República” (Ngoenha, 2006) multipartidária, deu-se (re) criação da caricatura do Nhoca Jr. Filho do Xico em oposição ao Xiconhoca. Esta ofereceu uma narrativa alternativa estabelecendo desde modo um dialogo intercultural e intracultural que através de caricaturas, resgata, reconfigura e enfrenta o discurso, representações, e práticas do Poder sem o confrontar.

Através de analise das caricaturas do Xiconhoca no jornal noticias e das do Nhoca Jr. Filho do Xico no semanário Savana observamos que o diálogo intercultural em Moçambique se deu a partir de valores exógenos que foram apropriados e impostos a um contexto cultural heterogéneo e como este foi reconfigurado para expor o paradoxo dos “santos de ontem são o diabo de hoje”.

Estes processos de reconfiguração do poder através de caricaturas expõem dois aspetos que cozem esta apresentação. Primeiro, que a “ideoscape”- refere-se às ideias, símbolos e narrativas que se espalharam pelo mundo - Homem Novo, no caso, a ideia identidade nacional alicerçada no Xiconhoca feita a partir de migrações de ideias exteriores a nossa realidade cultural. Segundo, que na II República a caricatura foi reconfigurada a partir de realidade local para desafiar os valores do poder dos criadores do Xiconhoca sem o confrontar tendo o Nhoca Jr. Filho de Xico assumido o papel de critica.

O nosso diálogo intercultural intracultural tendo como objeto as caricaturas se desenrola no confronto de ideias que se queriam universal- Xiconhoca em alternidade com as que emergem localmente – Nhoca Jr. Filho do Xico.