A escritora portuguesa Lídia Jorge foi distinguida com o Prémio Camões 2026, o mais alto galardão literário da língua portuguesa.
O anúncio foi feito a 2 de julho de 2026, na sequência da decisão unânime do júri, que reconheceu uma obra singular, marcada pela consistência, pela profundidade e pelo contributo inestimável para a afirmação da literatura em língua portuguesa. Com um valor de 100 mil euros, o galardão distingue autores cuja criação literária enriquece e projeta o património comum da lusofonia.
Aos 80 anos, Lídia Jorge afirma-se como uma das vozes maiores da literatura portuguesa contemporânea. Nascida em Boliqueime, no Algarve, em 1946, estreou-se como romancista em 1980 com "O Dia dos Prodígios", obra que se tornou um marco da literatura portuguesa do pós-25 de Abril. Desde então, construiu um percurso literário sólido e diversificado, povoado por romances que interrogam a sociedade portuguesa e a condição humana. Entre os títulos mais emblemáticos destacam-se "O Cais das Merendas" (1982), "Notícia da Cidade Silvestre" (1984), "A Costa dos Murmúrios" (1988), "Estuário" (2018) e "Misericórdia" (2022). Este último romance foi amplamente reconhecido, tendo recebido, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, o Prémio Eduardo Lourenço e o Prémio Médicis Estrangeiro, em França, em 2023.
Além dos inúmeros prémios e distinções que recebeu ao longo da sua carreira, Lídia Jorge empresta o seu nome a várias Cátedras do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. dedicadas à afirmação do português como Língua de Ciência, designadamente nas universidades Federal de Goiás, no Brasil, de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos da América, e de Genebra, na Suíça, expressão do reconhecimento internacional da relevância da sua obra.
Na fundamentação da decisão, divulgada pelo Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, o júri destacou "o diversificado conjunto da sua obra e o grande contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa". Sublinhou ainda uma escrita "marcada por uma prosa poética densa", capaz de entrelaçar memória e história, intimidade e coletivo, dando voz a temas como a transição democrática em Portugal, a condição feminina, a emigração, os conflitos geracionais, as transformações sociais e o papel da memória coletiva na construção da identidade contemporânea.
A decisão foi tomada pelo júri da 38.ª edição do Prémio Camões, composto pelos portugueses José Carlos Seabra Pereira e Ana Mafalda Leite, pelos brasileiros José Bessa e Lúcia Santaella e pela guineense Odete Semedo e o angolano Lopito Feijóo, em representação dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
Foto: © Luis da Cruz (wikimedia)